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Artigos de
Rubem Alves

Rubem Alves

Biografia:     Rubem Alves é educador, escritor, psicanalista e professor emérito da Unicamp. É autor dos livros: Por uma educação romântica; A escola que sempre sonhei sem imaginar que pudesse...; Fomos maus alunos; Estórias de quem gosta de ensinar e muitos outros. Temos a honra de contar com seus artigos como "colaborador" de nosso portal. 
Site:
Rubem Alves (Site e Livraria)

O sorteio é mais justo

Terminei meu último artigo com a palavra "continua", para mostrar que ainda restavam estocadas a serem desferidas contra o dragão devorador de inteligências.

Eu fizera uma proposta insólita e aparentemente absurda: de que os vestibulares fossem substituídos por um sorteio. Mostrei que, com o sorteio, os inúteis e caros cursinhos desapareceriam. Mostrei ainda que o sorteio libertaria as escolas de sua escravidão aos padrões de conhecimento impostos pelos vestibulares, ficando então livres para verdadeiramente educar. E, ao final, indiquei que o sorteio quebraria a "opção preferencial pelos ricos" que caracteriza o atual sistema, dando chance aos pobres. Agora, os argumentos finais.

4. Os ricos, vendo que a loteria é cega e ignora a riqueza e vendo que os seus filhos não são sorteados, liberados que estão de todas as despesas que tinham anteriormente com os cursinhos, passariam a dispor desses recursos para criar excelentes universidades particulares, sem que o governo tivesse necessidade de fazer qualquer investimento.

5. Eu sou pai. Meus filhos tiveram de frequentar cursinhos e fazer vestibulares. Sei do sofrimento dos pais. Dói muito ver o filho ser reprovado depois de ter passado um ano miserável estudando como um louco coisas que não fazem sentido e serão esquecidas, tais como: "Calcule o logaritmo neperiano da enésima potência da própria base"; "O fenômeno da trissomia é provocado pela: (a) simples deleção dos cromossomos; (b) não-disjunção das cromátides; (c ) não-reversão que ocorre na diacinese; (d) translocação do cromossomo na mitose"; "Quais os afluentes da margem esquerda do rio Amazonas?".

Primeiro, vem o sentimento de injustiça, vendo o processo de tortura inútil a que o próprio filho é submetido. Depois vem o sentimento de inveja... "Meu filho entrou em medicina na USP. E o seu? O meu não passou. Terá de fazer cursinho de novo..."

Dostoiévski, se minha memória não falha, comentando sua experiência de prisão, disse que havia imaginado uma maneira de enlouquecer os presos: bastava submetê-los ao trabalho forçado de esvaziar uma piscina levando a água em baldes para uma outra. Depois de cheia a segunda piscina, eles teriam de fazer a mesma coisa com ela: esvaziar para encher a primeira. Infinitamente.

Fazer o cursinho de novo, a mesma coisa... É terrível ver o filho vivendo a maldição de Sísifo... Com o sorteio, o pai, ao ver que o filho ficou de fora mais uma vez, dá-lhe um abraço e diz: "Vamos tomar um chope?".

Estou consciente da objeção que paira no ar: sem o terror dos vestibulares, os ensinos fundamental e médio se deteriorariam, pois seriam apenas "pro-forma", já que o aprendizado seria irrelevante para o ingresso nas universidades. Mas esse é um perigo facilmente evitado.

O término do ensino médio seria marcado por uma exame nacional, preparado e aplicado pelo Ministério da Educação. O objetivo desse exame seria verificar se os alunos haviam atingido o nível mínimo de aprendizagem exigido. Não seria classificatório. Haveria apenas os conceitos "aprovado" e "reprovado". Todos os aprovados teriam atingido o patamar de conhecimento julgado suficiente. Poderiam entrar no sorteio. Os outros não. Tal exame seria, ao mesmo tempo, um instrumento para avaliar a qualidade de ensino nas escolas.

Já foi sugerido que, para evitar o vestibular, o ingresso nas universidades deveria se basear no histórico escolar do aluno. Para mim, isso seria um desastre. Eu não entraria. Como já confessei, fui mau aluno. E afirmo que, com honrosas exceções, os professores que tive não mereciam que eu aprendesse o que eles diziam estar ensinando.

Currículos escolares de que escolas seriam dignos de crédito? De todas? E as burlas? Como impedir que escolas inescrupulosas oferecessem históricos escolares fajutos, com entrada garantida na universidade? Para evitar tal possibilidade, seria necessário criar um clube de escolas de elite, cujos históricos escolares seriam dignos de crédito. Somente os históricos escolares de alunos de tais escolas seriam aceitos. Mas escolas de elite são caras... Só os ricos poderiam pagar. Tal sistema produziria uma brutal discriminação contra os pobres, pior que aquela que atualmente existe. A emenda seria pior que o soneto...

