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Artigos de
Dê-me
cá um aperto de mãos! Certa
noite, eu estava dormindo num berço muito bonito. Sossegado, acordei de um sono
profundo e fiquei ali, quietinho, quietinho, olhando para o teto, sem
compreender porque vivia, sem entender o que estava fazendo e sem perceber o que
estava sentindo. Ainda não aprendera a falar ou a pensar. Todavia, era
maravilhoso me sentir vivo e, mais ainda, muito amado por uma mulher e um homem,
que sempre me enchiam de beijos, abraços e, pasmem, davam-me mil mordidinhas no
pescoço. Para mim, isto devia ser o amor ou, pelo menos, parte dele! Cicatrizes I. Minueto Gritando, como sempre o fazia, ele preparava o seu exército para a desastrosa aventura militar que iria empreender. Descreve-o a História como homenzinho de pescoço miúdo e de estatura pequenina. Todavia, o que a natureza lhe roubou no corpo, presenteou-lhe de sobra no espírito, isto é, com prepotência, tirania e arrogância. Vivia com os nervos à flor da pele! Para descrever a chacina de milhares de soldados, os acordes e os sons de violinos e trompetes começavam a recontar e reviver 1812: cego de ódio e de juízo, Napoleão ia invadir a Rússia. II. Allegro apassionato O norte-europeu, Giannandréa Botini, é médico afamado que, desde o início da carreira, dedicou-se à vida acadêmica e ao consultório psiquiátrico, que lhe consomem o espírito e neurônios. Não bastasse tal fadiga, o seu corpo também se enfraquece, pois, ansioso e angustiado, o homem devora mais de duas carteiras de cigarros, entre noite e dia. É vício trazido da juventude que, além de responsável por problemas respiratórios, agora já lhe pinta o pontudo bigode de amarelo, cor semelhante à manteiga salgada mineira. A vida houve por bem lhe ter dado uma bela e dura rasteira e, até hoje, passados 3 anos, o velho doutor amarga a saudade de sua mulher falecida. Como a profissão lhe ensinou a ser profundo conhecedor da técnica do destino, ele sabe o quanto este é implacável: aquilo que tem que ser é, e ponto final. Entretanto, se este ponto deu final à vida da esposa Tissiana, esta lhe deixou no lugar e de herança a filha Marcella, hoje a razão da vida e do trabalho. Não fosse a moça a despertar-lhe a paixão, tenho cá minhas dúvidas se o nosso médico, outrora exímio aplicador de injeções, já não teria, com uma delas, dado cabo à sua existência. Todavia, como não somos nós os escritores daquele ponto, lá continua ele o seu caminhar por este mundo. Pelo que o leitor pôde ler no início desta nossa prosa, Dr. Botini, sentado na saleta íntima, ouvia, de Tchaikovsky, a Ouvertüre 1812. A peça musical é uma verdadeira obra prima que, por notas e sons, narra deliciosamente a história do apoucado imperador francês, invadindo a Rússia. Fique tranqüilo, pois farei com que ela volte aos nossos ouvidos, no andar deste conto. Não desligue. III. Allegro amabile Enquanto ouvia a música, além de fumar, é claro, ele tomava um Bolla Merlot, safra 1996, que lhe descia goela abaixo como uma seda, ou lhe cabia como uma luva, deixando ao leitor a tarefa de escolher a comparação que desejar. Pela fresta da porta podia ver a filha, arrumando-se para ir à uma festa. De beleza estonteante, a rapariga, por caprichos de sua sina, era cópia fiel da mãe. Enfim, trazia à realidade, quase vivificada, aquela que tão cedo se fora. Naquela noite Marcella vestiu-se demoradamente. A sua saia era vermelha e estava coberta até a cintura por um largo casaco branco, proporcionando um contraste aceitável. Olhos pintados, um pouquinho de batom e o cabelo solto, davam àquela moça de 20 anos um tom onde se misturavam, a coragem, a ousadia e recato. Coragem, pois estudava Serviço Social, na PUC, e era entregue de corpo e alma às causas sociais e à crítica da sociedade consumista; ousadia, posto que adorava desafios e viver perigosamente; recato, porque o pai lhe trazia sempre em rédeas curtas e grossas. Pelo menos assim pensava. Só pensava mesmo, pois nem vou lhe contar o dia em que, vasculhando o quarto da moça atrás de cigarros para fumar, o Dr. Botini deu de cara com uma pontinha de cigarro da Cannabis Sativa, nome que o médico-cientista fazia questão de chamar a erva tão popular entre os jovens. Fez cair os céus em cima da moça, quase estourando-lhe os tímpanos: - Você é uma desmiolada, estragando-se