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Artigos de
José Roberto Torero

José Roberto Torero

Biografia:                   Nasceu em Santos no dia 9 de outubro de 1963. Formou-se em Letras e Jornalismo pela USP. É autor do best-seller O Chalaça (Prêmio Jabuti em 1995), . Em cinema, dirigiu e escreveu curtas-metragens – entre eles, o premiado "Amor" e o longa metragem "Como Fazer um Filme de Amor"– e trabalhou como roteirista nos longas "A Felicidade É..." e "Pequeno Dicionário Amoroso". Torero é escritor, jornalista, roteirista e dono de uma livraria. Temos a honra de contar com seus artigos como "colaborador" de nosso portal. 
Site:
www.realejolivros.com

Diálogos na fila do Juízo Final

Os ateus têm apenas uma grande certeza na vida: todos morreremos. Vem lá um dia, o coração pára, fechamos os olhos, escorre-nos uma baba e acaba-se tudo numa grande e eterna treva. Já os cristãos, talvez mais criativos, têm uma segunda grande certeza: todos passaremos pelo grande julgamento, o dito Juízo Final, quando Cristo dirá quem subirá aos céus e quem baixará às chamas dos infernos.

Segundo a Bíblia, o Senhor julgará todos os homens e lhes dará seu último destino. Mas parece-me que faltou ao Livro dos Livros especificar os procedimentos legais e burocráticos do Juízo Final. Como será feita a grande fila dos homens que serão julgados pelo Senhor? Por data de nascimento ou de falecimento? E outra, teremos algum rábula para ressaltar nossos atos bons e relativizar nossas maldades? Haverá um diabrete para fazer a função de promotor? E, se formos condenados, teremos direito a um caldeirão menos fervente se formos universitários?

Os ressuscitados devem ser algumas centenas de bilhões de pessoas, o que fará a fila dar várias voltas pelo globo e, como haverá uma mistura de gente de todas as épocas, poderemos ter encontros absurdos: Gandhi e Hitler, Platão e Nietzsche, Jece Valadão e Roberta Close, São Francisco e Átila, Madre Teresa e Júnior Baiano etc...

"O senhor quer me vender a sua senha?"

"Perdão?"

"Eu perguntei se o senhor quer me vender o seu lugar."

"E ir para o final da fila? Não, obrigado. Aliás, o que você ganharia com isso?"

"Depois eu poderia vendê-lo por um preço maior. As pessoas estão muito ansiosas por aqui. Muita gente quer resolver isso rápido e para isso vai precisar de um lugar mais à frente."

"E porque não vende o seu lugar."

"Minha especialidade é a intermediação. Não é muito lucrativo vender o que é nosso. Capitalismo, o senhor entende?"

"Como poucos, meu filho. Mas não é o meu sistema econômico favorito."

"E há outro? Até a Albânia virou capitalista. "

"..."

"Tome meu lenço. Por que o senhor está chorando?"

"Desculpe, que estou um tanto nervoso. Deve ser por causa dessa coisa de inferno. Isso me dá um pouco de medo."

"O senhor cometeu muitos pecados?"

"Fui um materialista".

"Eu também. Mas isso não é motivo para desespero."

"Engravidei minha empregada e pedi para um amigo assumir o problema. Ah..., o bom Friedrich..."

"Não chega a ser um pecado terrível. Talvez o senhor ainda escape do grande martírio. Já eu tenho certeza que vou para lá. Fui muito rico e Jesus disse que 'é mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que um rico entrar no reino dos céus.'"

"Mas eu tenho outro problema: falei contra a religião. Cheguei a pregar a descrença e o ateísmo."

"E ganhou algum dinheiro com isso?"

"Nada."

"Pô, então, você merece mesmo o inferno!"

"Talvez, talvez.... Se pelo menos a fila andasse mais rápido eu não ficava nesta angústia."

"Porque você não aproveita essa demora e faz a barba?"

"Já me acostumei. Era moda no meu tempo."

"O senhor tem que cuidar das aparências. Minha querida Ivana sempre dizia que as roupas são um testemunho do nosso interior. Aqueles vestidos dela custavam uma fortuna."

"De que adianta uma roupa melhor se daqui a pouco estarei ardendo em chamas?"

"Pelo menos não vai queimar vestido como um proletário."

"Ah!, os proletários do mundo... Você sabe se eles acabaram se unindo?"

"Vale torcida de futebol?"

"Não, acho que não..."

"Assim você vai encharcar o meu lenço."

"Desculpe. Sabe?, eu queria que eles não passassem mais fome."

"Deus!, isso me faz lembrar que não como há horas!"

"Eu daria minha obra autografada por um sanduíche."

"Isso me dá uma idéia. Ninguém está aproveitando esta imensa fila para fazer nada. Podíamos fazer uns sanduíches e ganhar uns trocados."

"Como assim?"

"Está vendo aquele estoque de maná. Um anjo me falou que está jogado ali há anos. Podíamos fazer um acordo com ele e depois vender o maná para o pessoal da fila. É o maior mercado da história!"

"Você é realmente um capitalista! Aquele monte de maná envelhecido se transformou em mercadoria diante de seus olhos!"

"Algum problema nisso?"

"Nessa altura dos acontecimentos, não faz muita diferença."

"Então, topa ser meu sócio?"

"Como assim, sócio?"

"Preciso de alguém para percorrer a fila comigo. Eu vou para um lado, você para o outro. São os últimos fregueses de todos os tempos, não podemos perder nenhum."

"Sei, sei."

"Você entende de economia?, sabe o que é capital?"

"Conheço o Capital como ninguém."

"E então?"

"Está bem, mas você suborna o anjo."

"Deixe comigo. Aliás, preciso saber o seu nome. Nossa firma tem que ter um bom nome para ajudar no boca a boca."

"Karl, Karl Marx. E o seu?"

"Trump, Donald Trump."

"Então seremos Karl & Trump?"

"Não. Precisamos de algo que lembre sanduíches."

"Que tal Marxdonald's?"

"Você é um gênio, Karl."

"Acho que vamos longe, Donald."

Dos sábios e dos sabidos

Tenho para mim que, tirando a grande maioria dos parvos, estultos, idiotas, simplórios, crassos, patetas, imbecis, tolos, ignorantes, palermas, insanos e fracos de entendimento que povoam a Terra, a pequena minoria restante divide-se em dois blocos: os sábios e os sabidos.

Os sábio são homens dotados de grande inteligência e rara percepção. Já os sabidos foram prendados pela natureza com os dons da esperteza e da malícia. Podendo-se escolher, não se deve ter dúvidas sobre a qual grupo pertencer: o dos sabidos é muito mais lucrativo.

É fácil comprovar a correção dessa afirmativa. Tomaremos como exemplo qualquer atividade humana, e, para não dizer que elejo um exemplo favorável à minha tese, escolhamos um lugar que por excelência é a morada dos sábios: a universidade.

Suponhamos que dois professores disputem a reitoria. Um é grande cientista ou reconhecido filósofo; o outro é famoso por promover jantares, dar vinhos importados de presente e convidar os colegas para passar o fim-de-semana em sua casa em Maresias. O primeiro lembra de todos os presidentes; o segundo não esquece um aniversário. O primeiro às vezes se esquece de dizer bom-dia; o segundo possui um extenso vocabulário para elogios.