A utopia do fim do vestibular

Não me lembro direito, mas é mais ou menos assim um versinho que Mario Quintana escreveu sobre as utopias: "Utopias, dirão, são impossíveis... Mas isso não é razão para não tê-las. Que tristes seriam as noites sem a luz mágica das estrelas...". Na noite escura da estupidez dos vestibulares, sugiro que, por um momento, brinquemos sob a luz mágica de uma estrela...

Imaginemos que os vestibulares fossem substituídos por um sorteio. Quais seriam as consequências?

1. A primeira consequência seria o imediato fechamento dos cursinhos. Não teriam mais razão para existir. As classes mais abastadas, que podem pagar seu preço, não teriam como gastar esse dinheiro. (Uma curiosidade: alguém já fez um cálculo de quanto dinheiro se gasta anualmente no preparo para esse ritual inútil? Quanto vale o mercado dos vestibulares? Sei que é muito dinheiro...)

2. Eliminados os vestibulares, as escolas de primeiro e o segundo graus (eu ainda uso terminologias antigas...) estariam livres para ensinar. Não teriam de se ajustar ao imperativo de "preparar para os vestibulares". São os vestibulares que determinam os rumos das escolas. Os professores que preparam as suas questões o fazem na ignorância de que suas escolhas vão estabelecer o rumo das escolas do sistema educacional brasileiro e o destino das crianças e dos adolescentes. Essa é a razão por que as escolas "fortes" se dedicam a treinar os seus alunos com questões de vestibulares anteriores: ITA (1997), USP (1985), Unicamp (2001), etc.

Livres dessa guilhotina, as escolas poderiam se dedicar à literatura por puro prazer, sem ter de ler dinamicamente resumos dos clássicos. Poderiam levar os alunos pelos caminhos da pintura, da poesia, da música, da história da ciência... Haveria lugar para o sonho dos alunos. A importância dos sonhos? Todo conhecimento começa no sonho. Não é à toa que Polya, matemático húngaro que ensinou na Universidade de Princeton, no seu curto livro sobre a arte de resolver problemas, tenha aconselhado: "Comece pelo fim". A resolução do problema é a ponte que se constrói para chegar a esse fim —se é que o aprendiz o sonhou. Primeiro, o sonho da casa; depois, os conhecimentos práticos necessários para construir a casa. Primeiro, o sonho das asas; depois, a milenar investigação de como voar como as aves.

Um amigo meu, o alemão Polykarp Kusch, Prêmio Nobel de Física e ex-presidente da Universidade de Columbia, me confessou que, após ganhar o prêmio, abandonou a pesquisa e passou a se dedicar ao ensino —não dos pós-graduados, mas dos jovens. E os seus cursos começavam sempre com a mesma pergunta: "O que é necessário pressupor para que se faça a ciência da física?" A resposta é simplíssima, embora seja necessária uma longa gravidez e um longo trabalho de parto para que ela surja dentro dos alunos. Dizê-la, simplesmente, de mão beijada aos estudantes, não funciona. Porque nós só entendemos realmente quando o conhecimento é construído como ponte, passo a passo. Conhecer é construir pontes entre o sonho, estrela distante, e o lugar onde me encontro. Como disse Guimarães Rosa, a coisa não está nem na partida nem na chegada. Está na travessia...

A resposta é a seguinte: para fazer física, é preciso pressupor que o universo seja ordenado e racional. Os grandes físicos estão em busca dessa ordem universal. O seu sonho é decifrar as regras desse xadrez fantástico que é o universo. As escolas deveriam ser "sonhatórios" (pois não há "escritórios"?), onde nasceria o pensamento inteligente! Mas isso é incompatível com a ameaça dos vestibulares, que esperam os alunos à moda da esfinge de Édipo: "Dá-me a resposta certa ou te devoro!".

Se os vestibulares fossem substituídos por um sorteio, o fantasma das respostas certas desapareceria, e as escolas poderiam se dedicar à arte de pensar, que é a arte de fazer perguntas inteligentes.

3. Embora haja raras exceções, a regra é que os cursinhos sejam o caminho para passar nos vestibulares e entrar na universidade. Mas os vestibulares e suas crias, os cursinhos, são uma porta estreita que tem uma clara "opção preferencial pelos ricos". Entram nas universidades públicas gratuitas os que têm mais dinheiro. Os mais pobres ficam de fora. Têm de se contentar com universidades particulares pagas, se é que podem. O atual sistema é, assim, um jogo de cartas marcadas. Injusto socialmente. Com o sorteio, todos —ricos e pobres— teriam oportunidades iguais.

Já se fez a sugestão de cotas para os negros, que estão entre os mais seriamente discriminados pela porta estreita. Mas esse artifício não resolve os problemas educacionais que indiquei, produzidos pelos vestibulares. E é provável que crie uma séria consequência social: será impossível evitar que os "brancos" que "quase entraram" desenvolvam um sentimento de raiva contra "os negros que entraram por favor", culpados de eles terem ficado de fora.