no vício! Vai ser uma verdureira na vida. E foi daí para frente entre impropérios e desatinos, durante quase duas horas em que, como sempre acontece, ele falava e ela ouvia. Se a amava de um lado, a odiava de outro, pois não se conformava em ter uma filha tão "moderninha" como, a contragosto, a chamava sempre. Naquele homem, como em tantos outros, o ódio e o amor conviviam com seus trejeitos e maneiras. Coisas do humano, o quê se há de fazer? Já pronta e arrumada, a filha adentra a saleta: - Um beijo mio caro papà ! Te voglio bene! disse-lhe ela. Porém, como não podia deixar de acontecer, alfinetou: Dr. Botini, de novo ouvindo 1812, o senhor não enjoa desta música? - Buona note, principessa! Respondeu-lhe entre feliz e impassivo. Todavia, como não sabia parar de falar, chamou-a para bem perto de si, expressando-se com aquela "ternura" própria dos italianos: - Minha biruta Marcella, devagar com o andor que o santo é de barro! Já sozinho, olhando a fumaça pairando no ar, pensou, rindo consigo mesmo: Dio mio, ela não deve ter compreendido nada, pois os jovens não sabem nem o que quer dizer devagar, nem andor, tampouco o que é santo! IV.
Andante quasi allegretto ...Tchaikovsky entoa acordes iniciais, nos quais violinos seduzem e onde tudo é ligeiro, belo, quase terno. Prepara o ouvinte para mostrar a força do imperador invadindo, às escâncaras, o território russo e deixando profundas cicatrizes na história. Num crescente incrível de timbres, alterando-os entre o suave e o forte, rompe a ternura com instrumentos de percussão, incluindo tambores e bandas militares. Prenunciando verdadeiro delírio, a Marselhesa é entoada, canção patriótica de grave significação histórica... Após um último gole, cansado e um pouco tonto, Botini levantou-se e, no quarto, caiu na cama, já desligando o seu cérebro para dormir. Enquanto isto, a música continuava a tocar e ainda acariciava os seus ouvidos. Foi bom ter dormido de roupa e tudo, pois não imaginava o que estaria para lhe acontecer daqui a algumas horas. V. Allegro ma non troppo Marcella foi arrebanhando amigas, de casa em casa, até contar seis. Iam em seu carro, como sardinha em lata, mas alegres e ouvindo músicas modernas. Bem diferentes daquelas ouvidas por seu pai!. A festa se realizava no coração de São Paulo, num casarão velho e mal cuidado, na Avenida Paulista, talvez a mais nobre das avenidas, que corta ao meio um verdadeiro formigueiro, no qual tentam se hospedar milhões de humanos. Os jovens que ali estavam, sem dúvidas, tinham nome, sobrenome, carro à disposição e, possivelmente, estudavam nas melhores universidades. Portanto, gente virtualmente educada e pertencente à, assim chamada, elite intelectual e econômica. Foram ali papear, conversar, divertirem-se, enfim. Porém, além de se acotovelarem, por serem mais de mil, equilibravam nas mãos latinhas de cerveja que, se não estivessem estupidamente geladas, serviriam, em breve, para uma ação, digamos, estupidamente grotesca. Não tardou muito. Eram duas horas dadas. Do nada e por nenhum motivo, uma insolente latinha daquelas, fechada e cheia, foi atirada a esmo por algum mentecapto. Pela força com que foi jogada, atingiu tal velocidade e peso que, se a minha ignorância em Física não me permite calcular em números, a minha indignação me obriga descrever em estragos: bailando pelo ar, girando como uma bailarina em torno de si mesma, a latinha voadora acertou em cheio a face de uma das pessoas que ali estava. Convenho que é abominável, mas não posso alterar a feição das coisas, mesmo porque a verdade pede irrestrita fidelidade aos fatos: foi como um vendaval, pior ainda, um furacão. Como um saco de batatas largado, o corpo caiu ao chão, inerte e vertendo sangue; os seguranças tentavam segurar alguém que fugia, as meninas gritavam e alguns rapazes, logo-logo, colocaram aquela pessoa no primeiro táxi que ali esperava. Incansável, o carro rumou ao hospital mais próximo. Foi neste instante que o telefone do Dr. Botini tocou estridente, ferindo seus ouvidos e seu coração. VI. Adagio lamentoso Nem precisou se vestir, calçando rapidamente os sapatos; teve sorte, pois o elevador já estava em seu andar e o levou à garagem; mergulhou em seu carro e, literalmente, voou para o Hospital Santa Catarina. Como era médico, teve acesso imediato à sala de cirurgia onde o silêncio só