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Artigos de
Paulo Afonso Caruso Ronca

Paulo Afonso Caruso Ronca

Biografia:     Paulo Afonso Caruso Ronca é Mestre em Educação pela PUC-SP, Prof. Dr. em Psicologia Educacional pela Unicamp, escritor e membro da Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo. É autor dos livros: Estudo Dirigido - Uma Técnica de Ensino Aprendizagem; A Prova Operatória; A Aula Operatória e a Construção do Conhecimento; Quem Conta um Conto Aumenta um Ponto; Estudar-Verbo Intransitivo? e muitos outros.  Temos a honra de contar com seus artigos como "colaborador" de nosso portal. 
Site:
Instituto Esplan

Dê-me cá um aperto de mãos!

Certa noite, eu estava dormindo num berço muito bonito. Sossegado, acordei de um sono profundo e fiquei ali, quietinho, quietinho, olhando para o teto, sem compreender porque vivia, sem entender o que estava fazendo e sem perceber o que estava sentindo. Ainda não aprendera a falar ou a pensar. Todavia, era maravilhoso me sentir vivo e, mais ainda, muito amado por uma mulher e um homem, que sempre me enchiam de beijos, abraços e, pasmem, davam-me mil mordidinhas no pescoço. Para mim, isto devia ser o amor ou, pelo menos, parte dele!

Eu era um bebê rechonchudo, corado e com dobradinhas de gordura por todo o corpo, principalmente nas coxas. Tudo isso era um dos sinais de saúde e de boa alimentação!

Um dia, como que do nada e de repente, apareceu, bem em minha frente, um objeto que nunca havia visto antes e sobre o qual nada sabia.

Confesso, por diversas vezes já o tinha colocado em minha boca, tentando sugá-lo bastante, fato que me dava muita satisfação e uma alegria indescritível. Realmente, todas as ocasiões em que o sugava sentia uma felicidade infinita, concretizada em arrepios no corpo inteiro. Para mim, isto devia ser o prazer ou, pelo menos, parte dele!

Fiquei olhando, olhando para aquilo que era constituído de cinco pontas bem fininhas e uma outra parte bem achatada. Sabe, ficava voando em minha frente e, assim, mais parecia com o que os adultos chamavam de um ÓVNI: objeto voador não identificado.

Mais tarde fiquei sabendo que aquilo era chamado "mão".

Sim, Deus santo, eu tinha mão. Que maravilha! E por ser um membro de grande utilidade, a natureza havia me presenteado com duas! Eu tinha duas mãos! Como era muito cabeludo, aquela mulher sobre quem escrevi acima, que depois vim a saber que era a minha mãe, resolveu cortar os meus cabelos. Chamou o outro homem, por sinal meu pai, e este me apertou forte, segurando minhas mãos bem presas ao corpo. Foi um pampeiro dos diabos, posto que chorei e gritei, embora com pouco sucesso, pois nem deram bola.

Mesmo pequenino, com as mãos presas me sentia mal, mas tão mal, que cheguei a esta conclusão: as mãos tornam-se o primeiro sinal e concretização da autonomia e da independência. Quando me largaram pude movimentá-las, sentindo muito alívio. Só tempo depois observei que, quando um policial prende alguém, a primeira coisa que faz é colocar-lhe algemas. São Cristóvão, o que se pode fazer com as mãos presas? Enfim, movimentar as mãos, em qualquer direção e em qualquer hora, devia ser para mim a liberdade ou, pelo menos, parte dela!

Posteriormente, soube que as pontas fininhas e pontiagudas que via, chamavam-se dedos e o mais gordinho deles era o dedão. Sem perceber, aprendi a chupá-lo, sempre e a toda hora, a tal ponto de se formar um calo bem duro. Ao chupá-lo, eu me acalmava e adormecia; ao sugá-lo, esquecia-me da fome, das dores de barriga e parava de chorar, dando-me uma sensação serena de alegria. Enfim, com os meus dedos e a minha mão, encantava-me pelo viver e encontrava-me com a paz.

Sim, se o leitor quiser compreender a paz é só olhar para um bebê, chupando o dedo ou brincando com as mãos...

Aliás, louve-se a maravilha que são os dedos, pinças ou pincéis perfeitos! Já se perguntou o leitor desatento, por que são cinco e não seis? Não estaria de bom tamanho só três dedos? Ou, de outra forma, se fazemos tanto e tão bem com cinco, imagine se tivéssemos oito em cada mão..

Continuando: imagine, um dia estava tomando mamadeira e passei a segurá-la sozinho. Equilibrá-la entre os meus dedos, tirá-la da boca e a esta voltar eram fatos extraordinários e promissores. Aprendi, então, sozinho a pensar, o que permitia já me sentir um homenzinho. Talvez tenham sido as primeiras experiências de força e de equilíbrio em minha vida!

Fui percebendo o desenvolvimento da inteligência, aqui entendida como inteligência psicomotora, como um processo vagaroso, pausado, lento, diríamos, preguiçoso como uma tartaruga! Sereno, vai obedecendo às leis da maturação neurológica e às ordens e possibilidades do ambiente sócio-político-econômico-familiar que circunda o humano.

As mãos me ajudaram no ato de engatinhar e a apoiar-me para subir num sofá. Com elas comecei a bater palminhas e a dar adeus para as pessoas e, quando coçava os olhos, os adultos me colocavam na cama. Ao sentir afeto pela minha mãe, era com elas que acariciava seu rosto ou puxava suas bochechas; porém, se mexesse em coisas perigosas, era nelas que meu pai batia...

Cresci e comigo cresceram minhas mãos. Alfabetizei-me com elas, escrevendo, fato que parecia um milagre, marcado por uma magia deslumbrante, digamos, quase uma bruxaria. Sim, escrever deve ser coisa de feitiçaria! E como foi difícil desenhar o meu nome, devagarinho... devagarinho, com letras feias e suadas. Igualmente "lia" com minhas mãos, pois meus dedinhos "rabiscavam" em baixo de cada palavra que surgia diante de meus olhos.

Cresci e comigo cresceram as minhas mãos, continuando a ser, talvez, os membros mais preciosos que a natureza me emprestou, verdadeira obra prima da maravilhosa engenharia genética. Eu provo:

Tristes, as mãos encurtam as lágrimas; cansadas, enxugam o suor; saudosas e choramingando, despedem-se de amigos. Fechadas e esmurrando o ar, são símbolo de vitória e de alegria. Tocam piano, como se dentro escondessem um verdadeiro computador.

Sensuais, acariciam, alisam e, às vezes, até beliscam. Entretanto, assassinas, seguram o revólver e apertam o gatilho; fazem milagres, ao operar um cérebro ou, astutas e ladras, roubam ou desviam verbas. Que contraditórias! Falando em contradições é bom lembrar que a História nos descreve um homem morto com as duas mãos pregadas na cruz e, por um outro lado, houve quem, ao levantá-las rispidamente, eretas e estendidas, promovia uma saudação tão desmedida e fanática, que levou à morte mais de 6 milhões de pessoas.

Para o deficiente visual é luz, visão, sol do dia; para o operário é esperança e vigor; para o pobre é a única linguagem, enquanto, juntas e 
entrelaçadas, são sinal de fé para os que rezam. Diferentes facetas, múltiplas variações para um mesmo tema!

Para levantar um balde, tornam-se um gancho e com suas unhas nos coçamos ou defendemo-nos, conforme o caso. Se precisarmos rasgar, viram uma tesoura e se necessitarmos atacar, transformam-se em arma mortal. Em posição esférica, pegam uma bolinha de ping-pong ou, em posição rotatória, giram uma chave. Inteligentes, amarram um sapato e, fortes, pegam num martelo ou na enxada.