Morangos à beira do abismo

Um homem ia feliz pela floresta quando, de repente, ouviu um urro terrível. Era um leão. Ele teve muito medo e começou a correr. O medo era muito, a floresta era fechada. Ele não viu por onde ia e caiu num precipício. No desespero agarrou-se a uma raiz de árvore, que saía da terra. Ali ficou, dependurado sobre o abismo. De repente olhou para a sua frente: na parede do precipício crescia um pezinho de morangos. Havia nele um moranguinho, gordo e vermelho, bem ao alcance da sua mão. Fascinado por aquele convite, para aquele momento, ele colheu carinhosamente o moranguinho, esquecido de tudo o mais. E o comeu. Estava delicioso! Sorriu, então, de que na vida houvesse morangos à beira do abismo...

Escutatório

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma“. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas - coitadinhas delas - entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver e preciso que a cabeça esteja vazia.

Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise...) Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia - a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: “Mas isso não é nada...“ A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.“ Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg - citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas.“ Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico“), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.“ Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.“ Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.“ E assim vai a reunião.

Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em “U“ definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino...“ Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós - como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa - quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto... (O amor que acende a lua, pág. 65.)

Jardim

Um amigo me disse que o poeta Mallarmé tinha o sonho de escrever um poema de uma palavra só. Ele buscava uma única palavra que contivesse o mundo. T.S. Eliot no seu poema O Rochedo tem um verso que diz que temos "conhecimento de palavras e ignorância da Palavra". A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo. Eu acho que Deus, ao criar o universo, pensava numa única palavra: Jardim! Jardim é a imagem de beleza, harmonia, amor, felicidade. Se me fosse dado dizer uma última palavra, uma única palavra, Jardim seria a palavra que eu diria." Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas... São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia.

O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.

Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade.

Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.

Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: "São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada... Um dia você terá saudades... Vocês, então, saberão..." É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constróem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas... O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante... E como é bom!

Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido... Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: "Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma..." Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos...

Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera... Nada me horroriza mais que os filmes de ficção científica onde a vida acontece em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais que navegam pelos espaços siderais vazios... E fico a me perguntar sobre a perturbação que levou aqueles homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas... Com certeza um demônio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou também metálico, eletrônico, sideral e vazio... E com isto, a esperança do Paraíso se perdeu. Pois, como o disse o místico medieval Angelus Silésius:


Se, no teu centro
um Paraíso não puderes encontrar,
não existe chance alguma de, algum dia,
nele entrar.

Este pequeno poema de Cecília Meireles me encanta, é o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelação do nosso lugar e do nosso destino:

"No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, urna violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de urna borboleta."

Metáfora: somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um jardim. Resumo de uma utopia. Programa para uma política. Pois política é isto: a arte da jardinagem aplicada ao mundo inteiro. Todo político deveria ser jardineiro. Ou, quem sabe, o contrário: todo jardineiro deveria ser político. Pois existe apenas um programa político digno de consideração. E ele pode ser resumido nas palavras de Bachelard: "O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso."                                (O retorno eterno, p 65).

Sobre Simplicidade e Sabedoria

        Pediram-me que escrevesse sobre simplicidade e sabedoria. Aceitei alegremente o convite sabendo que, para que tal pedido me tivesse sido feito, era necessário que eu fosse velho.