foi quebrado por seu colega, que lhe disse por de trás da máscara verde: - Botini, o quadro é grave. Há suspeita de perfuração do globo ocular e já chamamos o oftalmo. Possivelmente, pela queda, ou fraturou o Occipital ou há hemorragia interna. Estamos verificando tudinho. Poderá ficar desacordada por algum tempo. - Por algum tempo? Retrucou, sentindo-se um joão-ninguém da medicina. O nosso protagonista sentou-se na sala de espera e lá ficou estático sem conseguir articular um só pensamento ou perceber que sentimentos vinham em seu coração. Era um semimorto. Passavam vinte minutos das cinco. Não me animo a expor-lhe as cenas que se seguiram, mas não me cabe ocultá-las. Depois de três horas de cirurgia o colega apareceu com novas notícias: - As coisas estão sob relativo controle. Foram oitenta pontos dados entre a sobrancelha e a boca e a base do nariz está absolutamente quebrada. O exame de fundo de olhos está sendo realizado e há risco de perda da visão; não houve fratura do Occipital e não sei porque ela não acordou. Marcella estará na UTI, incomunicável. Você deve ir para casa, descansar duas horas, tomar um bom banho e voltar com a barba feita. O dia pede que você esteja forte e descansado. Como não mais pensava, e quem não pensa só obedece, Botini saiu do hospital com o coração na boca, em direção à sua casa. O peito parecia que ia explodir, podendo dividi-lo ao meio e em duas partes iguais. Perambulava pela rua, à procura de seu carro e, como não o encontrasse, entrou num bar: - Per piacere, um cafezinho. Quando este chegou, Botini o recusou para espanto do atendente. Não, não quero mais; dê-me um conhaque puro! Num gole só despejou o agudo líquido pela garganta que, queimando todo o percurso, assentou-se no estômago, fazendo um reboliço expresso em arrepios por todo o corpo. Chegando em casa, ligou o aparelho de som, encheu uma taça de vinho e acendeu um cigarro. Logo esparramou-se pelo chão da saleta, sentindo dores fortes como se uma britadeira tivesse violado o seu peito. Olhando para o retrato da esposa e da filha e pressentindo morte, falou consigo mesmo: - Dio santíssimo, que caos, que castigo injusto e imerecido! Sabem Deus e ela o que passou! Que motivos teria uma pessoa para arremessar friamente aquele objeto, cortante e pesado, contra a multidão indefesa? Ódio? Não era; ódio do quê. Vingança? Não era; vingança do quê? Não sei, então. Por que? Perché Dio mio? ...Tchaikovsky, já em meio a sua obra, volta a descrever, em sons vibrantes, o massacre dos soldados franceses. Obsessivos, violinos começam soar os mesmos acordes, mais parecendo uma ensurdecedora sinfonia, aloucada e sem fim. Napoleão, na batalha de Borodino, conquista Moscou e a deixa em chamas. Aparência enganosa, pois a inesperada volta para Paris seria o desastre do grande estrategista. Aqui e acolá, a História não cansa de mostrar: os que aparentam força, tornam-se fracos e precisam de armas... VII. Um poco presto e con sentimento Descansou uma hora cheia e antes que a outra se completasse já estava apostos no hospital. Como ainda não se restabelecera dos momentos vividos com a esposa, preferiu não entrar na UTI, para evitar maiores sofrimentos. E assim se foi um, mais um outro e no terceiro dia Marcella estava no quarto. A alegria de ambos só foi quebrada, pois, novamente, o ódio invadiu de súbito o pobre pai que, sem lógica e tino, começou a esbravejar com a filha. - Lugar de criança é em casa... eu lhe havia dito para não sair... em que moquiço você foi se meter... a continuar assim só será uma verdureira! Astuta, a jovem silenciou e o velho percebeu que a hora estava mais para flores do que para farpas. E retomaram a conversa sobre os acontecimentos de maneira calma, já que nem o olho e tampouco o cérebro da moça corriam perigo. Só a cicatriz... - Apenas uma pergunta, mio caro papà. Por que? Por que aconteceu? Em que mundo vivemos? Agora era a vez de Botini silenciar, pois não queria lhe contar que esta pergunta ele já havia se feito. Olhando o rosto da filha, mal podia enxergar seus olhos, devido não só ao inchaço, como ao grave hematoma azul-anil; a faixa na cabeça dava a sensação de uma mulher egressa de uma guerra; os esparadrapos que cobriam sua face, ah! esses escondiam uma grave cicatriz. Entretanto, Botini nem a queria imaginar e eu não a quero descrever! VIII.
