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Diálogos na fila do Juízo Final Os
ateus têm apenas uma grande certeza na vida: todos morreremos. Vem lá um dia,
o coração pára, fechamos os olhos, escorre-nos uma baba e acaba-se tudo numa
grande e eterna treva. Já os cristãos, talvez mais criativos, têm uma segunda
grande certeza: todos passaremos pelo grande julgamento, o dito Juízo Final,
quando Cristo dirá quem subirá aos céus e quem baixará às chamas dos
infernos. Segundo
a Bíblia, o Senhor julgará todos os homens e lhes dará seu último destino.
Mas parece-me que faltou ao Livro dos Livros especificar os procedimentos legais
e burocráticos do Juízo Final. Como será feita a grande fila dos homens que
serão julgados pelo Senhor? Por data de nascimento ou de falecimento? E outra,
teremos algum rábula para ressaltar nossos atos bons e relativizar nossas
maldades? Haverá um diabrete para fazer a função de promotor? E, se formos
condenados, teremos direito a um caldeirão menos fervente se formos universitários?
Os
ressuscitados devem ser algumas centenas de bilhões de pessoas, o que fará a
fila dar várias voltas pelo globo e, como haverá uma mistura de gente de todas
as épocas, poderemos ter encontros absurdos: Gandhi e Hitler, Platão e
Nietzsche, Jece Valadão e Roberta Close, São Francisco e Átila, Madre Teresa
e Júnior Baiano etc... "O
senhor quer me vender a sua senha?" "Perdão?"
"Eu
perguntei se o senhor quer me vender o seu lugar." "E
ir para o final da fila? Não, obrigado. Aliás, o que você ganharia com
isso?" "Depois
eu poderia vendê-lo por um preço maior. As pessoas estão muito ansiosas por
aqui. Muita gente quer resolver isso rápido e para isso vai precisar de um
lugar mais à frente." "E
porque não vende o seu lugar." "Minha
especialidade é a intermediação. Não é muito lucrativo vender o que é
nosso. Capitalismo, o senhor entende?" "Como
poucos, meu filho. Mas não é o meu sistema econômico favorito." "E
há outro? Até a Albânia virou capitalista. " "..."
"Tome
meu lenço. Por que o senhor está chorando?" "Desculpe,
que estou um tanto nervoso. Deve ser por causa dessa coisa de inferno. Isso me dá
um pouco de medo." "O
senhor cometeu muitos pecados?" "Fui
um materialista". "Eu
também. Mas isso não é motivo para desespero." "Engravidei
minha empregada e pedi para um amigo assumir o problema. Ah..., o bom
Friedrich..." "Não
chega a ser um pecado terrível. Talvez o senhor ainda escape do grande martírio.
Já eu tenho certeza que vou para lá. Fui muito rico e Jesus disse que 'é mais
fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que um rico entrar no reino dos
céus.'" "Mas
eu tenho outro problema: falei contra a religião. Cheguei a pregar a descrença
e o ateísmo." "E
ganhou algum dinheiro com isso?" "Nada."
"Pô,
então, você merece mesmo o inferno!" "Talvez,
talvez.... Se pelo menos a fila andasse mais rápido eu não ficava nesta angústia."
"Porque
você não aproveita essa demora e faz a barba?" "Já
me acostumei. Era moda no meu tempo." "O
senhor tem que cuidar das aparências. Minha querida Ivana sempre dizia que as
roupas são um testemunho do nosso interior. Aqueles vestidos dela custavam uma
fortuna." "De
que adianta uma roupa melhor se daqui a pouco estarei ardendo em chamas?" "Pelo
menos não vai queimar vestido como um proletário." "Ah!,
os proletários do mundo... Você sabe se eles acabaram se unindo?" "Vale
torcida de futebol?" "Não,
acho que não..." "Assim
você vai encharcar o meu lenço." "Desculpe.
Sabe?, eu queria que eles não passassem mais fome." "Deus!,
isso me faz lembrar que não como há horas!" "Eu
daria minha obra autografada por um sanduíche." "Isso
me dá uma idéia. Ninguém está aproveitando esta imensa fila para fazer nada.