        Os jovens e os adultos pouco sabem sobre o sentido da simplicidade. Os jovens são aves que voam pela manhã: seus vôos são flechas em todas as direções. Seus olhos estão fascinados por 10.000 coisas. Querem todas, mas nenhuma lhes dá descanso. Estão sempre prontos a de novo voar. Seu mundo é o mundo da multiplicidade. Eles a amam porque, nas suas cabeças, a multiplicidade é um espaço de liberdade. Com os adultos acontece o contrário. Para eles a multiplicidade é um feitiço que os aprisionou, uma arapuca na qual caíram. Eles a odeiam, mas não sabem como se libertar. Se, para os jovens, a multiplicidade tem o nome de liberdade, para os adultos a multiplicidade tem o nome de dever. Os adultos são pássaros presos nas gaiolas do dever. A cada manhã 10.000 coisas os aguardam com as suas ordens (para isso existem as agendas, lugar onde as 10.000 coisas escrevem as suas ordens!). Se não forem obedecidas haverá punições.
        No crepúsculo, quando a noite se aproxima, o vôo dos pássaros fica diferente. Em nada se parece com o seu vôo pela manhã. Já observaram o vôo das pombas ao fim do dia? Elas voam numa única direção. Voltam para casa, ninho. As aves, ao crepúsculo, são simples. Simplicidade é isso: quando o coração busca uma coisa só.
        Jesus contava parábolas sobre a simplicidade. Falou sobre um homem que possuía muitas jóias, sem que nenhuma delas o fizesse feliz. Um dia, entretanto, descobriu uma jóia, única, maravilhosa, pela qual se apaixonou. Fez então a troca que lhe trouxe alegria: vendeu as muitas e comprou a única.
        Na multiplicidade nos perdemos: ignoramos o nosso desejo. Movemo-nos fascinados pela sedução das 10.000 coisas. Acontece que, como diz o segundo poema do Tao-Te-Ching, “as 10.000 coisas aparecem e desaparecem sem cessar.“ O caminho da multiplicidade é um caminho sem descanso. Cada ponto de chegada é um ponto de partida. Cada reencontro é uma despedida. É um caminho onde não existe casa ou ninho. A última das tentações com que o Diabo tentou o Filho de Deus foi a tentação da multiplicidade: “Levou-o ainda o Diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória e lhe disse: ‘Tudo isso te darei se prostrado me adorares.’“ Mas o que a multiplicidade faz é estilhaçar o coração. O coração que persegue o “muitos“ é um coração fragmentado, sem descanso. Palavras de Jesus: “De que vale ganhar o mundo inteiro e arruinar a vida?“ (Mateus 16.26).
        O caminho da ciência e dos saberes é o caminho da multiplicidade. Adverte o escritor sagrado: “Não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne“ (Eclesiastes 12.12). Não há fim para as coisas que podem ser conhecidas e sabidas. O mundo dos saberes é um mundo de somas sem fim. É um caminho sem descanso para a alma. Não há saber diante do qual o coração possa dizer: “Cheguei, finalmente, ao lar“. Saberes não são lar. São, na melhor das hipóteses, tijolos para se construir uma casa. Mas os tijolos, eles mesmos, nada sabem sobre a casa. Os tijolos pertencem à multiplicidade. A casa pertence à simplicidade: uma única coisa.
        Diz o Tao-Te-Ching: “Na busca do conhecimento a cada dia se soma uma coisa. Na busca da sabedoria a cada dia se diminui uma coisa.“
        Diz T. S. Eliot: “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?“
        Diz Manoel de Barros: “Quem acumula muita informação perde o condão de adivinhar. Sábio é o que adivinha.“
        Sabedoria é a arte de degustar. Sobre a sabedoria Nietzsche diz o seguinte: “A palavra grega que designa o sábio se prende, etimologicamente, a sapio, eu saboreio, sapiens, o degustador, sisyphus, o homem do gosto mais apurado. “A sabedoria é, assim, a arte de degustar, distinguir, discernir. O homem do saberes, diante da multiplicidade, “precipita-se sobre tudo o que é possível saber, na cega avidez de querer conhecer a qualquer preço.“ Mas o sábio está à procura das “coisas dignas de serem conhecidas“. Imagine um bufê: sobre a mesa enorme da multiplicidade, uma infinidade de pratos. O homem dos saberes, fascinado pelos pratos, se atira sobre eles: quer comer tudo. O sábio, ao contrário, para e pergunta ao seu corpo: “De toda essa multiplicidade, qual é o prato que vai lhe dar prazer e alegria?“ E assim, depois de meditar, escolhe um...
        A sabedoria é a arte de reconhecer e degustar a alegria. Nascemos para a alegria. Não só nós. Diz Bachelard que o universo inteiro tem um destino de felicidade.
        O Vinícius escreveu um lindo poema com o título de “Resta...“ Já velho, tendo andado pelo mundo da multiplicidade, ele olha para trás e vê o que restou: o que valeu a pena. “Resta esse coração queimando como um círio numa catedral em ruínas...“ “Resta essa capacidade de ternura...“ “Resta esse antigo respeito pela noite...“ “Resta essa vontade de chorar diante da beleza...“. Vinícius vai, assim, contando as vivências que lhe deram alegria. Foram elas que restaram.
        As coisas que restam sobrevivem num lugar da alma que se chama saudade. A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as experiências que deram alegria. O que valeu a pena está destinado à eternidade. A saudade é o rosto da eternidade refletido no rio do tempo. É para isso que necessitamos dos deuses, para que o rio do tempo seja circular: “Lança o teu pão sobre as águas porque depois de muitos dias o encontrarás...“ Oramos para que aquilo que se perdeu no passado nos seja devolvido no futuro. Acho que Deus não se incomodaria se nós o chamássemos de Eterno Retorno: pois é só isso que pedimos dele, que as coisas da saudade retornem.
        Ando pelas cavernas da minha memória. Há muitas coisas maravilhosas: cenários, lugares, alguns paradisíacos, outros estranhos e curiosos, viagens, eventos que marcaram o tempo da minha vida, encontros com pessoas notáveis. Mas essas memórias, a despeito do seu tamanho, não me fazem nada. Não sinto vontade de chorar. Não sinto vontade de voltar.
        Aí eu consulto o meu bolso da saudade. Lá se encontram pedaços do meu corpo, alegrias. Observo atentamente, e nada encontro que tenha brilho no mundo da multiplicidade. São coisas pequenas, que nem foram notadas por outras pessoas: cenas, quadros: um filho menino empinando uma pipa na praia; noite de insônia e medo num quarto escuro, e do meio da escuridão a voz de um filho que diz: “Papai, eu gosto muito de você!“; filha brincando com uma cachorrinha que já morreu (chorei muito por causa dela, a Flora); menino andando à cavalo, antes do nascer do sol, em meio ao campo perfumado de capim gordura; um velho, fumando cachimbo, contemplando a chuva que cai sobre as plantas e dizendo: “Veja como estão agradecidas!“ Amigos. Memórias de poemas, de estórias, de músicas.
        Diz Guimarães Rosa que “felicidade só em raros momentos de distração...“ Certo. Ela vem quando não se espera, em lugares que não se imagina. Dito por Jesus: “É como o vento: sopra onde quer, não sabes donde vem nem para onde vai...“ Sabedoria é a arte de provar e degustar a alegria, quando ela vem. Mas só dominam essa arte aqueles que têm a graça da simplicidade. Porque a alegria só mora nas coisas simples. (Concerto para corpo e alma, pg. 09.)