Finale, andante maestoso Junto com as duas semanas seguintes passaram, também, os terremotos e vendavais. Numa manhã de Domingo, Marcella entrou correndo no quarto do pai, que, para variar, ouvia 1812. Como bem vê o leitor, o nosso herói era um obsessivo-compulsivo! Bem, deixa para lá, pois cada qual com a sua mania! - Papà,
del mio cuore, achei! Achei a resposta de nossas indagações. Os porquês estão
aqui! Observe a propaganda nesta revista e, como boa filha de psicanalista,
interpretarei para você. Attenzione
dottore Botini. Encostaram-se na cama. A moça colocava a revista diante de ambos olhos, virava de lá para cá, aproximava e distanciava, assim como fazem os míopes. - Papà, diante de nossos olhos indefesos surge esta página inteira de publicidade. Veja: estampado, de um lado, este lindo jovem surfando e, atrás, esta não menos linda onda do mar; o jovem moreno e o mar verde dão à cena movimento e colorido impressionantes e, certamente, quem os vê tem vontade de aqui estar, com imediatos sentimentos de ligação e de vínculo. Papi, o anúncio é erótico, penetra de maneira brutal e se transforma em forte apelo, atingindo desde a visão, até as vísceras. Só falta falar: vamos, participe desta aventura, saboreando um cigarro. Doutor Botini, isto não é uma pura ilusão, espécie de magia que entrelaça a mente? O velho parecia ouvir uma aula de Psiquiatria e, atento, esperava para ver aonde a filha iria chegar. Sem ela perceber, aumentou um pouco o som... ...Tchaikovsky chega ao auge e, na partitura, misturando leveza e força, começa a contar o doloroso retorno a Paris. Os instrumentos de cordas, de percussão, de sopro, o repicar dos sinos tocando fortíssimo sobre o bronze e, ao fundo, a salva de canhões, mostram o desespero e a morte. Napoleão ainda pensava em ser vitorioso; como no anúncio, ele não imaginara que tudo seria pura ilusão. Espécie de magia que lhe entrelaçava a mente... - Deste lado direito, papai, aparece a marca Hoolyood e, em baixo, a inútil frase: o ministério da saúde adverte: fumar prejudica o bebê! A nossa visão aqui ainda é retida e a sedução continua. Vê agora, olha aqui do outro lado, à esquerda, aparece esta frase, composta unicamente de duas palavras, que, além de tornar a publicidade um crime perfeito, nos oferece, de mão beijada, a resposta aos nossos porquês. Está aqui a explicação para a latinha voadora, para o meu sofrimento, para o seu sofrimen... Botini, emocionado, olhou à esquerda onde estava escrito em letras bem visíveis e, cortando as palavras da filha, leu alto: - NO LIMITS. - Papai, fiquei pasma, atônita, sentindo-me idiotizada: por que não havia pensado nisto antes? Distração dos diabos! Às vezes, o resultado das nossas indagações está a dois palmos do nariz e nós andando como cegos. NO LIMITS. É assim que vivemos, é o que queremos, sendo isso que esperam de nós. Sabe, somos forçados a viver sem limites! Alguém jogou a latinha no meu rosto porque vivemos numa absoluta ausência de limites, você concorda? ...Tchaikovsky, pelos sons, conta como os caminhos bloqueados pela neve, pela chuva e pela lama, fizeram com que, arrogante, Napoleão visse o seu exército de 300 mil homens perecer soterrado num frio de enlouquecer. Felizmente, como em tudo nesta vida há o verso e o reverso, ao onipotente imperador só faltava esperar por Waterloo, local de sua última e mortal batalha. Enfim, aqui e acolá, História não cansa de mostrar: os que aparentam força, tornam-se fracos e precisam de armas... Pai e filha se abraçaram e esta chorava muito, talvez colocando para fora tudo o que até agora segurara no seu coração e em seu ventre. Botini a afastou um pouco para longe de seus ombros, retirou os cabelos que lhe cobriam a vista e enxugou as lágrimas escorridas pela sua linda face. Entrementes, sentiu um aperto agudo em sua barriga, que se seguiu de uma coleção de arrepios. Pela primeira vez bem de perto, observou que, ali, jazia uma enorme cicatriz. Embora disfarçando, ele estremeceu, pois, como bom psicanalista e, compreendendo a alma da filha, lembrou-se de que as piores cicatrizes são, justamente, aquelas que não se vêem. Gangorra Você