Arrogantes, esbofeteiam; musculosas, arremessam um dardo; seguras, defendem um pênalti. Delicadas, enfiam a linha na agulha e, medrosas, levantam-se bem ao alto, quando em frente a uma arma.

No mar pedem socorro, no palco dançam agitadas. No travesseiro, meigas e juntinhas, apóiam o rosto; na sala de aula, ríspidas e duras, pedem atenção. Na mesa de um bar, erguem um copo e brindam à saúde.

Para o noivo antigo eram sinal de posse, quase possessão ou domínio: quero a mão de sua filha em casamento...

Desejando segurar um pacote de leite ou de suco de laranja, se o leitor não apertar o suficiente, eles cairão; todavia, se pensar muito, o líquido transbordará. Imaginadas para movimentos milimétricos, com as pontas dos dedos e balançando aqueles pacotes, com elas se pode "medir" quanto líquido ainda resta neles. Aqui não se trata de bruxaria, mais parecendo coisa de fada!

São excelentes professoras! Deveras, pois, assim como cada uma delas têm cinco dedos, todos eles são diferentes em tamanho, beleza, grandeza e forma. Entretanto, cada um com sua função e importância, formam a unidade; por isso e por analogia, elas ensinam uma maravilhosa lição de vida: as pessoas são diferentes, porém nenhuma melhor, mais bonita ou mais que as outras.

Enfim, é de admirar como as mãos convivem tão bem e sem brigas com cinco dedos tão diferentes...

As mãos falam? De maneira especial, para o deficiente auditivo, transformam-se na voz!

Pedem silêncio? Não há necessidade de explicar-lhe como o fazem.

Pensam? Sim, ao coçar a cabeça e ao ver que não há solução para os nossos problemas.

Sentem frio? Não, porque logo, logo esfregam-se em si mesmas ou procuram chegar bem pertinho da lareira.

Sagradas sejam as mãos e bem-aventuradas entre todos os membros.

Porém, mais sagrada e bem-aventurada é a mãe-natureza, perspicaz arquiteta e milagrosa engenheira, que as planejou e as desenhou, justamente num dia em que estava inspirada por todos os deuses e por tudo o que existe de mais divino no mundo e nos céus.

Cicatrizes

I. Minueto

Gritando, como sempre o fazia, ele preparava o seu exército para a desastrosa aventura militar que iria empreender. Descreve-o a História como homenzinho de pescoço miúdo e de estatura pequenina. Todavia, o que a natureza lhe roubou no corpo, presenteou-lhe de sobra no espírito, isto é, com prepotência, tirania e arrogância. Vivia com os nervos à flor da pele!

Para descrever a chacina de milhares de soldados, os acordes e os sons de violinos e trompetes começavam a recontar e reviver 1812: cego de ódio e de juízo, Napoleão ia invadir a Rússia.

II. Allegro apassionato

O norte-europeu, Giannandréa Botini, é médico afamado que, desde o início da carreira, dedicou-se à vida acadêmica e ao consultório psiquiátrico, que lhe consomem o espírito e neurônios. Não bastasse tal fadiga, o seu corpo também se enfraquece, pois, ansioso e angustiado, o homem devora mais de duas carteiras de cigarros, entre noite e dia. É vício trazido da juventude que, além de responsável por problemas respiratórios, agora já lhe pinta o pontudo bigode de amarelo, cor semelhante à manteiga salgada mineira.

A vida houve por bem lhe ter dado uma bela e dura rasteira e, até hoje, passados 3 anos, o velho doutor amarga a saudade de sua mulher falecida. Como a profissão lhe ensinou a ser profundo conhecedor da técnica do destino, ele sabe o quanto este é implacável: aquilo que tem que ser é, e ponto final.

Entretanto, se este ponto deu final à vida da esposa Tissiana, esta lhe deixou no lugar e de herança a filha Marcella, hoje a razão da vida e do trabalho. Não fosse a moça a despertar-lhe a paixão, tenho cá minhas dúvidas se o nosso médico, outrora exímio aplicador de injeções, já não teria, com uma delas, dado cabo à sua existência. Todavia, como não somos nós os escritores daquele ponto, lá continua ele o seu caminhar por este mundo.

Pelo que o leitor pôde ler no início desta nossa prosa, Dr. Botini, sentado na saleta íntima, ouvia, de Tchaikovsky, a Ouvertüre 1812. A peça musical é uma verdadeira obra prima que, por notas e sons, narra deliciosamente a história do apoucado imperador francês, invadindo a Rússia. Fique tranqüilo, pois farei com que ela volte aos nossos ouvidos, no andar deste conto. Não desligue.

III. Allegro amabile

Enquanto ouvia a música, além de fumar, é claro, ele tomava um Bolla Merlot, safra 1996, que lhe descia goela abaixo como uma seda, ou lhe cabia como uma luva, deixando ao leitor a tarefa de escolher a comparação que desejar.

Pela fresta da porta podia ver a filha, arrumando-se para ir à uma festa. De beleza estonteante, a rapariga, por caprichos de sua sina, era cópia fiel da mãe. Enfim, trazia à realidade, quase vivificada, aquela que tão cedo se fora.

Naquela noite Marcella vestiu-se demoradamente. A sua saia era vermelha e estava coberta até a cintura por um largo casaco branco, proporcionando um contraste aceitável. Olhos pintados, um pouquinho de batom e o cabelo solto, davam àquela moça de 20 anos um tom onde se misturavam, a coragem, a ousadia e recato. Coragem, pois estudava Serviço Social, na PUC, e era entregue de corpo e alma às causas sociais e à crítica da sociedade consumista; ousadia, posto que adorava desafios e viver perigosamente; recato, porque o pai lhe trazia sempre em rédeas curtas e grossas. Pelo menos assim pensava.

Só pensava mesmo, pois nem vou lhe contar o dia em que, vasculhando o quarto da moça atrás de cigarros para fumar, o Dr. Botini deu de cara com uma pontinha de cigarro da Cannabis Sativa, nome que o médico-cientista fazia questão de chamar a erva tão popular entre os jovens. Fez cair os céus em cima da moça, quase estourando-lhe os tímpanos:

- Você é uma desmiolada, estragando-se no vício! Vai ser uma verdureira na vida. E foi daí para frente entre impropérios e desatinos, durante quase duas horas em que, como sempre acontece, ele falava e ela ouvia.

Se a amava de um lado, a odiava de outro, pois não se conformava em ter uma filha tão "moderninha" como, a contragosto, a chamava sempre. Naquele homem, como em tantos outros, o ódio e o amor conviviam com seus trejeitos e maneiras. Coisas do humano, o quê se há de fazer?

Já pronta e arrumada, a filha adentra a saleta:

- Um beijo mio caro papà ! Te voglio bene! disse-lhe ela. Porém, como não podia deixar de acontecer, alfinetou: Dr. Botini, de novo ouvindo 1812, o senhor não enjoa desta música?

- Buona note, principessa! Respondeu-lhe entre feliz e impassivo.

Todavia, como não sabia parar de falar, chamou-a para bem perto de si, expressando-se com aquela "ternura" própria dos italianos:

- Minha biruta Marcella, devagar com o andor que o santo é de barro!

Já sozinho, olhando a fumaça pairando no ar, pensou, rindo consigo mesmo: Dio mio, ela não deve ter compreendido nada, pois os jovens não sabem nem o que quer dizer devagar, nem andor, tampouco o que é santo!