Podíamos fazer uns sanduíches e ganhar uns trocados." "Como
assim?" "Está
vendo aquele estoque de maná. Um anjo me falou que está jogado ali há anos.
Podíamos fazer um acordo com ele e depois vender o maná para o pessoal da
fila. É o maior mercado da história!" "Você
é realmente um capitalista! Aquele monte de maná envelhecido se transformou em
mercadoria diante de seus olhos!" "Algum
problema nisso?" "Nessa
altura dos acontecimentos, não faz muita diferença." "Então,
topa ser meu sócio?" "Como
assim, sócio?" "Preciso
de alguém para percorrer a fila comigo. Eu vou para um lado, você para o
outro. São os últimos fregueses de todos os tempos, não podemos perder
nenhum." "Sei,
sei." "Você
entende de economia?, sabe o que é capital?" "Conheço
o Capital como ninguém." "E
então?" "Está
bem, mas você suborna o anjo." "Deixe
comigo. Aliás, preciso saber o seu nome. Nossa firma tem que ter um bom nome
para ajudar no boca a boca." "Karl,
Karl Marx. E o seu?" "Trump,
Donald Trump." "Então
seremos Karl & Trump?" "Não.
Precisamos de algo que lembre sanduíches." "Que
tal Marxdonald's?" "Você
é um gênio, Karl." "Acho que vamos longe, Donald." Dos sábios e dos sabidos Tenho
para mim que, tirando a grande maioria dos parvos, estultos, idiotas, simplórios,
crassos, patetas, imbecis, tolos, ignorantes, palermas, insanos e fracos de
entendimento que povoam a Terra, a pequena minoria restante divide-se em dois
blocos: os sábios e os sabidos.
Os
sábio são homens dotados de grande inteligência e rara percepção. Já os
sabidos foram prendados pela natureza com os dons da esperteza e da malícia.
Podendo-se escolher, não se deve ter dúvidas sobre a qual grupo pertencer: o
dos sabidos é muito mais lucrativo. É
fácil comprovar a correção dessa afirmativa. Tomaremos como exemplo qualquer
atividade humana, e, para não dizer que elejo um exemplo favorável à minha
tese, escolhamos um lugar que por excelência é a morada dos sábios: a
universidade. Suponhamos
que dois professores disputem a reitoria. Um é grande cientista ou reconhecido
filósofo; o outro é famoso por promover jantares, dar vinhos importados de
presente e convidar os colegas para passar o fim-de-semana em sua casa em
Maresias. O primeiro lembra de todos os presidentes; o segundo não esquece um
aniversário. O primeiro às vezes se esquece de dizer bom-dia; o segundo possui
um extenso vocabulário para elogios. Qual
destes, caro leitor, tu achas que será o novo reitor? Até mesmo alguém com a
inteligência de Edmundo saberia a resposta. Essa
supremacia dos sabidos sobre os sábio também pode ser vista em outras
atividades. Vejamos alguns exemplos: *o
sábio escreve o livro, o sabido imprime e vende; *o
sábio cria um novo remédio, o sabido o põe em vidros e cobra por ele o preço
de uma poção miraculosa. *o
sábio esmera-se por uma boa matéria, o sabido possui o jornal; *o
sábio medita sobre a Bíblia, o sabido torna-se pastor; *o
sábio elabora um programa político, o sabido elege-se deputado; *o
sábio teoriza revoluções, o sabido vende armas; *o
sábio fala em abrir as portas da percepção, o sabido é traficante de drogas.
Acho
que, depois de tão eloquentes exemplos, posso cometer a ousadia de resumir
minha idéia num único aforismo: os sábios têm o domínio da ciência; os
sabidos, a ciência do domínio. Por
isso, meu amigo, não perca seu tempo estudando. Ao invés disso contrate um ou
dois sábios para trabalharem para ti. Para eles bastam uma ou duas moedas no
fim do mês, algum elogio e, de vez em quando, ver seu nome impresso nalguma
publicação de mediana importância. Esses
sábios são fáceis de pagar. É comum ouvir alguns deles dizendo que, perto do
reconhecimento público, da satisfação pessoal e do elogio de um renomado
colega, o dinheiro é uma coisa de menor importância. Quanto aos sabidos, é
mais difícil um deles falar uma coisa destas do que o Inocêncio de Oliveira
devolver o dinheiro dos poços artesianos do Dnocs. Enfim, leitor, o que te quero aconselhar, se ainda não entendeste, é que, ao invés de conheceres os segredos da matemática pura, deves aprender os labirintos da contabilidade. Ao invés de escrever um livro, abre uma papelaria. Amores Possíveis (21 a 30) XXI Dr.