não sente e não vê O dicionário grafa o termo elenco: s.m. 1. lista, rol; 2. índice, catálogo; 3. conjunto das personagens e atores de um espetáculo, que compõem um grupo de teatro, cinema, TV ou rádio. Embora não apareça como verbo e com a licença que a Língua Portuguesa nos permite, iremos navegar por uma variante, imaginando-o como "elencar". Para nós, ele ultrapassa o significado de apresentar numa certa ordem, pontuar, listar, elaborar uma vinculação entre partes; por exemplo, pinçar da História fatos, idéias, nomes ou fenômenos que têm analogias entre si, com parecença ou semelhança. "Elencar" é um dos caminhos para se efetivar a operação de identificar e também visto como uma das habilidades de pensamento, na busca da identidade, da sucessão, da coexistência, da correspondência e do encadeamento lógico de partes que compõem o todo do nosso objeto de estudo. Posterior, ou concomitantemente, poderão emergir outras operações, tais como analisar, comparar, classificar e criticar. Não nos entenderá o leitor fazendo simplesmente um mapeamento de palavras ou um jogo terminológico, todavia, querendo dar vida e luz diferentes ao que foi por nós estudado no entremeio dos anos 1960 e 2000. Apontar tais conceitos torna-se uma prática reflexiva da mente, elaborada quando os colocamos numa certa ordenação lógica e, em conseqüência, permite um distanciamento destes fenômenos culturais. Então, a tarefa neste difícil ensaio é aprimorarmos uma visão crítica sobre dimensões que foram determinantes do nosso pensar, sentir e agir, enfim, sobre os ângulos que deram foco à nossa existência profissional. Ao identificarmos conceitos, estamos como que nos apresentando a nós mesmos, ou, quiçá, nos reapresentando. Eles emergem na e da História, não sendo entidades abstratas, atemporais, caídas do céu em nossas cabeças, mas como frutos concretos do nosso pensar, de nossas necessidades ou das que nos impuseram sentir. Sim, há uma imposição silenciosa de idéias que, dialeticamente, ao serem assimiladas, vão modificando o nosso próprio ser e o nosso modo de pensar, alterando as relações com a comunidade na qual vivemos e apontando caminhos sócio-políticos a serem percorridos. Conceitos, ora são um pouco do que somos, então espelho; ora o que desejam que sejamos, então faca afiada e imperativa. A periodicidade de teorias e idéias instaladas em nossa vida profissional, estabelece um jogo intrincado de poder. Na nossa arrogância, pensamos que, ao nos mostrarmos como "donos" de pensamentos e terminologias, ou em cargos com títulos, somos mais do que outros e posseiros de uma parcela determinada nas diferentes Ciências. Certamente, sentimos um prazer narcisista em dizer: sou piagetiano, o outro é fenomenólogo; aquele indivíduo é construtivista e o outro é freudiano; eu sou lacaniano, homeopata, alopata, chefe de departamento, diretor da área e assim por adiante. Apresentaremos alguns conceitos especialmente ativos na História da Educação brasileira, nos últimos anos. Entretanto, é esclarecedor lembrar como é sempre difícil avaliar a sua extensão e o seu alcance pois, além de determinarem a silhueta de nossa vida profissional e os contornos da produção de conhecimentos, demarcaram decisiva e amplamente a vida ideológica do país. Sempre novos e inclusos no nosso dia-a-dia, são teorias notáveis, terminologias incomuns, teses, enfim, doutrinas que se agruparam. Vamos lá: •