Qual destes, caro leitor, tu achas que será o novo reitor? Até mesmo alguém com a inteligência de Edmundo saberia a resposta.

Essa supremacia dos sabidos sobre os sábio também pode ser vista em outras atividades. Vejamos alguns exemplos:

*o sábio escreve o livro, o sabido imprime e vende;

*o sábio cria um novo remédio, o sabido o põe em vidros e cobra por ele o preço de uma poção miraculosa.

*o sábio esmera-se por uma boa matéria, o sabido possui o jornal;

*o sábio medita sobre a Bíblia, o sabido torna-se pastor;

*o sábio elabora um programa político, o sabido elege-se deputado;

*o sábio teoriza revoluções, o sabido vende armas;

*o sábio fala em abrir as portas da percepção, o sabido é traficante de drogas.

Acho que, depois de tão eloquentes exemplos, posso cometer a ousadia de resumir minha idéia num único aforismo: os sábios têm o domínio da ciência; os sabidos, a ciência do domínio.

Por isso, meu amigo, não perca seu tempo estudando. Ao invés disso contrate um ou dois sábios para trabalharem para ti. Para eles bastam uma ou duas moedas no fim do mês, algum elogio e, de vez em quando, ver seu nome impresso nalguma publicação de mediana importância.

Esses sábios são fáceis de pagar. É comum ouvir alguns deles dizendo que, perto do reconhecimento público, da satisfação pessoal e do elogio de um renomado colega, o dinheiro é uma coisa de menor importância. Quanto aos sabidos, é mais difícil um deles falar uma coisa destas do que o Inocêncio de Oliveira devolver o dinheiro dos poços artesianos do Dnocs.

Enfim, leitor, o que te quero aconselhar, se ainda não entendeste, é que, ao invés de conheceres os segredos da matemática pura, deves aprender os labirintos da contabilidade. Ao invés de escrever um livro, abre uma papelaria.

Amores Possíveis (21 a 30)

XXI

Dr. Fortes é um dos três melhores cirurgiões-plásticos de Arraial da Serra. Dona Magda, esposa do Dr. Fortes, exigiu que o marido fizese algumas mudancinhas em seu rosto. Queria um nariz mais altivo, um queixo mais delineado, olhos amendoados, bochechas arredondadas e orelhas um tantinho menores.

Dr. Fortes fez tudo como a mulher queria. Um mês depois pediu divórcio. Ele afirmou que antes da plástica Magda era única (feia, mas única) e que agora era apenas uma mulher perfeita como qualquer outra que passasse pelas suas mãos. 

XXII

Marilda, casada com o Coutinho da farmácia, tinha seis filhos. Já era um bom número, mas, por obra de Deus (ou de Coutinho), ela ficou grávida de novo. Coutinho, quando viu a mulher de barriga, perdeu o interesse e arranjou uma amante: Soraia. Marilda ficou tão desgostosa que apenas ficou em casa até nascer a criança. Depois pegou suas coisas e deixou os sete filhos para trás. Coutinho então pôs Soraia para cuidar do lar e dos filhos, o que deixou Soraia muito contente.

Mas agora Coutinho já não acha Soraia interessante. Ele diz que ela está com cara de dona-de-casa. Voltou a procurar Marilda e os dois andam se encontrando às escondidas. 

XXIII

Casimiro e Delmiro são caçadores. Caçadores dos bons, daqueles que nem precisam mentir. Eles sempre se deram muito bem, mas hoje parece que a amizade terminou. É que eles prenderam Dirce numa armadilha. Dirce é uma legítima harpia, um daqueles seres que têm rosto de mulher e corpo de abutre.

Casimiro diz que ela é a mais bela mulher do mundo e quer casar com ela. Delmiro acha que Dirce é um pássaro e quer comê-la, ensopada e com batatas.

XXIV

Cacilda era feia. Muito feia. A mulher mais feia do mundo (ou pelo menos de Paraisópolis, o que dá no mesmo).

Ariosto, talvez míope pela paixão, só reparou na desarmonia das linhas de Cacilda depois do casamento. Enquanto isso, Cleiton, seu irmão, casou-se com Dulcinéia, a mais bela moça da cidade. Para não se sentir humilhado frente ao irmão, sempre que os casais se encontravam Ariosto falava das qualidades de Cacilda. Contava dos maravilhosos pratos, da casa impecável e até insinuava alguns prodígios noturnos.

A tática deu certo. Cleiton não só reconheceu que Cacilda era mais interessante que Dulcinéia, como fugiu com a esposa do irmão; o que talvez prove que não são poucos os homens enxergam mais pelos ouvidos que pelos olhos. 

XXV

Ulisses já deu mil trezentos e vinte e seis poesias de amor para Dulcinéia. Mas Ulisses é quase analfabeto. O que ele faz é copiar com sua letra poemas alheios, desde  Camões até Bandeira. O que ele não sabe é que desde o primeiro poema Dulcinéia descobriu sua fraude. E que é justamente isso que ela acha mais poético em Ulisses. 

XXVI

Lucrécia não é exatamente uma mulher fiel. Já se deitou com o padeiro, o leiteiro, o açougueiro, o merceeiro, o quitandeiro e até com peixeiro. Por isso sua geladeira está sempre bem abastecida. Os boatos da vizinhança já chegaram até os ouvidos de Janjão. Mas ele não se importa. Sua única preocupação é comprar uma geladeira maior. 

XXVII

Depois do primeiro aniversário de casamento, Branca de Neve começou a sentir saudade dos sete anões. É claro que o Príncipe Encantado era tranquilo, corajoso, forte, destemido, belo, educado e gentil. Mas faltava alguma coisa. Os anões, mesmo sendo um pouco baixinhos, eram mais divertidos e sempre havia a variedade, fator que tanto auxilia a preservar os afetos.

Depois de muito hesitar, Branca de Neve olhou-se no espelho e perguntou para si mesma de quem ela mais gostava. Respondeu-se que amava os anões e fugiu de volta para a floresta.

Os anões, quando a viram, fizeram sete dias de festa.

O Príncipe ficou um tanto triste no começo, mas logo consolou-se nos braços de uma arrumadeira. Aí sim, todos ficaram felizes para sempre.

XXVIII

Quando Pompéia descobriu que Maria de Lourdes havia dormido com Rodrigo Augusto, o grande galã da novela das oito, primeiro quis matá-la, depois pensou apenas em  socá-la até quebrar a mão, mas acabou não fazendo nada disso.

Com o passar do tempo, foi até crescendo-lhe um certo orgulho por ter dividido a mulher com Rodrigo Augusto, tanto que passou a confessar o caso da mulher aos amigos.

Eles escutavam com espanto e não entendiam porque uma mulher que havia dormido com Rodrigo Augusto, o grande galã da novela das oito, voltaria para Pompéia.

Começou-se a imaginar que ele deveria ter enormes qualidades secretas.

Pompéia acabou construindo uma sólida reputação e passou a ser observado com inveja pelos amigos e curiosidade pelas mulheres.

XXIX

Neneca jogava sinuca todas as noites. Marilu, que ficava em casa sozinha, ameaçou pedir o desquite. A solução de Neneca foi levar a mulher para os jogos.

Não foi uma boa idéia. Marilu rapidamente virou a melhor jogadora do salão e todas as noites vence Neneca com uma vergonhosa facilidade. Os amigos dizem que Neneca anda meio abatido e pensa seriamente em suicídio.