IV. Andante quasi allegretto

...Tchaikovsky entoa acordes iniciais, nos quais violinos seduzem e onde tudo é ligeiro, belo, quase terno. Prepara o ouvinte para mostrar a força do imperador invadindo, às escâncaras, o território russo e deixando profundas cicatrizes na história. Num crescente incrível de timbres, alterando-os entre o suave e o forte, rompe a ternura com instrumentos de percussão, incluindo tambores e bandas militares. Prenunciando verdadeiro delírio, a Marselhesa é entoada, canção patriótica de grave significação histórica...

Após um último gole, cansado e um pouco tonto, Botini levantou-se e, no quarto, caiu na cama, já desligando o seu cérebro para dormir. Enquanto isto, a música continuava a tocar e ainda acariciava os seus ouvidos.

Foi bom ter dormido de roupa e tudo, pois não imaginava o que estaria para lhe acontecer daqui a algumas horas.

V. Allegro ma non troppo

Marcella foi arrebanhando amigas, de casa em casa, até contar seis. Iam em seu carro, como sardinha em lata, mas alegres e ouvindo músicas modernas. Bem diferentes daquelas ouvidas por seu pai!.

A festa se realizava no coração de São Paulo, num casarão velho e mal cuidado, na Avenida Paulista, talvez a mais nobre das avenidas, que corta ao meio um verdadeiro formigueiro, no qual tentam se hospedar milhões de humanos.

Os jovens que ali estavam, sem dúvidas, tinham nome, sobrenome, carro à disposição e, possivelmente, estudavam nas melhores universidades. Portanto, gente virtualmente educada e pertencente à, assim chamada, elite intelectual e econômica. Foram ali papear, conversar, divertirem-se, enfim. Porém, além de se acotovelarem, por serem mais de mil, equilibravam nas mãos latinhas de cerveja que, se não estivessem estupidamente geladas, serviriam, em breve, para uma ação, digamos, estupidamente grotesca.

Não tardou muito. Eram duas horas dadas.

Do nada e por nenhum motivo, uma insolente latinha daquelas, fechada e cheia, foi atirada a esmo por algum mentecapto. Pela força com que foi jogada, atingiu tal velocidade e peso que, se a minha ignorância em Física não me permite calcular em números, a minha indignação me obriga descrever em estragos: bailando pelo ar, girando como uma bailarina em torno de si mesma, a latinha voadora acertou em cheio a face de uma das pessoas que ali estava.

Convenho que é abominável, mas não posso alterar a feição das coisas, mesmo porque a verdade pede irrestrita fidelidade aos fatos: foi como um vendaval, pior ainda, um furacão. Como um saco de batatas largado, o corpo caiu ao chão, inerte e vertendo sangue; os seguranças tentavam segurar alguém que fugia, as meninas gritavam e alguns rapazes, logo-logo, colocaram aquela pessoa no primeiro táxi que ali esperava.

Incansável, o carro rumou ao hospital mais próximo.

Foi neste instante que o telefone do Dr. Botini tocou estridente, ferindo seus ouvidos e seu coração.

VI. Adagio lamentoso

Nem precisou se vestir, calçando rapidamente os sapatos; teve sorte, pois o elevador já estava em seu andar e o levou à garagem; mergulhou em seu carro e, literalmente, voou para o Hospital Santa Catarina.

Como era médico, teve acesso imediato à sala de cirurgia onde o silêncio só foi quebrado por seu colega, que lhe disse por de trás da máscara verde:

- Botini, o quadro é grave. Há suspeita de perfuração do globo ocular e já chamamos o oftalmo. Possivelmente, pela queda, ou fraturou o Occipital ou há hemorragia interna. Estamos verificando tudinho. Poderá ficar desacordada por algum tempo.

- Por algum tempo? Retrucou, sentindo-se um joão-ninguém da medicina.

O nosso protagonista sentou-se na sala de espera e lá ficou estático sem conseguir articular um só pensamento ou perceber que sentimentos vinham em seu coração. Era um semimorto.

Passavam vinte minutos das cinco.

Não me animo a expor-lhe as cenas que se seguiram, mas não me cabe ocultá-las. Depois de três horas de cirurgia o colega apareceu com novas notícias:

- As coisas estão sob relativo controle. Foram oitenta pontos dados entre a sobrancelha e a boca e a base do nariz está absolutamente quebrada. O exame de fundo de olhos está sendo realizado e há risco de perda da visão; não houve fratura do Occipital e não sei porque ela não acordou. Marcella estará na UTI, incomunicável. Você deve ir para casa, descansar duas horas, tomar um bom banho e voltar com a barba feita. O dia pede que você esteja forte e descansado.

Como não mais pensava, e quem não pensa só obedece, Botini saiu do hospital com o coração na boca, em direção à sua casa. O peito parecia que ia explodir, podendo dividi-lo ao meio e em duas partes iguais. Perambulava pela rua, à procura de seu carro e, como não o encontrasse, entrou num bar:

- Per piacere, um cafezinho. Quando este chegou, Botini o recusou para espanto do atendente. Não, não quero mais; dê-me um conhaque puro! Num gole só despejou o agudo líquido pela garganta que, queimando todo o percurso, assentou-se no estômago, fazendo um reboliço expresso em arrepios por todo o corpo.

Chegando em casa, ligou o aparelho de som, encheu uma taça de vinho e acendeu um cigarro. Logo esparramou-se pelo chão da saleta, sentindo dores fortes como se uma britadeira tivesse violado o seu peito. Olhando para o retrato da esposa e da filha e pressentindo morte, falou consigo mesmo:

- Dio santíssimo, que caos, que castigo injusto e imerecido! Sabem Deus e ela o que passou! Que motivos teria uma pessoa para arremessar friamente aquele objeto, cortante e pesado, contra a multidão indefesa? Ódio? Não era; ódio do quê. Vingança? Não era; vingança do quê? Não sei, então. Por que? Perché Dio mio?

...Tchaikovsky, já em meio a sua obra, volta a descrever, em sons vibrantes, o massacre dos soldados franceses. Obsessivos, violinos começam soar os mesmos acordes, mais parecendo uma ensurdecedora sinfonia, aloucada e sem fim. Napoleão, na batalha de Borodino, conquista Moscou e a deixa em chamas. Aparência enganosa, pois a inesperada volta para Paris seria o desastre do grande estrategista. Aqui e acolá, a História não cansa de mostrar: os que aparentam força, tornam-se fracos e precisam de armas...

VII. Um poco presto e con sentimento

Descansou uma hora cheia e antes que a outra se completasse já estava apostos no hospital. Como ainda não se restabelecera dos momentos vividos com a esposa, preferiu não entrar na UTI, para evitar maiores sofrimentos. E assim se foi um, mais um outro e no terceiro dia Marcella estava no quarto.

A alegria de ambos só foi quebrada, pois, novamente, o ódio invadiu de súbito o pobre pai que, sem lógica e tino, começou a esbravejar com a filha.

- Lugar de criança é em casa... eu lhe havia dito para não sair... em que moquiço você foi se meter... a continuar assim só será uma verdureira!

Astuta, a jovem silenciou e o velho percebeu que a hora estava mais para flores do que para farpas. E retomaram a conversa sobre os acontecimentos de maneira calma, já que nem o olho e tampouco o cérebro da moça corriam perigo. Só a cicatriz...

- Apenas uma pergunta, mio caro papà. Por que? Por que aconteceu? Em que mundo vivemos?