Escola Tradicional. E iríamos adiante, procurando na memória ou nas prateleiras, terminologias que sustentaram a Educação e a escola brasileira. Até aí tudo certo, posto que as Ciências pesquisam alicerces diferentes, teorias modernas ou múltiplas formas de se fazerem presentes no quotidiano dos humanos, não só para ajudá-los, como, também, para transformar a sociedade. Com a Educação não foi diferente. Só que, juntamente com esta prática, emergiram visíveis contradições e, não tendo mais como escondê-las, devemos encará-las e estudá-las, para compreender o processo histórico-político em que fomos, ora atores principais, ora espectadores inertes. Eis algumas:
1ª. Expressos, ou no discurso, ou em atitudes, observamos sentimentos de insatisfação nos que estão no palco da escola. Educadores há assustados com o jeito displicente e altivo, características vistas, tanto em crianças, quanto nos moços. Deveras, os mestres se sentem desanimados ou impotentes, sem saber como enfrentar, por exemplo, um dos mais sintomáticos comportamentos que ratificam estas nossas teses, a saber, a indisciplina e a violência, com as quais convivem nas salas de aula e nos corredores da escola. Os alunos, com mil outros estímulos perceptivos e sensitivos, longe de limites e muito perto dos prazeres da vida, não vêem sentido no estudo-de-cada-dia e no esforço para a construção sólida e consistente de conhecimentos. Muitas vezes, diretores se sentem distantes dos professores, a tal ponto de não saberem como incentivá-los a terem energia e entusiasmo. Quanto às famílias, poderíamos nos perguntar se sentem confiança ao entregar os filhos no portão da escola ou satisfeitas com o produto auferido depois de 13 anos de educação básica. Por outro lado, nunca se pensou tanto em Educação nem ela esteve tão presente na sempre ansiosa mídia como nos últimos anos! Investiu-se dinheiro, tempo e carreiras na procura de um modelo educacional, que idealizávamos alicerçado mais em dimensões qualitativas, do que nas quantitativas. Para provar isto, basta ler aqueles conceitos apresentados nos parágrafos sobreditos, ver quantos congressos, cursos, concursos, premiações e pós-graduações permeiam nosso calendário e, por fim, percorrer as prateleiras de uma livraria. Inacreditável: grassam idéias, pululam temas e germinam opiniões.
2ª. Expressos no dia-a-dia e marcando a contemporaneidade dos humanos, não devemos deixar de anotar incríveis avanços no que a diz respeito à tecnologia, ainda que esteja muitíssimo distante das classes sociais de renda inferior. Mesmo assim, vemos professores e alunos valendo-se do computador, de programas operacionais ou da vida on-line. Nesta seqüência, passamos a cultuar a Informática como se adorava a estátua de Júpiter Olímpico, obra de Fídias, a mais bela e perfeita realização da escultura grega. De instrumento de ajuda, passou a ser um imperativo, um sonho de consumo mítico ou uma peça-chave na nossa necessidade de comunicação e na busca compulsiva do poder oriundo de informações. Mais preocupada com a velocidade do que com o destino, ela se transformou de princesa em rainha: inúmeras casas e escolas estão instrumentalizadas com aparelhos tão caros, quanto de pequenina vida útil, mas que amenizaram um pouco a vida acadêmica. Por outro lado, se observarmos as relações sociais, políticas e econômicas que emolduram a existência do professorado, a postura de liderança dos diretores e a voz de comando que ecoa dentro dos órgãos governamentais, veremos que tais dimensões estão depauperadas e confusas. Haja vista, ainda não termos clareza nos processos de avaliação ou de promoção escolar; seria o mínimo, depois de anos de estudo e de tantas idéias encadernadas em livros, teses e leis. Enfim, prática educativa e tecnologia andaram por estradas separadas, e os educadores, tampouco, puderam seguir o norte apontado pelas inúmeras e novas teorias que proliferaram.