XXX

Margarida, prostituta, apaixonou-se por um de seus clientes, Rosemiro. Para seu amado freguês, Margarida fazia o que de melhor sabia em sua profissão. Rosemiro acabou por apaixonar-se. Margarida, para expressar seu amor, decidiu não mais cobrar de Rosemiro. Rosemiro, para demonstrar sua paixão, queria pagar em dobro.

Os dois ficaram muito ofendidos. Margarida diz que ele só pensa em dinheiro. Rosemiro diz que ela só pensa em sexo.

Amores Possíveis (11 a 20) 

XI

Adão amava Eva. Tanto que atendeu sem pestanejar quando ela lhe pediu que provasse o fruto proibido. Por causa disso foram expulsos do Paraíso e sofreram fomes e dores. Apesar de todos os sofrimentos, Adão perdou Eva. Só pediu que ela nunca lhe fizesse tortas de maçãs.

XII

Quando morreu o marido de Florisbela, ela disse que seu amor pelo defunto era tão grande que nunca mais tocaria em outro homem. Pensou até em suicidar-se para ser enterrada junto com o defunto. Porém, ainda durante os acertos do enterro, ela conheceu Felisberto, o dono da casa funerária. Foi uma paixão fulminante. Hoje eles são muito felizes e formam um casal cheio de vida.

XIII

Humberto César Camacho é o maior violinista do planeta. Ninguém toca tão bem quanto ele, com tanta paixão, com tanto sentimento. Por isso todo mundo achou estranho quando ele casou com Izildinha, uma jovem muito bela e apaixonada, mas completamente surda.

A explicação de Camacho foi convincente. Ele disse que queria uma mulher que o amasse como homem, não como músico.

XIV

O senhor Brumário começou a beber logo depois do casamento com dona Gertrudes. Ela ameaçou deixá-lo se ele não parasse com o álcool. O senhor Brumário parou por duas semanas, mas logo voltou a ser assíduo frequentador dos bares da cidade. Dona Gertrudes ameaçou uma segunda vez com a separação, mas desta vez o senhor Brumário deu um bom gole e disse que não trocava sua bebida por nada. Dona Gertrudes decidiu tomar uma atitude: também começou a beber.

Agora, todos os dias, depois do trabalho, eles podem ser encontrados no Bar do Alemão; e não há um casal mais alegre em Ribeira da Serra. 

XV

Mara Beth e Roberval trabalhavam na mesma empresa. Ela traía Roberval com o chefe de Recursos Humanos, com o Gerente de Vendas e até com o Presidente da empresa. Por isso ninguém estranhou quando Roberval foi promovido a diretor. Surpresa mesmo foi quando encontraram Mara Beth dentro da lixeira do prédio, enforcada com uma gravata italiana e a boca cheia de hollerits.

XVI

Amâncio era pastor. Não de igrejas, mas de campos. Entre todas as suas alimárias, Amâncio tinha predileção por Rosita, uma cabra com orelhas grandes e ancas largas. Por sua causa, Amâncio desprezou as melhores moças da cidade. Os dois viviam em grande paz e infinito amor, até que um dia Amâncio surpreendeu Rosita com Brasão, um dos bodes mais velhos e feios daquele pasto.

No domingo seguinte, Amâncio serviu uma buchada sensacional para seus amigos.

E durante todo o almoço, apesar do calor, Amâncio vestiu um casaco de lã.

XVII

Alice, 81, e Romualdo, 83, são vizinhos desde crianças. Ela sempre foi apaixonada por Romualdo. Ele, indiferente aos sentimentos de Alice, casou-se com uma tal de Maria Clara. Durante sessenta anos Alice esperou por seu vizinho e jamais teve outro homem.

Ano passado, quando ele ficou viúvo, começaram a se encontrar. Três semanas depois Alice desmanchou o namoro. Romualdo não era bem o que ela esperava. 

XVIII

Josué é garçom, Clarice era garçonete. Josué namorava Clarice. Mas, infelizmente, ela apaixonou-se por Paulo Afonso, um dos melhores e mais ricos clientes do restaurante.

Afonso e Clarice planejaram se casar e fazer uma festa enorme, coisa para trezentos convidados. Por ironia, um dos garçons contratados pelo buffet foi justamente Josué, que ficou muito surpreso quando viu quem eram os noivos.

Josué queria vingança. Pensou em dar tiros nos convidados, cogitou esfaquear Afonso, imaginou-se estrangulando o padre.

Fez pior que isso. Quando chegou perto de Clarice, deixou cair o estrogonofe em seu vestido branco.

XIX

Mário e Maria Sanchez são os únicos trapezistas nacionais que conseguem dar o salto triplo mortal sem rede. Esse é um número que exige total confiança entre os parceiros. Mário confiava em Maria. Pelo menos até descobrir que Maria o traía com o Piteco, o Alencarço. Maria, que não sabia que tinha sido descoberta, ainda confia em Mário. Mas não devia.

XX

Marineide ia casar com Deolindo e ela mesma fez seu vestido de noiva. Porém, no dia da cerimônia, Deolindo fugiu. Marineide ficou muito triste, mas como a vida continua, começou a costurar para fora. Ficou conhecida como a melhor costureira de vestidos de noiva na região e ganhou bastante dinheiro. Deolindo, quando soube de seu sucesso, voltou e pediu Marineide em casamento. Marineide, orgulhosa mas apaixonada, encheu o peito e disse: aceito! Só exigiu que o vestido fosse feito por outra costureira.

Amores Possíveis (1 a 10) 

José gosta de crianças mais do que tudo na vida. Ele acha que ser pai é uma graça divina, uma benção sem igual. Mas José tem um problema, é estéril. Não pode ter filhos. Por isso, quando decidiu casar, José tratou de escolher Maria, a moça com pior fama na Freguesia do Ó.

Seu plano deu certo. Maria já teve doze filhos. E o que José mais gosta é que são todos muito diferentes.  

II
Dona Rosa é casada com Dr. Augusto. Dr. Augusto traía dona Rosa com uma de suas enfermeiras, Berenice. Ao que parece, dona Rosa sabia do amor do marido pela enfermeira, mas comportou-se resignadamente e jamais deu um pio. Porém, por uma dessas ironias, o grande neurologista teve um derrame e perdeu todos os movimentos. Zelosa, Dona Rosa contratou a própria Berenice como enfermeira. O resultado não foi dos melhores:

Dr. Augusto sofre profunda vergonha toda vez que sua amada Berenice dá banho no seu corpo mole e sem vontades.

Berenice chora um pouco toda manhã, pois dói-lhe muitíssimo ver seu ex-amante imóvel na cama.

Apenas dona Rosa não está infeliz, e, vez ou outra, pode-se vê-la assobiando um bolero.

III

Vladimir talvez seja o mais triste e viúvo dos homens. 

IV

V

Depois disso, nunca mais conseguiram conversar. Alexandre queria pedir mil perdões. Roseméri queria pedir carona outra vez. 

VI

Numa segunda-feira chegou em casa mais cedo e percebeu que a mulher não estava sozinha. Olhou por uma fresta e viu que o amante era Belmiro, o bicheiro. Cogitou esfaqueá-los, mas pensou melhor e resolveu armar uma vingança mais interessante.