Jardins

Comecei a gostar dos livros mesmo antes de saber ler. Descobri que os livros eram um tapete mágico que me levavam instantaneamente a viajar pelo mundo... Lendo, eu deixava de ser o menino pobre que era e me tornava um outro. Eu me vejo assentado no chão, num dos quartos do sobradão do meu avô. Via figuras. Era um livro, folhas de tecido vermelho. Nas suas páginas alguém colara gravuras, recortadas de revistas. Não sei quem o fez. Só sei que quem o fez amava as crianças. Eu passava horas vendo as figuras e não me cansava de vê-las de novo. Um outro livro que me encantava era o “Jeca Tatu“, do Monteiro Lobato. Começava assim: “Jeca Tatu era um pobre caboclo...“ De tanto ouvir a estória lida para mim, acabei por sabê-lo de cor. “De cor“: no coração. Aquilo que o coração ama não é jamais esquecido. E eu o “lia“ para minha tia Mema, que estava doente, presa numa cadeira de balanço. Ela ria o seu sorriso suave, ouvindo minha leitura. Um outro livro que eu amava pertencera à minha mãe criança. Era um livro muito velho. Façam as contas: minha mãe nasceu em 1896... Na capa havia um menino e uma menina que brincavam com o globo terrestre. Era um livro que me fazia viajar por países e povos distantes e estranhos. Gravuras apenas. Esquimós, em suas roupas de couro, dando tiros para o ar, saudando o fim do seu longo inverno. Embaixo, a explicação: “Onde os esquimós vivem a noite é muito longa; dura seis meses.“ Um crocodilo, bocarra enorme aberta, com seus dente pontiagudos, e um negro se arrastando em sua direção, tendo na mão direita um pau com duas pontas afiadas. O que ele queria era introduzir o pau na boca do crocodilo, sem que ele se desse conta. Quando o crocodilo fechasse a boca estaria fisgado e haveria festa e comedoria! Na gravura dedicada aos Estados Unidos havia um edifício, com a explicação assombrosa: “Nos Estados Unidos há casas com 10 andares...“ Mas a gravura que mais mexia comigo representava um menino e uma menina brincando de fazer um jardim. Na verdade, era mais que um jardim. Era um mini-cenário. Haviam feito montanhas de terra e pedra. Entre as montanhas, um lago cuja água, transbordando, se transformava num riachinho. E, às suas margens, o menino e a menina haviam plantado uma floresta de pequenas plantas e musgos. A menina enchia o lago com um regador. Eu não me contentava em ver o jardim: largava o livro e ia para a horta, com a idéia de plantar um jardim parecido. E assim passava toda uma tarde, fazendo o meu jardim e usando galhos de hortelã como as árvores da floresta... Onde foi parar o livro da minha mãe? Não sei. Também não importa. Ele continua aberto dentro de mim.

Bachelard se refere aos “sonhos fundamentais“ da alma. “Sonhos fundamentais“: o que é isso? É simples. Há sonhos que nascem dos eventos fortuitos, peculiares a cada pessoa. Esses sonhos são só delas: sonhos acidentais, individuais. Mas há certos sonhos que moram na alma de todas as pessoas. Jung deu a esses sonhos universais o nome de “arquétipos“. Esses são os sonhos fundamentais. O fato de termos, todos, os mesmos sonhos fundamentais, cria a possibilidade de “comunhão“. Ao compartilhar os mesmos sonhos descobrimo-nos irmãos. Um desses sonhos fundamentais é um “jardim“.

Faz de contas que a sua alma é um útero. Ela está grávida. Dentro dela há um feto que quer nascer. Esse feto que quer nascer é o seu sonho. Quem engravidou a sua alma eu não sei. Acho que foi um ser de um outro mundo... Imagino que o tal de “Big-Bang“ a que se referem os astrônomos foi Deus ejaculando seu grande sonho e soltando pelo vazio milhões, bilhões, trilhões de sementes. Em cada uma delas estava o sonho fundamental de Deus: um jardim, um Paraíso... Assim, sua alma está grávida com o sonho fundamental de Deus...