Mas, o novo não é importante? Sim, o novo responde "presente" à chamada histórica, firmando-se como condição básica para o enfrentamento diário, tanto para mestres, quanto para alunos. Oxigênio imprescindível, ele está presente nos encantos e encontros de cientistas-educadores. Porém, insaciáveis, passamos a ser consumidores do novo. A sociedade consumista não perdoa qualquer segmento e fere a todos com o vírus da gastança e do desperdício. Quase sem querer, nos vimos consumindo livros, apostilas, congressos, cursos, palestras e idéias; especialmente, idéias. Só depois de tê-las escrito na folha de papel, é que pudemos tomar consciência de quantas idéias marcaram época e de quantas nos esquecemos. Exatamente, pois o acúmulo de informações que daí emergiu nos distanciou da essência própria de cada uma delas e nos fez implodir a memória, pois foram imediatamente substituídas por uma nova, a qual nos excitou euforicamente por um tempo. Dessa forma, deixando poucas marcas, diluíram ou impediram possíveis conexões consistentes entre as partes e o todo de nossa visão educacional. Pena! Expressões usadas em Educação, ou em qualquer outra Ciência, correm denso risco de se tornarem "ruidosas", à medida que tenham seu uso banalizado, posto serem superficialmente incorporadas por diversos atores e setores da comunidade. Palavras "ruidosas" têm o papel de provocar re-ações ou de orientar atitudes rápidas, transformando-se em aspirações de momento, carregadas de emoções ou de fragilidades próprias das superficialidades. Voam como lufadas de vento. Isso acontece porque, se de um lado o uso descompromissado de conceitos favorece a perda do significado e do seu real sentido, de outro, o seu emprego como termo técnico desconhecido em suas profundezas, fica vulnerável a defesas e ataques. Igualmente, oscilam, ficam opacos, enfraquecidos e acabam por serem rechaçados, até que um novo vocábulo seja construído e consumido, percorrendo o mesmo destino: o esquecimento, a indiferença, ou até mesmo o descrédito. Por isso, talvez, tenham surgido idéias fragmentadas e a sensação obsessiva de poder conferida aos que detinham doutrinas e informações. Estas passaram a integrar o sistema geral de mercadorias, impondo à prática mudanças superficiais, em detrimento de uma experiência profunda ou da assimilação mais alicerçada das teorias mesmas. Ora, pois, demos maior destaque para a reciclagem sazonal e vinda de fora, do que para o aprofundamento constante e endógeno. Não há como discutir as idéias expressas neste texto, sem nos perguntarmos o que sobrou de todos aqueles conceitos apresentados nas páginas anteriores. Hoje, decorridos tantos anos, o que restou? Quantos, ainda, continuam a emoldurar a nossa identidade político-pedagógica? E quais são para todos nós referenciais consistentes? Por favor, responda-nos, de pronto, o leitor fiel. E saiba que não imaginamos subvalorizar o novo nem deixar de reconhecer nele funções didático-pedagógicas inegáveis nas Ciências, em geral, e na Educação, em particular. Só que o novo não precisa assassinar o antigo, sob pena de virar uma novidade. Diríamos, uma mera novidade. Na Ciência, as idéias novas podem trazer em seu corpo as marcas possíveis das antigas, para que haja continuidade, segmentos lógicos, sucessão e algum prosseguimento. Dicotômica, a novidade conturba, enquanto o novo constrói. Ela é supérflua, o novo tem profundidade. A novidade incita à confusão de idéias, ao passo que ele nos dá sustentação teórica e aponta uma prática exeqüível. O novo resiste ao tempo, já a novidade, moda fugaz, se acaba aos poucos, sendo substituída, rapidamente, por outras. Melhor dizendo, periodicamente. Não há como reinventar a roda a cada pensar, a cada teoria, leis, pareceres ou portarias. Inovar não significa, necessariamente, inventar ou reinventar. Inovar deve, pois, ser entendido como a utilização criativa e pessoal de idéias, mesmo as antigas; e reclama, obrigatória e conjuntamente, uma grave postura crítica perante teorias que possam vir ocultando interesses escondidos, sejam eles quais forem: de oportunismo de políticos, de classe social, de projetos e empreendimentos comerciais, de grupos econômicos poderosos ou até de povos colonizadores e imperialistas, com os seus projetos ainda expansionistas. Depois destas e de outras reflexões, saberíamos nós identificar as diferenças entre o novo e a novidade? Qual seria o fio condutor de nossos pensamentos a nos dar certezas e a apontar o norte? Geralmente, a resposta para tais angústias mora na possibilidade de olharmos para dentro de nós mesmos, pois é aí, justamente