No dia seguinte jogou todo seu dinheiro no vinte e cinco, vaca. Tinha certeza de que Deus o faria vencer. Aí pegaria todo o dinheiro, fugiria para uma praia no Ceará e abriria um bar.

Belmiro estaria falido e Roseane abandonada.

Não foi o que aconteceu. Deu quinze, burro. Sem dinheiro, Barata foi abandonado por Roseane, que virou amante de Belmiro, que está mais rico do que nunca. 

VII

Na noite de núpcias, quando Nalva quis fazer seu número para alegrar o marido, ele esbofeteou-a três vezes. Depois limpou o sangue das mãos e explicou que aquilo não era coisa que uma esposa fizesse.

VIII

IX

X

João e Maria fizeram as pazes e viveram felizes para sempre.

Regras para bem se portar em vernissages, noite de autógrafos e estréias de filmes

É muito importante saber como se portar nos lugares públicos. Não é aconselhável lamber o prato depois de tomar a sopa, é pouco polido pedir garfo e faca para comer um sushi e arrotos só em lugares e circunstâncias específicas. As boas maneiras são necessárias à boa convivência e não devem ser desprezadas. Mas elas não existem apenas em relação à mesa. Por isso, a fim de ajudar aqueles que vão às vernissagens, aos lançamentos de livros e às estréias de filmes, coloco aqui algumas regras de boas maneiras para estes momentos.

I Do que falar

É muito importante, caro leitor, saber o que falar nestas ocasiões. A regra básica é evitar os assuntos mais interessantes, como os chutes do Marcelinho, a careca do Ronaldinho ou sexo bizarro. Para não haver perigo de errar, o melhor é falar dos filmes que estão em cartaz, de preferência os que estão no Espaço Unibanco.

II Do que vestir

Neste quesito não há o que inventar: os rapazes, blazer xadrez, as moças, roupas pretas.

III Do que beber

Nestas ocasiões há sempre poucas opções e a desculpa dos organizadores é que trata-se de um evento cultural e não gastronômico, como se o cérebro funcionasse sem comida. E, além de serem poucas, as opções não são boas. Esteve em moda há pouco tempo o vinho branco licoroso alemão, aquele da garrafa azul. É aconselhável evitá-lo. Trata-se de um veneno para o fígado e o estômago, e já foram registrados até casos de morte em ingestões acima de meia garrafa. É melhor ficar nas outras duas opções, o vinho branco (sempre bom para aqueles que têm intestinos tímidos) e o uísque (uma forma de integração com nosso irmão de Mercosul, o Paraguai).

IV Do quanto beber

Os abstêmios não têm vez em vernissages, estréias e lançamentos. Primeiro porque ter um copo na mão dá um certo ar de inteligência, depois, pois segurar um copo é sempre alguma coisa para fazermos com as mãos. Porém, é bom evitar o excesso, porque o vômito não combina com estas situações (a não ser em uma ou outra vernissage, quando podem passar despercebidos por ser confundido com algum quadro).

V Do que comer

Corre o boato de que os canapés de eventos culturais são feitos com rabos de lagartixa, olhos de mosca e pernas de barata, mas tal afirmação é infundada. Pelo menos em relação aos olhos de mosca. Por via das dúvidas, jante antes.

VI Das cantadas

Esses eventos sempre juntam pessoas com afinidades culturais, logo, sempre pode surgir a oportunidade de um flerte ou de uma, como se dizia no meu tempo, paquera. No caso de você sentir-se animado a atacar, o mais apropriado é começar uma conversa mais intelectualizada mas com humor, como por exemplo "Gosto mesmo é de cubismo", "Não diga!", "É, até comprei um cubo mágico."

VII Dos comentários sobre o autor (para terceiros)

O interessante neste momento é afetar intimidade com o astro da noite. Diga coisas como "Sabe que eu li o livro antes de todo mundo", ou "Ele estava tão duro há um tempo atrás que teve que pedir meus pincéis emprestados." ou ainda "O diretor teve idéia desse filme quando eu e ele estávamos jogando uma partida de buraco, acredita!?"

VIII Dos comentários sobre o autor (para o autor)

Elogie, é claro. Se não souber como, consulte o item "X".

IX Das horas em que se deve chegar

Vai-se a esses lugares também para ser visto. Portanto, é sempre bom chegar cedo para que todos possam vê-lo. Outra boa tática (principalmente se você for concorrente do dono da festa) é chagar quase no fim do evento. Nesse caso, cumprimente a todos (para que todos saibam que você veio) mas sempre comente "Rapaz, eu estava tão cheio de coisas para fazer que quase não vim."

X De como tecer os comentários sobre a obra para o próprio autor

Essa é a parte mais difícil. O escritor (ou cineasta, ou artista plástico) está sedento de elogios e se você foi ao evento é porque de alguma forma você gosta dele e, se você gosta dele de alguma forma, é sua obrigação fazer um elogio. Porém, há vezes em que a obra não merece grandes louvores, apesar de o dono da festa ser seu amigo e ótima pessoa. Nessa situação, a saída é exaltar alguma característica lateral da obra, dizendo coisas como "as molduras estão ótimas!" ou "o cartaz do filme é uma beleza!".

Uma proposta jurídica que muitas vantagens traria a este país de tantas leis e tão pouca justiça

        Se Jesus Cristo visitasse nossos cárceres, certamente exclamaria: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico ir para a cadeia no Brasil. Teria razão. Essa é uma instituição nacional tão forte como o cafezinho, as mulatas e o futebol-arte. Passa o tempo, passam as modas e ela permanece.
        Há várias razões práticas para isso: se o crime é leve, os endinheirados pagam fianças ou subornam delegados e policiais. Se o caso é grave, conseguem habeas-corpus, sursis, prisões domiciliares, prescrições e o diabo. Só em situações extremas é que eles são submetidos a um julgamento, ou, para ser mais exato, um ritual jurídico sem maiores consequências. Cadeia jamais. Definitivamente ela é um lugar que só hospeda pobres.
        Esse fato traz consequências negativas para a vida comunitária. Sabemos que os ricos são o destino da parte polpuda do comércio de drogas, que eles sonegam impostos, invadem terras devolutas, financiam os políticos mais podres da Câmara e do Senado, e até que queimam índios quando estão entediados, mas não temos como puni-los. Eles são como que cidadãos de primeira classe, ou, bancáriamente falando, clientes especiais do nosso mundo legal. Aí está o problema, pois sem sanções os crimes continuam e o círculo vicioso da impunidade se renova ad aeternum.