Agora era a vez de Botini silenciar, pois não queria lhe contar que esta pergunta ele já havia se feito. Olhando o rosto da filha, mal podia enxergar seus olhos, devido não só ao inchaço, como ao grave hematoma azul-anil; a faixa na cabeça dava a sensação de uma mulher egressa de uma guerra; os esparadrapos que cobriam sua face, ah! esses escondiam uma grave cicatriz. Entretanto, Botini nem a queria imaginar e eu não a quero descrever!

VIII. Finale, andante maestoso

Junto com as duas semanas seguintes passaram, também, os terremotos e vendavais. Numa manhã de Domingo, Marcella entrou correndo no quarto do pai, que, para variar, ouvia 1812. Como bem vê o leitor, o nosso herói era um obsessivo-compulsivo! Bem, deixa para lá, pois cada qual com a sua mania!

- Papà, del mio cuore, achei! Achei a resposta de nossas indagações. Os porquês estão aqui! Observe a propaganda nesta revista e, como boa filha de psicanalista, interpretarei para você. Attenzione dottore Botini.

Encostaram-se na cama. A moça colocava a revista diante de ambos olhos, virava de lá para cá, aproximava e distanciava, assim como fazem os míopes.

- Papà, diante de nossos olhos indefesos surge esta página inteira de publicidade. Veja: estampado, de um lado, este lindo jovem surfando e, atrás, esta não menos linda onda do mar; o jovem moreno e o mar verde dão à cena movimento e colorido impressionantes e, certamente, quem os vê tem vontade de aqui estar, com imediatos sentimentos de ligação e de vínculo. Papi, o anúncio é erótico, penetra de maneira brutal e se transforma em forte apelo, atingindo desde a visão, até as vísceras. Só falta falar: vamos, participe desta aventura, saboreando um cigarro. Doutor Botini, isto não é uma pura ilusão, espécie de magia que entrelaça a mente?

O velho parecia ouvir uma aula de Psiquiatria e, atento, esperava para ver aonde a filha iria chegar. Sem ela perceber, aumentou um pouco o som...

...Tchaikovsky chega ao auge e, na partitura, misturando leveza e força, começa a contar o doloroso retorno a Paris. Os instrumentos de cordas, de percussão, de sopro, o repicar dos sinos tocando fortíssimo sobre o bronze e, ao fundo, a salva de canhões, mostram o desespero e a morte. Napoleão ainda pensava em ser vitorioso; como no anúncio, ele não imaginara que tudo seria pura ilusão. Espécie de magia que lhe entrelaçava a mente...

- Deste lado direito, papai, aparece a marca Hoolyood e, em baixo, a inútil frase: o ministério da saúde adverte: fumar prejudica o bebê! A nossa visão aqui ainda é retida e a sedução continua. Vê agora, olha aqui do outro lado, à esquerda, aparece esta frase, composta unicamente de duas palavras, que, além de tornar a publicidade um crime perfeito, nos oferece, de mão beijada, a resposta aos nossos porquês. Está aqui a explicação para a latinha voadora, para o meu sofrimento, para o seu sofrimen...

Botini, emocionado, olhou à esquerda onde estava escrito em letras bem visíveis e, cortando as palavras da filha, leu alto: - NO LIMITS.

- Papai, fiquei pasma, atônita, sentindo-me idiotizada: por que não havia pensado nisto antes? Distração dos diabos! Às vezes, o resultado das nossas indagações está a dois palmos do nariz e nós andando como cegos. NO LIMITS. É assim que vivemos, é o que queremos, sendo isso que esperam de nós. Sabe, somos forçados a viver sem limites! Alguém jogou a latinha no meu rosto porque vivemos numa absoluta ausência de limites, você concorda?

...Tchaikovsky, pelos sons, conta como os caminhos bloqueados pela neve, pela chuva e pela lama, fizeram com que, arrogante, Napoleão visse o seu exército de 300 mil homens perecer soterrado num frio de enlouquecer. Felizmente, como em tudo nesta vida há o verso e o reverso, ao onipotente imperador só faltava esperar por Waterloo, local de sua última e mortal batalha. Enfim, aqui e acolá, História não cansa de mostrar: os que aparentam força, tornam-se fracos e precisam de armas...

Pai e filha se abraçaram e esta chorava muito, talvez colocando para fora tudo o que até agora segurara no seu coração e em seu ventre. Botini a afastou um pouco para longe de seus ombros, retirou os cabelos que lhe cobriam a vista e enxugou as lágrimas escorridas pela sua linda face. Entrementes, sentiu um aperto agudo em sua barriga, que se seguiu de uma coleção de arrepios.

Pela primeira vez bem de perto, observou que, ali, jazia uma enorme cicatriz. Embora disfarçando, ele estremeceu, pois, como bom psicanalista e, compreendendo a alma da filha, lembrou-se de que as piores cicatrizes são, justamente, aquelas que não se vêem.

Gangorra

Você não sente e não vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
O que há algum tempo era novo, jovem
Hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer ...
... No presente, a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais

(Belchior escreveu, Elis cantou)

        O dicionário grafa o termo elenco: s.m. 1. lista, rol; 2. índice, catálogo; 3. conjunto das personagens e atores de um espetáculo, que compõem um grupo de teatro, cinema, TV ou rádio. Embora não apareça como verbo e com a licença que a Língua Portuguesa nos permite, iremos navegar por uma variante, imaginando-o como "elencar". Para nós, ele ultrapassa o significado de apresentar numa certa ordem, pontuar, listar, elaborar uma vinculação entre partes; por exemplo, pinçar da História fatos, idéias, nomes ou fenômenos que têm analogias entre si, com parecença ou semelhança.

        "Elencar" é um dos caminhos para se efetivar a operação de identificar e também visto como uma das habilidades de pensamento, na busca da identidade, da sucessão, da coexistência, da correspondência e do encadeamento lógico de partes que compõem o todo do nosso objeto de estudo. Posterior, ou concomitantemente, poderão emergir outras operações, tais como analisar, comparar, classificar e criticar.

        Não nos entenderá o leitor fazendo simplesmente um mapeamento de palavras ou um jogo terminológico, todavia, querendo dar vida e luz diferentes ao que foi por nós estudado no entremeio dos anos 1960 e 2000. Apontar tais conceitos torna-se uma prática reflexiva da mente, elaborada quando os colocamos numa certa ordenação lógica e, em conseqüência, permite um distanciamento destes fenômenos culturais. Então, a tarefa neste difícil ensaio é aprimorarmos uma visão crítica sobre dimensões que foram determinantes do nosso pensar, sentir e agir, enfim, sobre os ângulos que deram foco à nossa existência profissional.

        Ao identificarmos conceitos, estamos como que nos apresentando a nós mesmos, ou, quiçá, nos reapresentando. Eles emergem na e da História, não sendo entidades abstratas, atemporais, caídas do céu em nossas cabeças, mas como frutos concretos do nosso pensar, de nossas necessidades ou das que nos impuseram sentir. Sim, há uma imposição silenciosa de idéias que, dialeticamente, ao serem assimiladas, vão modificando o nosso próprio ser e o nosso modo de pensar, alterando as relações com a comunidade na qual vivemos e apontando caminhos sócio-políticos a serem percorridos. Conceitos, ora são um pouco do que somos, então espelho; ora o que desejam que sejamos, então faca afiada e imperativa.

        A periodicidade de teorias e idéias instaladas em nossa vida profissional, estabelece um jogo intrincado de poder. Na nossa arrogância, pensamos que, ao nos mostrarmos como "donos" de pensamentos e terminologias, ou em cargos com títulos, somos mais do que outros e posseiros de uma parcela determinada nas diferentes Ciências. Certamente, sentimos um prazer narcisista em dizer: sou piagetiano, o outro é fenomenólogo; aquele indivíduo é construtivista e o outro é freudiano; eu sou lacaniano, homeopata, alopata, chefe de departamento, diretor da área e assim por adiante.