Fortes é um dos três melhores cirurgiões-plásticos de Arraial da Serra. Dona
Magda, esposa do Dr. Fortes, exigiu que o marido fizese algumas mudancinhas em
seu rosto. Queria um nariz mais altivo, um queixo mais delineado, olhos
amendoados, bochechas arredondadas e orelhas um tantinho menores.
Dr.
Fortes fez tudo como a mulher queria. Um mês depois pediu divórcio. Ele
afirmou que antes da plástica Magda era única (feia, mas única) e que agora
era apenas uma mulher perfeita como qualquer outra que passasse pelas suas mãos.
XXII Marilda,
casada com o Coutinho da farmácia, tinha seis filhos. Já era um bom número,
mas, por obra de Deus (ou de Coutinho), ela ficou grávida de novo. Coutinho,
quando viu a mulher de barriga, perdeu o interesse e arranjou uma amante:
Soraia. Marilda ficou tão desgostosa que apenas ficou em casa até nascer a
criança. Depois pegou suas coisas e deixou os sete filhos para trás. Coutinho
então pôs Soraia para cuidar do lar e dos filhos, o que deixou Soraia muito
contente. Mas
agora Coutinho já não acha Soraia interessante. Ele diz que ela está com cara
de dona-de-casa. Voltou a procurar Marilda e os dois andam se encontrando às
escondidas.
XXIII Casimiro
e Delmiro são caçadores. Caçadores dos bons, daqueles que nem precisam
mentir. Eles sempre se deram muito bem, mas hoje parece que a amizade terminou.
É que eles prenderam Dirce numa armadilha. Dirce é uma legítima harpia, um
daqueles seres que têm rosto de mulher e corpo de abutre.
Casimiro
diz que ela é a mais bela mulher do mundo e quer casar com ela. Delmiro acha
que Dirce é um pássaro e quer comê-la, ensopada e com batatas. XXIV Cacilda
era feia. Muito feia. A mulher mais feia do mundo (ou pelo menos de Paraisópolis,
o que dá no mesmo). Ariosto,
talvez míope pela paixão, só reparou na desarmonia das linhas de Cacilda
depois do casamento. Enquanto isso, Cleiton, seu irmão, casou-se com Dulcinéia,
a mais bela moça da cidade. Para não se sentir humilhado frente ao irmão,
sempre que os casais se encontravam Ariosto falava das qualidades de Cacilda.
Contava dos maravilhosos pratos, da casa impecável e até insinuava alguns prodígios
noturnos. A
tática deu certo. Cleiton não só reconheceu que Cacilda era mais interessante
que Dulcinéia, como fugiu com a esposa do irmão; o que talvez prove que não são
poucos os homens enxergam mais pelos ouvidos que pelos olhos.
XXV Ulisses
já deu mil trezentos e vinte e seis poesias de amor para Dulcinéia. Mas
Ulisses é quase analfabeto. O que ele faz é copiar com sua letra poemas
alheios, desde Camões até Bandeira. O que ele não sabe é que desde o
primeiro poema Dulcinéia descobriu sua fraude. E que é justamente isso que ela
acha mais poético em Ulisses.
XXVI Lucrécia
não é exatamente uma mulher fiel. Já se deitou com o padeiro, o leiteiro, o açougueiro,
o merceeiro, o quitandeiro e até com peixeiro. Por isso sua geladeira está
sempre bem abastecida. Os boatos da vizinhança já chegaram até os ouvidos de
Janjão. Mas ele não se importa. Sua única preocupação é comprar uma
geladeira maior.