Os ricos devem pagar por seus erros. Literalmente.
        Já que o rigor da lei para os ricos é apenas uma tese e já que as penas oscilam conforme os extratos bancários, creio que temos aí a chave para uma renovação do sistema penal brasileiro. Ao invés de julgamentos fictícios, proponho que se acrescente um parágrafo à Constituição dizendo que os ricos pagarão por seus crimes contra à sociedade. Mas não no sentido figurado, no literal. Pagamento em dinheiro.
        Sei que alguns dirão que isso é dar foros de legalidade à injustiça e que a dura lex deve alcançar a todos. Dever ela deve há muito tempo, mas é justamente aí que está o débito moral: antes de bater o martelo, ela dá uma olhadela no dever e no haver do réu para ver se o condena ou não. Se o ativo é maior, liberdade, reputação e honra. Se o passivo, xadrez.
        Pensem bem, patrício e Patrícia: se os ricos já compram sua liberdade subornando juízes, promotores e o diabo, porque não institucionalizar essa prática e fazer com que o dinheiro vá para os cofres públicos? A proposta pode parecer absurda, mas os que a estudarem de espírito desarmado não poderão negar que seja prática. 
        Quanto às taxas punitivas, creio que poderíamos fazer uma tabela básica, que poderia mudar de acordo com a hediondez do crime. A título de ilustração proponho a seguinte:

Assassinato simples......................................50 mil
Assassinato com requintes de crueldade...........75 mil

Assassinato (em nome da honra).....................25 mil
Estelionato..................................................25 mil
Desrespeito ao pudor....................................15 mil
Corrupção...................................................50% do lucro

        Talvez essa idéia pareça cínica a alguns, mas o cinismo sempre leva uma vantagem em relação à hipocrisia: ele revela, ela oculta. Quem sabe se assim não conseguimos espantar essa sensação desagradável que já incomodava o advogado Gregório de Matos há mais de trezentos anos:

"E que justiça a resguarda? Bastarda.
É grátis distribuída? Vendida.

Que tem, que a todos ajusta? Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa,
o que el-rei nos dá de graça.
Que anda a justiça na praça
bastarda, vendida, injusta."

Teorias estúpidas – VIII

Das cunhadas e das sogras
(ou a venerável teoria dos espelhos de Ly-Yu-Tan)

        Por que boa parte dos maridos, seja qual for a sua cultura ou religião, têm aversão às suas sogras e um certo interesse pelas irmãs mais novas de sua mulher?
        Essa questão vem à muito intrigando a humanidade e estudiosos de todos os ramos do conhecimento já  deram sua contribuição para tentar explicar esse fato. Psicólogos como Martin Fences, antropólogos do peso de Roman Courier e sociólogos do nível de James Arial já tentaram explicar este fenômeno, mas nenhum deles obteve sucesso.
        Porém, se o mundo acadêmico obteve apenas divagações sobre o assunto, é interessante lembrar de uma lenda chinesa contida no livro "Os diálogos secretos de Ly-Yu-Tan". Talvez o velho sábio do século II a.C. tenha obtido a resposta para o grande enigma. Na esperança de trazer luz sobre esse assunto, transcrevo aqui a lenda que traduzi de um empoeirado exemplar desse raríssimo opúsculo.

        Um homem viajou de Ur, no distante Oriente, até o reino do Catai, no Oriente ainda mais distante. Esse homem procurava Ly-Yu-Tan, aquele que sabia as respostas de todos os problemas. Depois de caminhar a pé por vales e planícies, e de atravessar rios e mares, o homem chegou à morada de Ly-Yu-Tan, que ficava no ponto mais alto de uma montanha coberta de neve. Ao entrar na caverna habitada pelo grande filósofo, o homem expôs o seu caso:
        "Venerado mestre Ly-Yu-Tan, sábio dos sábios, eu venho caminhando desde Ur..."
        "Ur!?!"
        "Sim, mestre, Ur, na Caldéia."
        "Eu sei onde fica Ur. Você viajou um bocado, sente-se e descanse os pés."
        "Mestre, eu tenho um problema..."
        "Eu também, você não imagina como essa caverna é fria. Eu daria tudo por uma casa com calefação."
        "Eu entendo, mestre, mas o meu problema..."
        "Ah, sim, claro, o seu problema. É sempre assim, ninguém quer me escutar. Todo mundo quer que eu resolva problemas mas ninguém quer me escutar."
        "Mestre, por favor..."
        "Tudo bem, pode ir falando."
        "Como eu dizia, eu tenho um problema..."
        "Então alegre-se. É um sinal de que você está  vivo."
        "Obrigado pelo ensinamento, mestre."
        "Você ainda não viu nada."
        "Mestre, minha mulher está muito doente, então tive que chamar minha sogra e minha jovem cunhada para morarem comigo a fim de que cuidassem de minha esposa."
        "Você não tem um problema."
        "Como assim?"
        "Tem três."
        "É isso mestre! São exatamente três os meus problemas, pois minha mulher está doente, tenho ódio por minha sogra e amor por minha cunhada. Mestre, diga-me, por que as coisas são assim?"
        "Imagine dois espelhos, carrapato. No primeiro vê-se a pessoa como será, com suas rugas, defeitos e tiques. No segundo, vê-se como foi, com as carnes duras, a pele ainda esticada e macia. Outra coisa não são a sogra e a irmã mais nova de uma mulher. A primeira, seu futuro, e por isso a odiamos. A segunda, seu doce passado, e por isso a amamos. Esse é o motivo que faz os maridos odiarem as sogras e apaixonarem-se pelas jovens cunhadas. Uma revela o resultado do inevitável passar do tempo, outra relembra o inalcansável período de amor e paixão.
        "É isso mestre!"
        "E uma casa com muitos espelhos pode ficar cheia de reflexos e confundir os passos de um homem."
        "Começo a entender, mestre."
        "Então pode ir em paz."
        "Mas eu ainda tenho tantas perguntas para fazer, mestre."
        "Meus diálogos são sempre curtos, carrapato."
        "Por que a sabedoria deve ser servida em pequenas doses?"
        "Não. Porque tenho incontinência urinária."
        "Por favor, só mais um conselho, mestre."
        "Está bem, carrapato: para voltar, alugue um cavalo. Se for a pé, só vai chegar em Ur na primavera

Teorias estúpidas – VII

A Pátria é a seleção de sapatos

        Nelson Rodrigues disse que "a seleção é a pátria de chuteiras". Pensando na escalação da última Copa, verifiquei que a relação entre a seleção e a sociedade brasileira poderia ser ainda mais profunda. Talvez o escrete nacional não seja apenas a representação esportiva do país, não seja apenas a pátria de chuteiras. Mais que isso, a seleção é também a representação dos principais segmentos da sociedade brasileira e das relações entre eles. Vejamos:

A zaga
      O miolo de zaga, por exemplo, corresponde claramente às forças de defesa: exército e polícia. Márcio Santos e Aldair tinham como função proteger a área, o território, impedindo a entrada dos inimigos a qualquer custo. Por conta dessa função de defesa da soberania, aceita-se como natural que os zagueiros sejam violentos. A brutalidade é tida como algo inerente à posição e, por isso, não poucas vezes é perdoada pelo público. Em situações extremas há até torcedores que clamam pelo exercício dessa violência, e não é raro que se escutem coisas como "esse ponta só se pára com botinada", ou "esse Maradona só matando a tiro", frases que revelam a vocação policialesca e militar da zaga.

Volantes
      Já que estamos falando em defesa, creio que a caracterização de Mauro Silva e Dunga também é relativamente óbvia. O que mais são eles além de representantes do grande empresariado? Eles ocupam o centro do campo e são, segundo as características técnicas da seleção, os jogadores pelos quais as bolas têm sempre que passar. Infelizmente, no nosso caso, este centro de decisão possui muito pouca ou nenhuma criatividade. Assim como o empresariado, nossos volantes preferem adotar os conservadores passes laterais, sem nunca arriscar-se a uma política de ataque mais incisiva. E, caso falhem, sempre podem contar com o apoio da zaga.