        Apresentaremos alguns conceitos especialmente ativos na História da Educação brasileira, nos últimos anos. Entretanto, é esclarecedor lembrar como é sempre difícil avaliar a sua extensão e o seu alcance pois, além de determinarem a silhueta de nossa vida profissional e os contornos da produção de conhecimentos, demarcaram decisiva e amplamente a vida ideológica do país. Sempre novos e inclusos no nosso dia-a-dia, são teorias notáveis, terminologias incomuns, teses, enfim, doutrinas que se agruparam. Vamos lá:

Escola Tradicional.
Escola Vocacional. Escola Experimental.
Escola Nova. Adicionado a um conjunto de vocábulos rigorosamente definidos e ordenados, tais como planejamento, estratégias, conteúdo programático, metodologia e avaliação.
Recursos audiovisuais.
Educação Moral e Cívica. Estudo dos Problemas Brasileiros.
Estudo do meio. Estudo dirigido. Trabalho em grupo.
Currículo. Grade curricular. Matriz curricular.
Prontidão. Pré-requisitos para alfabetização.
Educação Permanente.
Eficiência e Eficácia.
Instrução Programada.
Teoria piagetiana.
Teoria vygotskyniana.
Teoria de Emília Ferreiro.
Teoria de Raths.
Método de alfabetização de Paulo Freire.
Matemática Moderna.
Construtivismo.
LDB. PCNs.
Gestão. Co-gestão. Gestão participativa.
Projeto político pedagógico.
Grupos operativos. Teoria de Projetos. Paradigmas.
Teoria das Inteligências Múltiplas.
Inteligência Emocional.
Alfabetização Emocional.
Teorias da Inteligência Artificial. Teorias Neuro Lingüistas.
Interdisciplinaridade. Transdisciplinaridade.
Metadisciplinaridade.
Psicopedagogia. Transtornos do Déficit de Atenção.
Aula Operatória. Prova Operatória.
Teorias néopiagetianas e pós-piagetianas.
Novo "cliente" da escola.
Capacidades, Habilidades e Competências.
Programa de Educação Permanente (PEC).
Teoria dos Saberes. Aprendizagem Significativa.
Mapas Conceituais.
Educação Empreendedora. Ensino a Distância.
Temas Transversais.
Progressão Continuada. Promoção Automática.
Classificação e Reclassificação.
Tecnologia Educacional.
Inclusão Social. Inclusão Digital...

        E iríamos adiante, procurando na memória ou nas prateleiras, terminologias que sustentaram a Educação e a escola brasileira. Até aí tudo certo, posto que as Ciências pesquisam alicerces diferentes, teorias modernas ou múltiplas formas de se fazerem presentes no quotidiano dos humanos, não só para ajudá-los, como, também, para transformar a sociedade.

        Com a Educação não foi diferente. Só que, juntamente com esta prática, emergiram visíveis contradições e, não tendo mais como escondê-las, devemos encará-las e estudá-las, para compreender o processo histórico-político em que fomos, ora atores principais, ora espectadores inertes. Eis algumas:

 

1ª. Expressos, ou no discurso, ou em atitudes, observamos sentimentos de insatisfação nos que estão no palco da escola. Educadores há assustados com o jeito displicente e altivo, características vistas, tanto em crianças, quanto nos moços. Deveras, os mestres se sentem desanimados ou impotentes, sem saber como enfrentar, por exemplo, um dos mais sintomáticos comportamentos que ratificam estas nossas teses, a saber, a indisciplina e a violência, com as quais convivem nas salas de aula e nos corredores da escola. Os alunos, com mil outros estímulos perceptivos e sensitivos, longe de limites e muito perto dos prazeres da vida, não vêem sentido no estudo-de-cada-dia e no esforço para a construção sólida e consistente de conhecimentos. Muitas vezes, diretores se sentem distantes dos professores, a tal ponto de não saberem como incentivá-los a terem energia e entusiasmo. Quanto às famílias, poderíamos nos perguntar se sentem confiança ao entregar os filhos no portão da escola ou satisfeitas com o produto auferido depois de 13 anos de educação básica.

Por outro lado, nunca se pensou tanto em Educação nem ela esteve tão presente na sempre ansiosa mídia como nos últimos anos! Investiu-se dinheiro, tempo e carreiras na procura de um modelo educacional, que idealizávamos alicerçado mais em dimensões qualitativas, do que nas quantitativas. Para provar isto, basta ler aqueles conceitos apresentados nos parágrafos sobreditos, ver quantos congressos, cursos, concursos, premiações e pós-graduações permeiam nosso calendário e, por fim, percorrer as prateleiras de uma livraria. Inacreditável: grassam idéias, pululam temas e germinam opiniões.

 

2ª. Expressos no dia-a-dia e marcando a contemporaneidade dos humanos, não devemos deixar de anotar incríveis avanços no que a diz respeito à tecnologia, ainda que esteja muitíssimo distante das classes sociais de renda inferior. Mesmo assim, vemos professores e alunos valendo-se do computador, de programas operacionais ou da vida on-line. Nesta seqüência, passamos a cultuar a Informática como se adorava a estátua de Júpiter Olímpico, obra de Fídias, a mais bela e perfeita realização da escultura grega. De instrumento de ajuda, passou a ser um imperativo, um sonho de consumo mítico ou uma peça-chave na nossa necessidade de comunicação e na busca compulsiva do poder oriundo de informações. Mais preocupada com a velocidade do que com o destino, ela se transformou de princesa em rainha: inúmeras casas e escolas estão instrumentalizadas com aparelhos tão caros, quanto de pequenina vida útil, mas que amenizaram um pouco a vida acadêmica.

Por outro lado, se observarmos as relações sociais, políticas e econômicas que emolduram a existência do professorado, a postura de liderança dos diretores e a voz de comando que ecoa dentro dos órgãos governamentais, veremos que tais dimensões estão depauperadas e confusas. Haja vista, ainda não termos clareza nos processos de avaliação ou de promoção escolar; seria o mínimo, depois de anos de estudo e de tantas idéias encadernadas em livros, teses e leis. Enfim, prática educativa e tecnologia andaram por estradas separadas, e os educadores, tampouco, puderam seguir o norte apontado pelas inúmeras e novas teorias que proliferaram.

 

Mas, o novo não é importante?

        Sim, o novo responde "presente" à chamada histórica, firmando-se como condição básica para o enfrentamento diário, tanto para mestres, quanto para alunos. Oxigênio imprescindível, ele está presente nos encantos e encontros de cientistas-educadores.

        Porém, insaciáveis, passamos a ser consumidores do novo. A sociedade consumista não perdoa qualquer segmento e fere a todos com o vírus da gastança e do desperdício. Quase sem querer, nos vimos consumindo livros, apostilas, congressos, cursos, palestras e idéias; especialmente, idéias.

        Só depois de tê-las escrito na folha de papel, é que pudemos tomar consciência de quantas idéias marcaram época e de quantas nos esquecemos. Exatamente, pois o acúmulo de informações que daí emergiu nos distanciou da essência própria de cada uma delas e nos fez implodir a memória, pois foram imediatamente substituídas por uma nova, a qual nos excitou euforicamente por um tempo. Dessa forma, deixando poucas marcas, diluíram ou impediram possíveis conexões consistentes entre as partes e o todo de nossa visão educacional. Pena!