XXVII Depois
do primeiro aniversário de casamento, Branca de Neve começou a sentir saudade
dos sete anões. É claro que o Príncipe Encantado era tranquilo, corajoso,
forte, destemido, belo, educado e gentil. Mas faltava alguma coisa. Os anões,
mesmo sendo um pouco baixinhos, eram mais divertidos e sempre havia a variedade,
fator que tanto auxilia a preservar os afetos.
Depois
de muito hesitar, Branca de Neve olhou-se no espelho e perguntou para si mesma
de quem ela mais gostava. Respondeu-se que amava os anões e fugiu de volta para
a floresta. Os
anões, quando a viram, fizeram sete dias de festa.
O
Príncipe ficou um tanto triste no começo, mas logo consolou-se nos braços de
uma arrumadeira. Aí sim, todos ficaram felizes para sempre.
XXVIII Quando
Pompéia descobriu que Maria de Lourdes havia dormido com Rodrigo Augusto, o
grande galã da novela das oito, primeiro quis matá-la, depois pensou apenas em
socá-la até quebrar a mão, mas acabou não fazendo nada disso.
Com
o passar do tempo, foi até crescendo-lhe um certo orgulho por ter dividido a
mulher com Rodrigo Augusto, tanto que passou a confessar o caso da mulher aos
amigos. Eles
escutavam com espanto e não entendiam porque uma mulher que havia dormido com
Rodrigo Augusto, o grande galã da novela das oito, voltaria para Pompéia.
Começou-se
a imaginar que ele deveria ter enormes qualidades secretas.
Pompéia
acabou construindo uma sólida reputação e passou a ser observado com inveja
pelos amigos e curiosidade pelas mulheres.
XXIX Neneca
jogava sinuca todas as noites. Marilu, que ficava em casa sozinha, ameaçou
pedir o desquite. A solução de Neneca foi levar a mulher para os jogos.
Não
foi uma boa idéia. Marilu rapidamente virou a melhor jogadora do salão e todas
as noites vence Neneca com uma vergonhosa facilidade. Os amigos dizem que Neneca
anda meio abatido e pensa seriamente em suicídio.
XXX Margarida,
prostituta, apaixonou-se por um de seus clientes, Rosemiro. Para seu amado freguês,
Margarida fazia o que de melhor sabia em sua profissão. Rosemiro acabou por
apaixonar-se. Margarida, para expressar seu amor, decidiu não mais cobrar de
Rosemiro. Rosemiro, para demonstrar sua paixão, queria pagar em dobro.
Os dois ficaram muito ofendidos. Margarida diz que ele só pensa em dinheiro. Rosemiro diz que ela só pensa em sexo. Amores Possíveis (11 a 20) XI Adão
amava Eva. Tanto que atendeu sem pestanejar quando ela lhe pediu que provasse o
fruto proibido. Por causa disso foram expulsos do Paraíso e sofreram fomes e
dores. Apesar de todos os sofrimentos, Adão perdou Eva. Só pediu que ela nunca
lhe fizesse tortas de maçãs. XII Quando
morreu o marido de Florisbela, ela disse que seu amor pelo defunto era tão
grande que nunca mais tocaria em outro homem. Pensou até em suicidar-se para
ser enterrada junto com o defunto. Porém, ainda durante os acertos do enterro,
ela conheceu Felisberto, o dono da casa funerária. Foi uma paixão fulminante.
Hoje eles são muito felizes e formam um casal cheio de vida.
XIII Humberto
César Camacho é o maior violinista do planeta. Ninguém toca tão bem quanto
ele, com tanta paixão, com tanto sentimento. Por isso todo mundo achou estranho
quando ele casou com Izildinha, uma jovem muito bela e apaixonada, mas
completamente surda. A
explicação de Camacho foi convincente. Ele disse que queria uma mulher que o
amasse como homem, não como músico.
XIV O
senhor Brumário começou a beber logo depois do casamento com dona Gertrudes.
Ela ameaçou deixá-lo se ele não parasse com o álcool. O senhor Brumário
parou por duas semanas, mas logo voltou a ser assíduo frequentador dos bares da
cidade. Dona Gertrudes ameaçou uma segunda vez com a separação, mas desta vez
o senhor Brumário deu um bom gole e disse que não trocava sua bebida por nada.
Dona Gertrudes decidiu tomar uma atitude: também começou a beber.