Armadores
   
     Dentro desta teoria de que cada jogador corresponde a um segmento da sociedade, coube a Raí e Zinho representarem com brilhantismo uma outra secular instituição brasileira: a burocracia, sendo que cada um desses jogadores corresponde a uma faceta dessa instituição nacional. Raí representa mais a lentidão, a morosidade. No São Paulo e no Paris St-Germain ele sempre deu toques rápidos e passes de primeira. Porém, quando representou o país, ele necessitava matar a bola, dar dois toques para a direita, dois para a esquerda, reconhecer firma, carimbar, protocolar e só então, caso ainda não lhe tivessem tirado a bola, o passe ia para um companheiro. Já ao palmeirense Zinho coube representar a falta de criatividade e a monotonia da burocracia. Se no Palmeiras ele conseguia infiltrações agudas e passes inesperados, na seleção, onde tinha o nobre papel de espelhar a sociedade, Zinho limitou-se a passes inócuos, toques sem imaginação, dribles laterais. Na Copa, o nosso par de meias teve a mesma competência e velocidade de um Detran ou de um Dnocs.

Laterais
      Os laterais podem ser tomados como legítimos representantes dos profissionais liberais. Jorginho e Leonardo demonstraram capacidade de adaptação a diferentes marcações e habilidade na infiltração em setores já saturados de jogadores. Infelizmente, eles necessitavam tabelar com o meio de campo, mas não conseguiram bons resultados nem com nossos volantes-empresários e muito menos com nossos meias-burocratas.

Bebeto
      Bebeto, por sua vez, deve ser visto como a encarnação do pequeno empresário. Além não possuir um porte exatamente imponente, ele se apóia numa Constituição um tanto frágil, podendo cair e chorar com qualquer tranco mais forte. Tem certa criatividade e possui mobilidade para sair-se de algumas situações difíceis, mas é muito atrapalhado pela falta de bons passes vindos do meio campo.

Técnico
      Parreira, como comandante-mor da seleção, era obviamente uma encarnação da Presidência da República. E ele cumpriu este papel com extrema competência, mostrando-se adepto ao jogo retrancado, com jogadas pelo meio. Além disso, os dois têm em comum o fato de não conseguir articular os diversos setores do time.

Romário
      Sobra Romário, que representou o único setor do Brasil que funcione a contento. Ele permanecia oculto durante boa parte do jogo, mas quando era acionado sempre deixava sua marca. Sabe driblar como poucos e não se pode afirmar jamais que seja um escravo da burocracia. Muito pelo contrário. Mas talvez a principal característica de Romário seja seu poder de infiltração e decisão, que funciona apesar da incompetência dos outros setores. Sendo assim, só se pode comparar nosso atacante a um segmento da sociedade que seja igualmente objetivo e eficiente, um segmento que seja o exemplo máximo de organização tática e poder de penetração: as empreiteiras.

Teorias estúpidas – VI

Das amizades

I

        Se até os políticos e as bestas feras cultivam entre si algumas formas de amizade, o homem, que é um dos animais mais necessitados de diálogo, compreensão moral e amparo psicológico, não poderia deixar de ser também um cultivador desse tipo de relacionamento.
        Tanto é assim que há várias formas de amizade e um dos filósofos que as estudaram, o grande Ernulphus, levantou a tese segundo a qual elas se dividem em três categorias:

*As amizades zoológicas
*As amizades antropológicas
*As amizades teosóficas

        A principal característica da amizade zoológica é a inexistêcia da conversação inteligente. Esta forma de amizade não pressupõe divisão de problemas, mas sim, no dizer de Ernulphus, "a inteira submissão de um interlocutor ao outro". É o que acontece nos relacionamentos com cães, gatos, hamsters e, ultimamente, iguanas.
        Já a amizade ordinária vem quando uma parcela dos homens supera seu estágio intelectual mais primitivo e sente necessidade de dividir suas experiências com um semelhante. Essa amizade costuma ser a mais freqüente em nossas vidas, mas também é frustrante em diversos aspectos. A principal decepção vem quando o homem se dá conta de que o seu parceiro de conversa é tão egoísta, ansioso, impaciente e irritável quanto ele. Nessa forma de amizade ainda não há um verdadeiro intercâmbio e o ouvir é apenas a espera burocrática pelo momento de falar. Os homens são assim mesmo: a lepra do vizinho é sempre menos grave do que a nossa unha encravada.
        Não é o que ocorre com as amizades teofísicas.

II

        Esta é a mais profunda forma de amizade e, segundo Ernulphus, é a que mantemos com os objetos inanimados. Para o sábio romano, o homem somente deixa de ter uma visão utilitária da amizade quando se relaciona com algo que seja diferente dele em natureza, forma e substância. Por isso o objeto inanimado é, segundo ele, o ouvinte perfeito, o confessor sereno, o conselheiro desapaixonado.
        Mas dentre todos os objetos, qual será o mais perfeito amigo?
        Há várias opções. Tio Patinhas venerava sua moeda número um, Shirley Valentine desabafava com fogões, há homens que conversam apenas com seu cachimbo e já vi mulheres que só conseguiam entendimento existencial com cartões de crédito. Porém, após profunda análise do homem e de suas maneiras, cheguei à conclusão sobre qual é o companheiro ideal.

III

        A garrafa! Este e nenhum outro objeto é o mais perfeito amigo.
        Alguns dirão que uma garrafa não é companhia e muito menos uma amizade. Mas estes não entendem que as garrafas não conversam por palavras, mas sim através de sua própria seiva e, sendo assim, dão-se ao diálogo mais do que qualquer um.
        A simples observação das reações de um homem depois de alguns minutos de conversa com uma garrafa prova minha tese. O homem vai relaxando, seus pés tornam-se mais leves e ele passa a caminhar como se estivesse andando sobre nuvens. Sua fala torna-se mais lenta e o homem se despe das convenções morais, ficando propenso a dizer o que sente e pensa. E, por fim, o diálogo mostra-se tão proveitoso que o homem acaba relaxando e dormindo, seja numa cadeira, debruçado numa mesa, ou estendido sobre um carpete.

IV

        Porém, sempre haverá quem dê outras destinações às garrafas. Tias usam-nas como vasos e adolescentes frenéticas dançam sensualmente sobre elas, mas isso foge ao propósito científico desse artigo. Aqui quero tão somente provar que elas, e não os cães ou os outros homens, são os nossos melhores amigos.
        Um brinde às garrafas!

Teorias estúpidas – V

Dos mártires, dos heróis e dos covardes

I
        Há muito mais covardes do que corajosos no mundo. Essa é uma afirmação pouco agradável, mas se você já foi assaltado ou se já jogou contra o Cléber, sabe que essa é a dura realidade. Talvez essa opção pela covardia se explique pelo fato de os covardes viverem muito mais que os valentes. Os corajosos têm uma vida agitada e peripeciosa, mas chegam bem mais cedo à grande Cohab celestial. Já os covardes, apesar de terem vida pachorrenta, facilmente passam dos sessenta aniversários.
        São Pedro, aliás, deve estar cansado de recepcionar corajosos, valentes bravos e destemidos. Creio até que já deve ter elaborado uma forma de divisão desse grupo de intrépidos; se não o fez ainda e se é leitor do Jornal da Tarde, ajudo-o com uma humilde classificação: para mim, o mundo dos bravos se divide entre duas categorias: a dos mártires e a dos heróis.
        Tenho-me persuadido de que os mártires são pessoas de baixo intelecto e que, normalmente não conseguem medir o perigo dos perigos em que se metem. Só isso explica um soldado arremeter contra um inimigo melhor armado ou uma freira avançar apenas com seu crucifixo prateado contra selvagens canibais.
        Já os heróis são pessoas que sabem tirar proveito das situações confusas. Arriscam-se, mas só o tempo de serem vistos ou fotografados; depois vão se esconder e esperam a colheita dos dividendos políticos ou econômicos, como Colin Powell, vencendo a Guerra do Golfo de um gabinete refrigerado, ou como Bóris Yeltsin andando sobre tanques diante das câmeras da CNN.
        Resumindo: os heróis são escolheram lutar pelo lado vencedor; os mártires, os que lutaram pelo lado perdedor.