        Expressões usadas em Educação, ou em qualquer outra Ciência, correm denso risco de se tornarem "ruidosas", à medida que tenham seu uso banalizado, posto serem superficialmente incorporadas por diversos atores e setores da comunidade. Palavras "ruidosas" têm o papel de provocar re-ações ou de orientar atitudes rápidas, transformando-se em aspirações de momento, carregadas de emoções ou de fragilidades próprias das superficialidades. Voam como lufadas de vento.

        Isso acontece porque, se de um lado o uso descompromissado de conceitos favorece a perda do significado e do seu real sentido, de outro, o seu emprego como termo técnico desconhecido em suas profundezas, fica vulnerável a defesas e ataques. Igualmente, oscilam, ficam opacos, enfraquecidos e acabam por serem rechaçados, até que um novo vocábulo seja construído e consumido, percorrendo o mesmo destino: o esquecimento, a indiferença, ou até mesmo o descrédito.

        Por isso, talvez, tenham surgido idéias fragmentadas e a sensação obsessiva de poder conferida aos que detinham doutrinas e informações. Estas passaram a integrar o sistema geral de mercadorias, impondo à prática mudanças superficiais, em detrimento de uma experiência profunda ou da assimilação mais alicerçada das teorias mesmas. Ora, pois, demos maior destaque para a reciclagem sazonal e vinda de fora, do que para o aprofundamento constante e endógeno.

        Não há como discutir as idéias expressas neste texto, sem nos perguntarmos o que sobrou de todos aqueles conceitos apresentados nas páginas anteriores. Hoje, decorridos tantos anos, o que restou? Quantos, ainda, continuam a emoldurar a nossa identidade político-pedagógica? E quais são para todos nós referenciais consistentes? Por favor, responda-nos, de pronto, o leitor fiel.

        E saiba que não imaginamos subvalorizar o novo nem deixar de reconhecer nele funções didático-pedagógicas inegáveis nas Ciências, em geral, e na Educação, em particular. Só que o novo não precisa assassinar o antigo, sob pena de virar uma novidade. Diríamos, uma mera novidade.

Na Ciência, as idéias novas podem trazer em seu corpo as marcas possíveis das antigas, para que haja continuidade, segmentos lógicos, sucessão e algum prosseguimento. Dicotômica, a novidade conturba, enquanto o novo constrói. Ela é supérflua, o novo tem profundidade. A novidade incita à confusão de idéias, ao passo que ele nos dá sustentação teórica e aponta uma prática exeqüível. O novo resiste ao tempo, já a novidade, moda fugaz, se acaba aos poucos, sendo substituída, rapidamente, por outras. Melhor dizendo, periodicamente.

        Não há como reinventar a roda a cada pensar, a cada teoria, leis, pareceres ou portarias. Inovar não significa, necessariamente, inventar ou reinventar. Inovar deve, pois, ser entendido como a utilização criativa e pessoal de idéias, mesmo as antigas; e reclama, obrigatória e conjuntamente, uma grave postura crítica perante teorias que possam vir ocultando interesses escondidos, sejam eles quais forem: de oportunismo de políticos, de classe social, de projetos e empreendimentos comerciais, de grupos econômicos poderosos ou até de povos colonizadores e imperialistas, com os seus projetos ainda expansionistas.

        Depois destas e de outras reflexões, saberíamos nós identificar as diferenças entre o novo e a novidade? Qual seria o fio condutor de nossos pensamentos a nos dar certezas e a apontar o norte? Geralmente, a resposta para tais angústias mora na possibilidade de olharmos para dentro de nós mesmos, pois é aí, justamente aí, que se instalam a novidade ou o novo.

        Enfim, nós próprios somos os seus agentes, estabelecendo os referenciais delimitadores destes dois campos tão abstratos. Ora os amplificamos, ou os diminuímos; ora nos enfeitiçamos, ou os repudiamos. Por outras tantas vezes, fazemos sínteses e caminhamos: travessias.

        O principal a ser extraído destas reflexões, frente àquelas contradições e à complexa situação ideológico-pedagógica em que nos encontramos, é a nossa postura antidogmática. O acúmulo de informações que nos cerca e a pressa em sempre definir rumos novos, nos transformam, muitas vezes, em vítimas do próprio excesso, diminuindo a possibilidade de vivenciarmos experiências mais profundas e serenas de construção de conhecimentos. Sucede que a informação é tão-somente uma pequenina parte da construção do pensamento e do saber e ela vem, por vezes, permeada de preconceitos e se equilibrando em interesses ou em dogmas reducionistas.

        Entendamo-nos, por fim: obcecados pela quantidade de informações a serem necessariamente obtidas e atendendo ao canto das sereias que ordenava "não perdermos tempo", passamos a educar não para viver, mas para vencer. Pena!

        Ademais, é importante lembrar que a mais impressionante verdade absoluta é que não há verdades absolutas; e, para os chamados "especialistas", que coloquem as barbas de molho, posto que, ao pretenderem estabelecer dogmas, prestam desserviços à Ciência e ao país. Não há mais lugar para a fé cega, aceitação de palavras de ordem ou explicações que subvalorizem a inteligência alheia, marcadas por ranços autoritaristas, religiosos ou maniqueístas. Hoje, obrigamo-nos todos a uma participação ativa, como seres pensantes e com um largo espaço de manobra para discussões e sínteses.

        Entre outras, quem sabe? aí estão hipóteses para compreendermos as contradições do nosso mundo e para entendermos que, ao continuarmos a endeusar as novidades, faremos pouco pela Educação e por este país. Perplexos, somente nos obrigando a consumir idéias estaremos, com muita certeza, brincando de faz-de-conta, em cima de uma maravilhosa gangorra.

Cartas

Estou escrevendo esta carta para você...
Eram o que de primeiro aprendi na escola e, por isso, lembro-me com saudades de cartas. Por quê saudades? Porque elas não existem mais. Não se escrevem mais cartas. Que lembranças dóceis me vêm, quando me vejo correndo abrir a portinhola da caixinha de correio; e quanta decepção ao vê-la vazia. Hoje, pelo que ouço e vejo, fico pasmo ao notar que muitas pessoas nunca escreveram, nem receberam uma carta. São sinais dos tempos, diria o outro.

Pensei muito antes de lhe escrever...
A carta era sempre o fim de um processo da mente, ou do coração, havendo uma preparação quase secreta para escrevê-la; a pouco e pouco, os sentimentos cresciam, o pensamento ia se formando e, de repente, arrastavam-se no papel. Este, não era um qualquer, era um "papel de carta"; diferente, distinto, sem par. Por ser infinitamente íntima, não poderia ser escrita a não ser em um papel especial. Idéias-de-cartas precisavam de um belo recipiente.
No envelope, percebendo a letra, já sabíamos quem nos escrevia; coisa de mágico! Os dizeres, ali mesmo, já identificavam o interior da carta: "ao meu amor", "ao amigo", "para a querida", "Exmo. Sr". Aéreo e com cor definida, já demonstrava o país de origem; com lacre colorido, cravava as sílabas iniciais de uma família ou escancarava o seu caráter secreto; com um procurado e valoroso selo, ah! Ganhava destaque aquele simples envelope. Digamos, que ele era a porta da carta.

Amor, dentro desta vai, também, o meu coração sofrendo com muita saudade...
Ordinariamente, a carta levava muito de nós, tanto é verdade que, às vezes, a beijávamos antes de colocá-la na caixinha do correio; em outras ocasiões, a apertávamos no peito, em direção do coração, com a mão espalmada, para que juntos fossem energia ou calores.