Mas toda semente quer brotar, todo feto quer nascer, todo sonho quer se realizar. Sementes que não nascem, fetos que são abortados, sonhos que não são realizados, se transformam em demônios dentro da alma. E ficam a nos atormentar. Aquelas tristezas, aquelas depressões, aquelas irritações - vez por outra elas tomam conta de você – aposto que são o sonho de jardim que está dentro e não consegue nascer. Deus não tem muita paciência com pessoas que não gostam de jardins...

Menino, os jardins eram o lugar de minha maior felicidade. Dentro da casa os adultos estavam sempre vigiando: “Não mexa aí, não faça isso, não faça aquilo...“ O Paraíso foi perdido quando Adão e Eva começaram a se vigiar. O inferno começa no olhar do outro que pede que eu preste contas. E como as crianças são seres paradisíacos, eu fugia para o jardim. Lá eu estava longe dos adultos. Eu podia ser eu mesmo. O jardim era o espaço da minha liberdade. O jardim era o espaço da minha liberdade. As árvores eram minhas melhores amigas. A pitangueira, com seus frutinhos sem vergonha. Meu primeiro furto foi o furto de uma pitanga: “furto“ – “fruto“ – é só trocar uma letra.... Até mesmo inventei uma maquineta de roubar pitangas... Havia uma jabuticabeira que eu considerava minha, em especial. Fiz um rego à sua volta para que ela bebesse água todo dia. Jabuticabeiras regadas sempre florescem e frutificam várias vezes por ano. Na ocasião da florada era uma festa. O perfume das suas flores brancas é inesquecível. E vinham milhares de abelhas. No pé de nêspera eu fiz um balanço. Já disse que balançar é o melhor remédio para depressão. Quem balança vira criança de novo. Razão por que eu acho um crime que, nas praças públicas, só haja balancinhos para crianças pequenas. Há de haver balanços grandes para os grandes! Já imaginaram o pai e a mãe, o avô e a avó, balançando? Riram? Absurdo? Entendo. Vocês estão velhos. Têm medo do ridículo. Seu sonho fundamental está enterrado debaixo do cimento. Eu já sou avô e me rejuvenesço balançando até tocar a ponta do pé na folha do caquizeiro onde meu balanço está amarrado!

Crescido, os jardins começaram a ter para mim um sentido poético e espiritual. Percebi que a Bíblia Sagrada é um livro construído em torno de um jardim. Deus se cansou da imensidão dos céus e sonhou... Sonhou com um ... jardim. Se ele – ou ela – estivesse feliz lá no céu, ele ou ela não teria se dado ao trabalho de plantar um jardim. A gente só cria quando aquilo que se tem não corresponde ao sonho. Todo ato de criação tem por objetivo realizar um sonho. E quando o sonho se realiza, vem a experiência de alegria. Nos textos de Gênesis está dito que, ao término do seu trabalho, Deus viu que tudo “era muito bom.“ O mais alto sonho de Deus é um jardim. Essa é a razão porque no Paraíso não havia templos e altares. Para que? “Deus andava pelo meio do jardim...“ Gostaria de saber quem foi a pessoa que teve a idéia de que Deus mora dentro de quatro paredes! Um coisa eu garanto: não foi idéia dele. Seria bonito se as religiões, ao invés de gastar dinheiro construindo templos e catedrais, usassem esse mesmo dinheiro para fazer jardins onde, evidentemente, crianças, adultos e velhos poderiam balançar e tocar os pés nas folhas das árvores. Ninguém jamais viu a Deus. Um jardim é o seu rosto sorridente... E se vocês lerem as visões dos profetas, verão que o Messias é jardineiro: vai plantar de novo o Paraíso: nascerão regatos nos desertos, nos lugares ermos crescerão a murta (perfumada!), as oliveiras, as videiras, as figueiras, os pés de romã, as palmeiras... E lá, à sombra das árvores, acontecerá o amor... Leia o livro dos “Cânticos dos Cânticos“!

Pensei, então, que o ato de plantar uma árvore é um anúncio de esperança. Especialmente se for uma árvore de crescimento lento. E isso porque, sendo lento o seu crescimento, eu a plantarei sabendo que nem vou comer dos seus frutos e nem vou me assentar à sua sombra.... Eu a plantarei pensando naqueles que comerão dos seus frutos e se assentarão à sua sombra. E isso bastará para me trazer felicidade!

Aperitivos
Faz tempo, - eu já estava aposentado - encontrei-me com o professor Hermógenes, diretor do horto da UNICAMP. Ele me sorriu e disse:“Aquele seu sonho vai ser realizado...“ O meu sonho a que ele se referia era uma antiga proposta minha à direção da universidade: que houvesse, no campus, um espaço onde se plantassem árvores para os professores, funcionários e alunos mortos. Cada cadáver seria uma semente. Seria o “Jardim dos Encantados“. Uma semana depois desse encontro o Hermógenes morreu, em meio às árvores que ele tanto amava. E o sonho foi esquecido...

A Prefeitura poderia criar estímulos para que os terrenos vazios, baldios, se transformassem em jardins abertos aos moradores dos bairros. Os próprios moradores, vizinhos, seriam os jardineiros. É tão simples. E estímulos para que todos fizessem um jardinzinho – ainda que seja um jardinzinho de janela...