II
        Os primeiros geralmente são festejados, elegem-se para cargos públicos e escrevem livros. Depois de mortos, ganham estátuas, menções nos livros escolares e viram nomes de rua. Já para os mártires, a regra é serem enterrados sob uma cruz de madeira e só ganharao estátuas se sua turma um dia subir ao poder.
        Geralmente falta aos mártires um pouco de bom senso, serenidade e inteligência. Um exemplo é o rei português dom Sebastião. Se tivesse feito as contas direito, não teria entrado no meio do exército mouro na batalha de Alcácer-Quibir. Entrou e virou esfiha. Tiradentes é outro. Enquanto os inconfidentes conspiravam na surdina, ele se excedia na propaganda revolucionária, falando aos quatro ventos que o mal do Brasil era pagar impostos a Portugal. Virou picadinho.
        Os mártires têm sempre um lado teatral que ama a grandiloqüência e as frases retumbantes, talvez apostando num lugar de honra no dia do juízo final. Gostam de ser esmagados ou despedaçados, e quanto mais cruel a sua morte, mais amados são pelos seus admiradores. Muita gente - e até gente rica! - se meteu em cruzadas e guerras por causa dessa guerra póstuma.

III
        Hoje, em tempos mais prosaicos, o martírio não goza do mesmo reconhecimento público. Nem o martírio, nem o heroísmo. Uma boa demonstração da decadência desses sentimentos pode ser observada através dos atos dos presidentes quando se sentiam ameaçados: na década de 50, Getúlio suicidou-se; na de 60, Jânio renunciou; e na de 90, Fernando Henrique abriu os cofres públicos. Estamos ficando cada vez mais pragmáticos. Ou covardes.
        Talvez a vida esteja valendo um pouco mais ou talvez as pessoas tenham adquirido a consciência de que, sacrifícios à parte, também há uma certa glória em freqüentar restaurantes, ir ao teatro ou fazer compras em Nova York.
        Vivemos uma fase de elogio à covardia (ou ao egoísmo, ou à boa vida, como quiser o leitor) e o fato é que hoje seria muito difícil encontrar alguém que dissesse: "Se cem vidas eu tivesse, cem vidas eu daria." Seria mais fácil ouvir algo como "Se cem vidas eu tivesse, alugaria noventa e nove e nunca mais ia trabalhar".

Teorias estúpidas – IV

Dos sábios e dos sabidos

        Tenho para mim que, tirando a grande maioria dos parvos, estultos, idiotas, simplórios, crassos, patetas, imbecis, tolos, ignorantes, palermas, insanos e fracos de entendimento que povoam a Terra, a pequena minoria restante divide-se em dois blocos: os sábios e os sabidos.
        Os sábios são homens dotados de grande inteligência e rara percepção. Já os sabidos foram prendados pela natureza com os dons da esperteza e da malícia. Podendo-se escolher, não se deve ter dúvidas sobre qual grupo pertencer: o dos sabidos é muito mais lucrativo.
        É fácil comprovar a correção dessa afirmativa. Tomaremos como exemplo qualquer atividade humana, e, para não dizer que elejo um exemplo favorável à minha tese, escolhamos um lugar que por excelência é a morada dos sábios: a universidade.
        Suponhamos que dois professores disputem a reitoria. Um é grande cientista ou reconhecido filósofo; o outro é famoso por promover jantares, dar vinhos importados de presente e convidar os colegas para passar o fim-de-semana em sua casa em Maresias. O primeiro lembra de todos os presidentes; o segundo não esquece um aniversário. O primeiro às vezes se esquece de dizer bom-dia; o segundo possui um extenso vocabulário para elogios.
        Qual destes, caro leitor, tu achas que será o novo reitor? Até mesmo alguém com a inteligência de Edmundo saberia a resposta.
        Essa supremacia dos sabidos sobre os sábios também pode ser vista em outras atividades. Vejamos alguns exemplos:
*o sábio escreve o livro, o sabido imprime e vende;
*o sábio cria um novo remédio, o sabido o põe em vidros e cobra por ele o preço de uma poção miraculosa.
*o sábio esmera-se por uma boa matéria, o sabido possui o jornal;
*o sábio medita sobre a Bíblia, o sabido torna-se pastor;
*o sábio elabora um programa político, o sabido elege-se deputado;
*o sábio teoriza revoluções, o sabido vende armas;
*o sábio fala em abrir as portas da percepção, o sabido é traficante de drogas.

        Acho que, depois de tão eloqüentes exemplos, posso cometer a ousadia de resumir minha idéia num único aforismo: os sábios têm o domínio da ciência; os sabidos, a ciência do domínio.
        Por isso, meu amigo, não perca teu tempo estudando. Ao invés disso contrate um ou dois sábios para trabalharem para ti. Para eles bastam uma ou duas moedas no fim do mês, algum elogio e, de vez em quando, ver seu nome impresso nalguma publicação de mediana importância.
        Esses sábios são fáceis de pagar. É comum ouvir alguns deles dizendo que, perto do reconhecimento público, da satisfação pessoal e do elogio de um renomado colega, o dinheiro é uma coisa de menor importância. Quanto aos sabidos, é mais difícil um deles falar uma coisa destas do que o Inocêncio de Oliveira devolver o dinheiro dos poços artesianos do Dnocs.
        Enfim, leitor, o que te quero aconselhar, se ainda não entendeste, é que, ao invés de conheceres os segredos da matemática pura, deves aprender os labirintos da contabilidade. Ao invés de escrever um livro, abre uma papelaria.

Teorias estúpidas – III

O nome da gonorréia
I
        Shakespeare disse que uma rosa teria o mesmo cheiro se tivesse outro nome. Shakespeare estava errado. Pode parecer petulância de minha parte afirmar que o bardo dos bardos cometeu um erro, mas a verdade é que mesmo os grandes cometem erros. Napoleão invadiu a Rússia no inverno, Zico perdeu pênalti em Copa do mundo e Fernando Henrique virou salva-vidas de banqueiros. Ou seja, mesmo aqueles que são considerados bons no que fazem, podem errar. Com Shakespeare não foi diferente.
        A rosa, por exemplo, se tivesse o nome de gonorréia, não faria tanto sucesso. Quando a cheirássemos, talvez até gostássemos do seu perfume, mas dificilmente faríamos poemas sobre ela e seria de gosto duvidoso uma dedicatória do tipo "uma gonorréia para outra gonorréia."