Envio-lhe junto com esta...
A carta era um meio de transporte. Além do discurso em si, carregava algo simbólico: um santinho, um guardanapo do último encontro no restaurante, uma foto, uma poesia ou, até, um certo perfume ali derramado. Rara era a que seguia sozinha.

Ainda não recebi a sua resposta e eis-me aqui com esta carta já pronta...
Escrevíamos muito, era um ato corriqueiro. Nem bem a resposta havia chegado e lá já estava pronta uma outra. Dava prazer escrever, pois fabricávamos, na imaginação o que poderia vir como resposta. A carta era a continuidade de relacionamentos: espichava-se o amor, a vida, os negócios.

Espero que esta carta o encontre em perfeita saúde...
Uma carta era uma esperança. Confiança de ver o outro recebê-la em bem-estar, expectativa de ser bem aceita, probabilidade de que, por ela, a realidade pudesse continuar. A carta era o prolongamento da existência. Comunicação rápida, por mais afastados que morássemos; convivência íntima, por mais distantes que estivéssemos; conversação veloz, por mais longa que fosse. Ah! Não nos cansávamos de lê-las, repetitivamente. Ora, podíamos mostrá-las a outrem; ora, pelo contrário, a guardávamos no criado-mudo, embaixo de outros papéis ou numa caixinha de madeira.

Não obtive resposta de minha carta, e não consigo entender o porquê!
Vira-e-mexe as rasgávamos. Não havia como agüentar as notícias. Eram cartas pesadas, cheias de desprezo ou malquerer, a tal ponto que, ao reconhecer a letra da pessoa que nos enviara, nem a líamos. A carta mudava a nossa face, pois sorríamos logo-logo ao recebê-la, ou chorávamos ao seu final. Pressentimentos à parte, pelo sexto sentido, sabíamos o que vinha dentro: por vezes alegria, por outras, quanta tristeza. Digamos, cartas não tinham meio termo: eram, ou oito, ou oitenta. Sim, uma simples carta podia mudar o rumo de vidas.

Termino esta carta e espero que não a mostre a ninguém...
Não havia necessidade, pois carta era um objeto sagrado, que guardava em si mesma a dimensão da intimidade, um certo silêncio duvidoso ou a doçura de segredos. Inviolável, ninguém a abria e, quando esquecida em cima de uma mesa, intocável, tampouco alguém a lia. Por ela nos ligávamos tanto às pessoas, mas tanto, que os seus dizeres permaneciam em nossa memória por tempos: "... lembro-me perfeitamente do dia em que recebi a sua primeira carta."

Escrevo-lhes estas mal-traçadas linhas...
Não importavam a letra, a caligrafia ou erros. Saísse como saísse, a carta era enviada e não haveria críticas que viessem invalidar o ato. Escrever uma carta beirava uma oferenda aos deuses. Inatacável na sua forma, somente criticável no conteúdo, ambos, forma e conteúdo, faziam um todo manifesto; espécie de presente. Vez a vez, contraditória, ela não dizia nada pois, expúnhamos distâncias entre a intenção e o gesto. Machado, o de Assis, confirmava este ato inconsciente em um de seus enigmáticos personagens: "...gastou muitos dias, mas veio uma carta longa, e, apesar disso, curta".

Eu não menti em minha última carta, você é que a entendeu mal...
Mentiu, mentiu sim. Porque se enganava muito em uma carta. Contava-se lorota, criavam-se situações mirabolantes, justificativas enganosas ou espúrias. Dissimulações especiais ou desculpas esfarrapadas. Com fascínio e sedução, cinismos à parte, por uma carta, mostrávamos quem não éramos. Coisa de bruxaria ou prato cheio para psicanalistas. Os defeitos, os vêem só os que desejam; ora, pois, cartas, como os olhos, nos enganam!

Carta de Paulo, apóstolo, aos Filipenses. Carta de Paulo, apóstolo, aos Hebreus, aos Romanos, aos Coríntios e assim por diante.
Foram quatorze. Eram denominadas Epístolas. Fortes, ríspidas e duras, ordenavam caminhos e tentavam converter incrédulos, ditando ordens e costumes. Entendamo-nos: já por volta de 30 d.C., cartas ganharam importância inacreditável, posto que, ao vingarem séculos, ainda são lidas por milhões.
Afora isso, outras tantas nutrem diversas e importantes dimensões sociais e políticas que nos fazem arrepiar os cabelos e os braços. Nem mencionemos os inocentes civis executados, quando atingidos por uma carta-bomba, ou o perigo das que conduzem Antraz ou outra espécie de ingrediente mortífero. Ai de nós.
Continuando, cartas faziam parte da História, tornando-se testemunhas ocultas. Veja: "...escolho este meio para estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater a vossa porta, sentireis a energia para a luta por vós e por vossos filhos. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História". Tudo isto e muito mais, escreveu angustiado, antes do suicídio, com um tiro no coração, Getúlio Vargas, em sua carta-testamento, pretensiosa e dramática, em Agosto de 1954.
Cartas escreviam a História. Repare: "...creio, mesmo, que não manteria a paz pública. Encerro, assim, com o pensamento voltado para a nossa gente, para os estudantes, para os operários, para a grande família do País esta página de minha vida e da vida nacional. A mim, não falta a coragem da renúncia. Retorno, agora, ao meu trabalho de advogado e professor. Há muitas formas de servir à nossa pátria". São pensamentos expostos por Jânio Quadros,em sua carta-renúncia, senão duvidosa, pelo menos astuta ou finória, em Agosto de 1961.

"Meu caro amigo me perdoe, por favor/ Se eu não lhe faço uma visita/ Mas como agora apareceu um portador/ Mando notícias..."
Cartas espelhavam o nosso dia-a-dia. O quotidiano, imposto ou vivido, era traduzido por elas e nelas. Só que, intimistas, podiam revelar verdades duras, cruas e ríspidas, aquelas que os déspotas nunca quereriam que outros soubessem. Por estes motivos e por outros, os poderosos as censuravam. Exatamente, a repressão militar atingia tudo de todos, até as nossas cartas. Em 1976, o Chico, o de Holanda, que conduziu o início deste parágrafo, em meio a grosseria da ditadura, não se furtou em denunciar por música, e o fez como se estivesse enviando uma carta: "Meu caro amigo eu quis até telefonar/ Mas a tarifa não tem graça/ Eu ando aflito para você ficar a par de tudo que se passa.../ Meu caro amigo eu bem que queria lhe escrever/ Mas o correio ficou arisco/ Se permitem, vou tentar lhe remeter/ Notícias frescas neste disco/ Aqui na terra 'tão jogando futebol/ Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll/. Uns dias chove, noutros dias bate sol/ Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá "preta". Pergunto ao leitor honesto, o que significava o poeta descrever o correio como "arisco"?

Até a próxima. Que tudo corra bem. Responda-me o mais depressa possível...
Assim, esperando encontrar você tão bem quanto a deixei na última vez em que nos vimos, despeço-me saudoso. Todos mandam lembranças e saúde. Recuso-me enviar esta carta por qualquer mecanismo eletrônico. Vou pessoalmente ao correio, a selarei com minha saliva e a enviarei esperançoso. Você deverá recebê-la, ao faltarem poucos dias para o seu aniversário e já me apresso em cumprimentos. Ficarei aguardando ansiosa a resposta, embora saiba que demorará o tanto quanto não possuo de calma. O tempo é o dono de nossa vida e não há como instigá-lo. Sei que esperar resposta de uma carta é um exercício da paciência.
A tempo e a hora, quem a portará é um senhor que, antigamente, vestia um uniforme cinza-chumbo; hoje, porém, traja um alegre azul-amarelo. Sim, senhora, é ele mesmo, o tão esperado carteiro, que, fiel, chega todos os dias e, pessoalmente, entrega algo que guarda segredos e mistérios e o quanto há de encantador e apaixonante no mundo: uma carta.
Sê feliz.
Adeus.