Kurosawa fez um filme maravilhoso sobre isso: um burocrata que, sabendo que ia morrer, tomou a decisão de gastar seus últimos meses lutando contra a burocracia, a fim de permitir que os moradores de um bairro pudessem plantar um jardim. Se não me equivoco o nome do filme era “Viver“. Filme velho, preto e branco. Acho que não se encontra nas locadoras.

Recebi um presente delicioso do sr. Moacyr G. Palhares: um exemplar do “Jeca-Tatu“, de Monteiro Lobato, 34ª edição, 80 milhões de exemplares distribuídos. Obrigado, Moacyr! (Correio Popular, Caderno C, 01/07/2001.)

O jardineiro

Faz tempo ganhei um presente maravilhoso: por conta da Fundação Rockefeller passei um mês na “Villa Serbelloni“. A “Villa Serbelloni“ é um palácio, em tempos idos morada de príncipes e princesas. Dizem as – não sei se boas ou más - línguas que o presidente John Kennedy teve um encontro amoroso com Sophia Loren naquele lugar. Se teve, o lugar foi bem escolhido. Hoje ela está destinada a fins menos românticos: é um centro de estudos e conferências. Para se ganhar presente igual ao meu basta que se tenha um projeto acadêmico passível de ser realizado em um mês. Se for aprovado o candidato passa um mês na “Villa Serbelloni“...

Quando cheguei foi um deslumbramento! Lá embaixo, o lago de Como, azul, suas margens pontilhadas com pequenas vilas. Ao fundo, os Alpes cobertos de neve. Ao redor, bosques e jardins – dezessete quilômetros para se caminhar em meio à beleza. E a cada quarto de hora se ouviam os sinos, os mesmos sinos que eram tocados há séculos. A beleza era prenúncio de um mês de felicidade!

Mas, passados uns poucos dias, a tristeza bateu. A beleza dos bosques e jardins era a mesma mas não me dava alegria. Comecei a ter saudades do meu jardim, jardinzinho que podia ser atravessado com duas dúzias de passos. Os jardins do palácio eram lindos, lindíssimos, muito mais lindos do que o meu. Mas não eram o MEU jardim. Eu não os amava. O jardim que eu amava era aquele onde estavam as plantas que eu havia plantado.

Senti-me igual ao Pequeno Príncipe. No seu pequeno asteróide ele tinha um jardim com uma rosa só. E ele imaginava que sua rosa era única, não havia nenhuma igual em todo o universo. Agora, caído nesse mundo, longe da sua rosa, ele estava aflito. Sozinha, quem cuidaria dela? Havia o perigo de que o carneiro a comesse... Foi então que, andando pelo mundo, ele passou por um mercado de flores. E lá ele viu o que nunca imaginara ver: centenas, milhares de rosas, todas iguais à sua rosa, sendo vendidas aos maços. O seu primeiro sentimento foi de espanto. “-Então, minha rosa não é a única! Ela me mentiu quando me fez acreditar que não havia outra igual... “ Ao espanto seguiu-se a tristeza: rosas, centenas, milhares... Seu jardinzinho era ridiculamente pequeno... Levou tempo para que ele compreendesse que sua rosa lhe dissera a verdade. “– Não! Essas rosas não são iguais à minha rosa. Não são iguais porque a minha rosa é a rosa de quem eu cuidei! Tirei as lagartas de suas folhas – nem todas é verdade, por causa das borboletas - , eu a reguei e pus uma mordaça na boca do carneiro, para que ele não comesse as suas folhas...“

Os adultos têm dificuldade de entender. As crianças são mais inteligentes, elas têm a inteligência do coração. Quando morre um cachorrinho e a criança chora, os grande se apressam em consolar: “- Não chore! Vamos comprar um outro cachorrinho igualzinho ao seu!“ Só a criança sabe que nenhum outro cachorrinho do mundo será igual ao seu cachorrinho que morreu...

Foi assim que me senti em meio aos jardins da “Villa Serbelloni“: eu queria voltar para casa para cuidar do meu jardinzinho! Aprendi então a primeira lição da jardinagem. Jardins bonitos há muitos. Mas só traz alegria o jardim que nascer dentro da gente. Vou repetir, porque é importante: só traz alegria o jardim que nascer dentro da gente. Plantar um jardim é como parir um filho. É preciso que o jardim se forme primeiro, como sonho. Li isso pela primeira vez nos escritos do místico Angelus Silesius: “Se você não tiver um jardim dentro de você, é certo que você nunca encontrará o Paraíso!“ Traduzindo: se o jardim não estiver dentro o jardim de fora não produzirá alegria.