II
        O nome faz diferença. Átila, o rei dos hunos, não causaria tanto terror se fosse chamado de Bibiu, Quequé ou Duduquinha; Luiza Brunet ou Cláudia Liz não provocariam os mesmos suspiros se seus nomes fossem Urraca ou Emengarda; e Jean-Claude van Damme não seria tão forte se fosse chamado de Arlei ou Delci.
        Os ricos conhecem e valorizam o poder dos nomes, tanto que os seus são quilométricos, como Luís Eulálio Bueno Vidigal ou Otávio Alfredo Peterson de Castela. Já os pobres têm nomes mínimos e apelidos com sílabas abertas como Zé, Mané, Filó e Totó. Os artistas também sabem do poder dos nomes. Um bom nome dá uma aura especial ao seu dono, e por isso muitos desprivilegiados de nascimento acabam trocando seu próprio nome. Lima Duarte na verdade se chama Ariclenes e no RG do Sting consta o nome de Gordon. Com os políticos não é diferente e até um ex-presidente já chegou a trocar seu nome. No caso, de Ribamar para Sarney, o que é uma troca de gosto duvidoso.

III
        Podemos ainda tirar vários exemplos do futebol, onde o poder dos nomes até define a posição do jogador. Por isso, se você quiser ser um atacante, você precisa ter velocidade, agilidade e um nome bem curto, como Pelé, Pepe, Peu, Fio, Didi, Dadá, Vavá, Jair, Edu, Zico, ou Dé.
        Já para ser um jogador de defesa você precisa de um ter pé tamanho 44, um metro e noventa de altura e, para impôr respeito, um nome bem grande. De preferência, com sobrenome, como, por exemplo André Cruz, Ricardo Rocha, Nílton Santos, Domingos da Guia, Luís Pereira, Marinho Peres e Mauro Galvão. Quem confiaria num central chamado Dezinho, Pipo ou Lé?
        Mas, dentro das quatro linhas, quem precisa mesmo de um nome respeitável é o juiz. Data venia, Margarida foi um bom árbitro, mas seu nome não o ajudava a impôr muito respeito. Ele teria maior sucesso se fizesse como os outros juízes, que usam até três nomes para mostrar sua autoridade. Exemplos: José de Assis Aragão, Dulcídio Vanderley Boschila, Romualdo Arpi Filho, Arnaldo César Coelho e Márcio Rezende de Freitas (o qual, nós, santistas, jamais esqueceremos).
        Enfim, entre o nome e a coisa há mais vínculos do que sonha a nossa vã lingüística.

Minhas férias

        Certamente o leitor já reparou que as ruas estão um pouco menos congestionadas e as pessoas com um tanto mais de humor. Alguns atribuem este ânimo ao excesso de raios ultravioleta, muito comum no verão; outros à conjunção astral pela qual passa o país, com Júpiter no meio do céu. Eu, por mim, prefiro não culpar as circunstâncias astronômicas ou astrológicas pelo estado das coisas. Nem mesmo o Fernando Henrique. Creio firmemente que o motivo para o bom humor nas ruas é algo bem mais prosaico e terrestre: as crianças estão de férias.
        Até mesmo o Rei, do alto de seu posto e magnitude, percebeu que o povo é tocado por singulares sentimentos nas férias, e não foi à toa que escreveu: "Quando as crianças saírem de férias, talvez então a gente possa amar um pouco mais." Com os pequenos fora da escola, o cotidiano do paulistano classe média muda totalmente. Em geral as mães vão com seus filhos para a praia, o que diminui o tráfego (pois elas não estão fazendo filas duplas para esperar seus filhotes).
        Já que estamos em época de férias, achei por bem escrever alguma coisa sobre o assunto. Porém, como o espírito desta época é justamente não fazer nada de útil, decidi passar esta tarefa a uma família amiga minha, formada por Sílvio, o pai trabalhador; Roseli, a zelosa mãe; e Lucas, o pequeno monstro. A mãe e o filho foram para Caraguatatuba, o pai, por obrigação (ou esperteza) ficou no escritório.
        Abaixo, as três cartas que recebi de meus amigos:

A vida vale a pena

        As férias são para mim um mar de tranquilidade. Demoro muito menos tempo para chegar ao trabalho e depois do serviço saio com os amigos para um chopinho. No apartamento está tudo muito calmo. Roseli deixou-me o congelador entupido com uma deliciosa comida congelada. Tenho até pena de dar os restos para o cachorro.
        Nos fins de semana vejo toda a programação esportiva. Voltei até a fazer esporte. Joguei peteca com o Ariosto no Ibirapuera. Tive uma distensão mas já estou bem. Meu único problema tem sido com roupa suja. O cesto já está quase cheio, mas ainda tenho camisas para duas semanas. Nestas horas tenho saudade de Roseli e penso nas qualidades do casamento.
        Às vezes, quando a programação da TV está fraca, tenho saudade do Lucas. Penso em como seria divertido estar com ele na praia, sentado numa boa cadeira, com as ondas molhando meus pés, tomando uma caipirinha gelada e vendo ao longe um joguinho de futebol. Uma verdadeira relação pai e filho. Talvez eu desça para praia neste fim de semana. Aproveito e levo umas camisas para a Roseli lavar.
        Enfim, meu querido, devo dizer que as férias recompõem o espírto e recuperam o corpo, e só lamento que sejam tão poucas.

                                                Sílvio Rodrigues Batista Paraíso-São Paulo

A praia é legal

        Tio, aqui na praia é tudo o maior legal. Dá até prá fazer castelo na areia, mas eu não consigo fazer eles muito grandes porque quando eles tão quase do tamanho que eu queria vem uma onda e derruba tudo e aí eu choro muito. Se o papai vier vai ser superlegal, porque aí eu vou fazer o castelo em cima da barriga dele e a água não vai chegar.
        O apartamento que a gente tá não é muito grande mas dá para jogar bola na sala quando a mamãe vai fazer compras. Tinha um treco bem legal de vidro no meio da sala, mas acho que ele não era muito forte não.
        Arranjei uns amigos muito legais, o Hélcio, que é muito bom em fazer fogueirinha, e o Cláudio Oito, que se chama Oito porque um dia quebrou oito copos da mãe dele de uma vez só. Eles são muito legais. A mamãe chama eles de Esquadrão Perigo. A mamãe é engraçada.
                                       Lucas,
                                                Debaixo da cama da mamãe-Caraguatatuba

Trabalho e suor

        Sabe os doze trabalhos de Hércules? Fichinha. Queria ver ele aqui com o Lucas. A tia Esther foi um anjo emprestando a kitchinette, mas ela podia ter avisado que a lotação máxima era uma pessoa. De preferência, anã.
        Minha rotina balneária é a seguinte: cozinhar, limpar e cuidar do Lucas. Sinto-me em casa. A diferença é que aqui há mais areia e não tem aspirador de pó. Para piorar, o Lucas arranjou dois amiguinhos que são um terror. Até fogueira na lixeira do banheiro eles já fizeram.
        Não sei como vou contar para a tia Esther que o vaso de cristal, que ela tinha desde 1919, quebrou. Acho que foi o vento, porque o Lucas jura que não foi ele e ele não é de mentir.
        Esta noite sonhei com o Sílvio. Deve estar morrendo de saudade da gente. Tomara que ele ache a comida do cachorro que eu deixei no congelador.
                                        Roseli,
                                                Sétimo círculo do Inferno – Caraguatatuba

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