Jovem, olha o mundo. Vê a guerra.

Poesia escrita no outono de 2003, no dia em que as forças anglo-americanas invadiram o Iraque

Era um garoto(1976)
(Os Incríveis/Engenheiros do Hawai)

...Era um garoto que como eu
Amava os Beatles e os Rolling Stones
Girava o mundo mas acabou
Fazendo a guerra no Vietnã
Cabelos longos não usa mais
Não toca a sua guitarra e sim
Um instrumento que sempre dá
A mesma nota rá tá tá tá
Não tem amigos, não vê garotas
Só gente morta caindo ao chão
Ao seu país não voltará
Pois está morto no Vietnã...

DEDICO PARA TODOS OS JOVENS BRASILEIROS QUE,
MESMO NÃO INDO ÀS GUERRAS INTERNACIONAIS,
MORREM EM NOSSAS GUERRAS QUOTIDIANAS ...

Jovem, olha o mundo. Vê a guerra.

Por que o medo nos olhos e a angústia a pulsar?
Que pena! Como é nítido teu desespero!
Senta-te comigo à mesa e vê a guerra começar,
Creio que ainda há tempo e, assim, te espero.

Sinta-te pequenino, mesquinho e vê a insensatez florir
Com soldados mortos, porque obedecem aos generais.
Ah! estúpidas são as obediências. E de ti eles estão a rir!
Os presidentes só mandam, nunca vão mortos em funerais.

Estás condenado a sentir-te miserável e desprezível.
És parte da infâmia desordenada que o mundo adora!
Assuma essa verdade; ela não é mais invisível.
Vamos, resista e não vá. Viver ainda é a tua hora.

Jovem, olha o mundo e vê a guerra: tudo ficará em farrapos.
Lamentável, sinto vir vindo a destruição e morte de gente.
Num piscar d'olhos, os humanos sobrarão em trapos.
Mas, quem os manda, lá não está, nem responde 'presente'.

Jovem, olha a guerra e vê: hoje ela tem tempo marcado,
Anunciam-na rápida! Deus, há adjetivos para guerra?
Tal imbecilidade nos fere e jamais estará no passado.
Condenados sem crime, civis sonham com a paz na terra.

Jovem, olha a guerra e vê: teu sarado e bonito corpo,
Cabelos pintados, maquiagem, teus olhos fitados
De nada servem, pois vidas cairão num leve sopro.
Ah, pena! Os sinos doravante dobram pelos finados.

Tua vaidade é inútil frente ao corpo do soldado enganado,
A bomba vai estourar-lhe as entranhas e quebrar-lhe o peito,
Cuspindo-lhe fora o cérebro ensangüentado.
Se calhar, na mente dos governantes, o drama já estava feito.

Jovem, diz-me, sincero, de que vale o tênis cheio de graça?
Compraste-o tão caro! Mas, compara com as botas fortes,
A pisar no inimigo, anunciando severa desgraça.
Nada há mais neste mundo a retardar as mortes.

Jovem, olha a guerra e vê: teus cabelos com gel arrumado,
Que pena, contrastam com aqueles do soldado morto,
De sangue estão manchados, num capacete bem fechado.
Inútil é resistir, enquanto o pensamento anda torto.

Jovem, olha o mundo e vê: os beijos nas estúpidas novelas,
São migalhas diante do beijo da mãe, dando adeus ao filho,
Com data e hora para morrer, lá tão longe, nas vielas.
Erro ao bater na porta do sentimento, não mais o partilho.

Jovem, olha a guerra e vê: pra quê o belo computador?
Se o jovem soldado segura um fuzil fumegando e infame.
Déspotas obrigaram-lhe a ser, de aluguel, um matador.
Eu ou tu, haverá alguém no mundo que por ele reclame?

Jovem, olha a guerra e diz-me: pra quê uma roupa de marca,
Comprada em loja assim-assim, se o soldado veste um sujo traje?
É... a vingança da vida tropeça, mas nunca tarda,
Impuseram-te outros tipos de uniformes; a diferença é o ultraje.

Jovem, olha a guerra e vê: a cidade pobre entre as pobres.
Só em maciços minutos de bombardeio voaram,
Desperdiçados pelos ares milhões de dólares.
Onde estão, senão com Deus, os que ali a povoaram?

Quantos famintos não poderiam ser salvos, meu amigo.
Fosses miserável, trocarias uma bala de fuzil por um pão?
Fico sem respostas, com a melancolia que habita comigo,
Não só lá distante, mas também nesse nosso rico chão.

Jovem, olha a guerra e vê: ela está cheia de produtos,
Tudo vira consumo; a indústria bélica deve ser desovada.
A TV tem assuntos e fatura com comerciais brutos,
E atordoam nossa mente com notícias em saraivada.

Rápido, jornais e revistas esgotam suas edições.
Vendem-se: fitas isolantes, máscaras antigás e radiação;
Políticos aparecem de olho nas próximas eleições.
Para civis inocentes, ou a morte, ou a rendição.

O mundo consumista fica feliz com a torpe guerra.
Na batalha digital, há caros e loucos computadores.
E todos se perguntam: como ganhar dinheiro com ela?
Mas - esta é boa - nem se preocupam com as dores!

Um círculo é fatal: os imperialistas montam planos,
Jovens vão à luta, matam, morrem e caem no abismo.
No fim, cineastas filmam tudo, sem pudores e danos,
E ainda se premiam com estatuetas; satânico esnobismo.

Jovem, olha a guerra e vê: para a paz não demos a menor pelota.
Mahatma Gandhi gritava: o caminho para a paz é somente a paz!
Surdos acham que a paz vem com a guerra. Ah! dessa, ela não brota!
Não para rimar, só lembrar: o caminho para a paz é somente a paz!

Enganaram-te, não? Na escola, obrigaram muita eficiência,
Para estudares Física, Química, Biologia e Geografia,
E enobreciam tais matérias com pompa e glória de Ciência.
Agora, quando se sabe de verdades, em quem se confia?

É que da maldita matança, o responsável anda por onde?
Esqueceram de te avisar que aqueles mesmos cientistas,
Das mortes são alquimistas, porém, escondem-se lá longe.
Em Hiroshima e Nagasaki, foram eles os principais artistas.

Percebes contraditórios humanos te enganando?
Proibiram a maconha, mas verás no próximo filme os generais:
Ontem, impediam; hoje, nem ligam para solitários soldados fumando.
Antes, serviam-se de ordens duras; agora, por interesses, jamais.

Compreendo teu descrédito; o mundo é uma hipocrisia!
Ora proíbem ali, logo-logo permitem aqui.
Não sei onde mora a verdade e não a vejo causar mais euforia.
Com asas ligeiras, a credibilidade fugiu de ti.

Tu, com tantos sonhos, vês adultos mentirosos.
O mundo não são novelas nem o ridículo consumismo,
Lembra: a TV e os governantes te passam mel nos olhos.
Mas não podem esconder, em tudo há um quê de oportunismo!

Acorda rápido, pois me rendo perante a guerra infame,
Desisto, meu jovem amigo. Agora, termino este verso amargo.
Saia para as ruas. Pelo amor de Deus, viva a paz e reclame,
Pois, ferido em minh'alma, deixo o mundo a teu encargo.

Ao humano, não é urgentemente necessário
conhecer toda a História.

Todavia, é necessariamente urgente
conhecer toda a sua história.

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