aí, que se instalam a novidade ou o novo. Enfim, nós próprios somos os seus agentes, estabelecendo os referenciais delimitadores destes dois campos tão abstratos. Ora os amplificamos, ou os diminuímos; ora nos enfeitiçamos, ou os repudiamos. Por outras tantas vezes, fazemos sínteses e caminhamos: travessias. O principal a ser extraído destas reflexões, frente àquelas contradições e à complexa situação ideológico-pedagógica em que nos encontramos, é a nossa postura antidogmática. O acúmulo de informações que nos cerca e a pressa em sempre definir rumos novos, nos transformam, muitas vezes, em vítimas do próprio excesso, diminuindo a possibilidade de vivenciarmos experiências mais profundas e serenas de construção de conhecimentos. Sucede que a informação é tão-somente uma pequenina parte da construção do pensamento e do saber e ela vem, por vezes, permeada de preconceitos e se equilibrando em interesses ou em dogmas reducionistas. Entendamo-nos, por fim: obcecados pela quantidade de informações a serem necessariamente obtidas e atendendo ao canto das sereias que ordenava "não perdermos tempo", passamos a educar não para viver, mas para vencer. Pena! Ademais, é importante lembrar que a mais impressionante verdade absoluta é que não há verdades absolutas; e, para os chamados "especialistas", que coloquem as barbas de molho, posto que, ao pretenderem estabelecer dogmas, prestam desserviços à Ciência e ao país. Não há mais lugar para a fé cega, aceitação de palavras de ordem ou explicações que subvalorizem a inteligência alheia, marcadas por ranços autoritaristas, religiosos ou maniqueístas. Hoje, obrigamo-nos todos a uma participação ativa, como seres pensantes e com um largo espaço de manobra para discussões e sínteses. Entre outras, quem sabe? aí estão hipóteses para compreendermos as contradições do nosso mundo e para entendermos que, ao continuarmos a endeusar as novidades, faremos pouco pela Educação e por este país. Perplexos, somente nos obrigando a consumir idéias estaremos, com muita certeza, brincando de faz-de-conta, em cima de uma maravilhosa gangorra. Cartas Estou
escrevendo esta carta para você... Pensei
muito antes de lhe escrever... Amor,
dentro desta vai, também, o meu coração sofrendo com muita saudade... Envio-lhe
junto com esta... Ainda
não recebi a sua resposta e eis-me aqui com esta carta já pronta... Espero
que esta carta o encontre em perfeita saúde... Não
obtive resposta de minha carta, e não consigo entender o porquê! Termino
esta carta e espero que não a mostre a ninguém... Escrevo-lhes
estas mal-traçadas linhas... Eu não
menti em minha última carta, você é que a entendeu mal... Carta
de Paulo, apóstolo, aos Filipenses. Carta de Paulo, apóstolo, aos Hebreus, aos
Romanos, aos Coríntios e assim por diante. "Meu
caro amigo me perdoe, por favor/ Se eu não lhe faço uma visita/ Mas como agora
apareceu um portador/ Mando notícias..." Até
a próxima. Que tudo corra bem. Responda-me o mais depressa possível... Jovem, olha o mundo. Vê a guerra. Poesia escrita no outono de 2003, no dia em que as forças anglo-americanas invadiram o Iraque Era um
garoto(1976) DEDICO
PARA TODOS OS JOVENS BRASILEIROS QUE, Jovem,
olha o mundo. Vê a guerra. Sinta-te
pequenino, mesquinho e vê a insensatez florir Estás
condenado a sentir-te miserável e desprezível. Jovem,
olha o mundo e vê a guerra: tudo ficará em farrapos. Jovem,
olha a guerra e vê: hoje ela tem tempo marcado, Jovem,
olha a guerra e vê: teu sarado e bonito corpo, Tua
vaidade é inútil frente ao corpo do soldado enganado, Jovem,
diz-me, sincero, de que vale o tênis cheio de graça? Jovem,
olha a guerra e vê: teus cabelos com gel arrumado, Jovem,
olha o mundo e vê: os beijos nas estúpidas novelas, Jovem,
olha a guerra e vê: pra quê o belo computador? Jovem,
olha a guerra e diz-me: pra quê uma roupa de marca, Jovem,
olha a guerra e vê: a cidade pobre entre as pobres. Quantos
famintos não poderiam ser salvos, meu amigo. Jovem,
olha a guerra e vê: ela está cheia de produtos, Rápido,
jornais e revistas esgotam suas edições. O mundo
consumista fica feliz com a torpe guerra. Um círculo
é fatal: os imperialistas montam planos, Jovem,
olha a guerra e vê: para a paz não demos a menor pelota. Enganaram-te,
não? Na escola, obrigaram muita eficiência, É que
da maldita matança, o responsável anda por onde? Percebes
contraditórios humanos te enganando? Compreendo
teu descrédito; o mundo é uma hipocrisia! Acorda rápido,
pois me rendo perante a guerra infame, Ao
humano, não é urgentemente necessário Todavia,
é necessariamente urgente
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