Rickert tem um poeminha que diz assim: “Nossos dias são curtos mas com alegria os vemos passando se no seu lugar encontramos uma coisa mais preciosa crescendo: uma flor rara, exótica, alegria de um coração jardineiro... Uma criança que estamos ensinando. Um livrinho que estamos escrevendo.“ Se tivermos um coração jardineiro a passagem do tempo, a velhice chegando, a morte espreitando, deixam de ser uma experiência de dor. Plantar um jardim é uma liturgia para exorcizar a morte. Eu me alegro olhando para as árvores pequenas que estarão grandes depois que eu ficar encantado.

Conheci um homem muito rico, seu apartamento era imenso. Tendo muito dinheiro, ele contratou um decorador que encheu o seu apartamento com objetos caros e bonitos. Mas todos os objetos eram belos e mortos. Haviam sido comprados em lojas de objetos de decoração. Não haviam saído da alma daquele homem. Não havia “aconchego“. Aconchego existe quando os objetos têm o calor do corpo de alguém. O mesma coisa eu sinto quando olho para certos jardins. Especialmente os jardins dos edifícios de apartamentos. São todos iguais: pedras, troncos, bromélias, palmeiras, as mesmas plantas, que não precisam de cuidados. Os moradores passam por ele sem nada ver. Eles têm razão. O jardim não diz nada. Ele não é de ninguém. O jardim não faz diferença. Nem sequer pensam em cuidar dele. Não sofrem quando uma planta morre.

Um psicanalista tem de ser um jardineiro a procura de um “jardim secreto“. Ele sabe da existência do “jardim secreto“ pelas plantas minúsculas que brotam nas fendas das nossas paredes de cimento. Toda pessoa tem um “jardim secreto“. Cecília Meireles descrevia o corpo de sua avó morta como um lugar onde cresciam “jardins de malva e trevo, com seus perfumes brancos e vermelhos“. Rilke, mais selvagem, via dentro de si mesmo um “bosque antiquíssimo e adormecido...“

Um paisagista tem de ser um psicanalista que procura adivinhar o jardim que cresce dentro das pessoas. Fazer jardins convencionais é fácil. A marca de um jardim convencional é que logo os olhos se acostumam... É preciso ter sensibilidade poética para ver o “jardim secreto“.

Todos estamos em busca de um jardim antiquíssimo. Todos queremos voltar para um jardim antiquíssimo. A alma não deseja novidades. A alma deseja aquilo que ela amou e perdeu. A alma quer sempre voltar. O “jardim secreto“ é o lugar para onde se volta...

Você gostaria de plantar um jardim mas o seu espaço é pequeno. Mas isso não é impedimento. Pode-se plantar um jardim em qualquer lugar. Há jardins que se plantam à volta das janelas e das portas. São lindas as trepadeiras floridas caindo pelas sacadas. Haverá coisa mais delicada que as efêmeras “Manhãs gloriosas“? Walt Whitman dizia que a flor de uma “Manhã Gloriosa“ lhe dava mais alegria que todos os livros de filosofia! As sacadas coloridas com gerânios vermelhos são, numa cidade, a revelação da alma dos seus habitantes!

“Síndrome do grande“ é uma perturbação oftálmica ainda não bem compreendida. Quem sofre dela só vê coisas grandes – não vê coisas pequenas. Para essa doença existe remédio. É só consultar um poeta japonês. Os japoneses sabem como educar os olhos para que eles se assombrem diante do pequeno. Por exemplo: minha amiga Meire, esposa do João Francisco, é uma poeta das dobraduras. Faz origamis minúsculos, maravilhosos, perfeitos. São hai-kais de papel. As borboletas grandes chamam logo a atenção. Mas os desenhos mais elaborados e delicados, eu os encontrei nas borboletas pequenas. E as minúsculas flores silvestres, que passam desapercebidas aos olhos que sofrem da “síndrome do grande“, exibem cores e simetrias assombrosas.

Com coisas pequenas, plantas e flores minúsculas, é possível fazer cenários e jardins dentro de um garrafa de boca larga (12 centímetros). Deita-se a garrafa. Dentro dela a gente constrói uma paisagem: pedras, areia, terra, cascas de árvore, musgos, mini-bromélias, plantas-miniatura, um pouco de água... Tapa-se a garrafa e está pronto o jardim. Ele assim vive por meses – e você poderá tê-lo na sua mesa de trabalho! Vamos! Anuncie o Paraíso! Plante um jardim!

Aperitivos
Veja o filme O Jardim Secreto.

Hans Born, é marido da Tomiko, japonesa. Aquela do Blazer Vermelho e da estória do jardineiro que se apaixonou pela Fräulein. Mandou-me um e-mail. Sobre o filme Viver, do Kurosawa. Cena de que não me lembrava: o burocrata, no fim, já perto de morrer, balança no balanço do jardim que ajudara a construir, com o rosto transfigurado de paz. Se não me engano o filme do Bergman, Gritos e Sussurros, também termina numa cena de balanço. Peço ajuda ao Marcel, especialista em Bergman... Informou-me também o Hans que em Munique há uma área destinada a pequenos jardins que a prefeitura aluga à população. O povo cultiva flores e verduras. E coisa parecida existe também na Holanda.

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