Agora,
todos os dias, depois do trabalho, eles podem ser encontrados no Bar do Alemão;
e não há um casal mais alegre em Ribeira da Serra.
XV Mara
Beth e Roberval trabalhavam na mesma empresa. Ela traía Roberval com o chefe de
Recursos Humanos, com o Gerente de Vendas e até com o Presidente da empresa.
Por isso ninguém estranhou quando Roberval foi promovido a diretor. Surpresa
mesmo foi quando encontraram Mara Beth dentro da lixeira do prédio, enforcada
com uma gravata italiana e a boca cheia de hollerits.
XVI Amâncio
era pastor. Não de igrejas, mas de campos. Entre todas as suas alimárias, Amâncio
tinha predileção por Rosita, uma cabra com orelhas grandes e ancas largas. Por
sua causa, Amâncio desprezou as melhores moças da cidade. Os dois viviam em
grande paz e infinito amor, até que um dia Amâncio surpreendeu Rosita com Brasão,
um dos bodes mais velhos e feios daquele pasto.
No
domingo seguinte, Amâncio serviu uma buchada sensacional para seus amigos.
E
durante todo o almoço, apesar do calor, Amâncio vestiu um casaco de lã.
XVII Alice,
81, e Romualdo, 83, são vizinhos desde crianças. Ela sempre foi apaixonada por
Romualdo. Ele, indiferente aos sentimentos de Alice, casou-se com uma tal de
Maria Clara. Durante sessenta anos Alice esperou por seu vizinho e jamais teve
outro homem. Ano
passado, quando ele ficou viúvo, começaram a se encontrar. Três semanas
depois Alice desmanchou o namoro. Romualdo não era bem o que ela esperava.
XVIII Josué
é garçom, Clarice era garçonete. Josué namorava Clarice. Mas, infelizmente,
ela apaixonou-se por Paulo Afonso, um dos melhores e mais ricos clientes do
restaurante. Afonso
e Clarice planejaram se casar e fazer uma festa enorme, coisa para trezentos
convidados. Por ironia, um dos garçons contratados pelo buffet foi justamente
Josué, que ficou muito surpreso quando viu quem eram os noivos.
Josué
queria vingança. Pensou em dar tiros nos convidados, cogitou esfaquear Afonso,
imaginou-se estrangulando o padre.
Fez
pior que isso. Quando chegou perto de Clarice, deixou cair o estrogonofe em seu
vestido branco. XIX Mário
e Maria Sanchez são os únicos trapezistas nacionais que conseguem dar o salto
triplo mortal sem rede. Esse é um número que exige total confiança entre os
parceiros. Mário confiava em Maria. Pelo menos até descobrir que Maria o traía
com o Piteco, o Alencarço. Maria, que não sabia que tinha sido descoberta,
ainda confia em Mário. Mas não devia. XX Marineide ia casar com Deolindo e ela mesma fez seu vestido de noiva. Porém, no dia da cerimônia, Deolindo fugiu. Marineide ficou muito triste, mas como a vida continua, começou a costurar para fora. Ficou conhecida como a melhor costureira de vestidos de noiva na região e ganhou bastante dinheiro. Deolindo, quando soube de seu sucesso, voltou e pediu Marineide em casamento. Marineide, orgulhosa mas apaixonada, encheu o peito e disse: aceito! Só exigiu que o vestido fosse feito por outra costureira. Amores Possíveis (1 a 10) José
gosta de crianças mais do que tudo na vida. Ele acha que ser pai é uma graça
divina, uma benção sem igual. Mas José tem um problema, é estéril. Não
pode ter filhos. Por isso, quando decidiu casar, José tratou de escolher Maria,
a moça com pior fama na Freguesia do Ó.
Seu
plano deu certo. Maria já teve doze filhos. E o que José mais gosta é que são
todos muito diferentes. II Dr.
Augusto sofre profunda vergonha toda vez que sua amada Berenice dá banho no seu
corpo mole e sem vontades. Berenice
chora um pouco toda manhã, pois dói-lhe muitíssimo ver seu ex-amante imóvel
na cama. Apenas
dona Rosa não está infeliz, e, vez ou outra, pode-se vê-la assobiando um
bolero. III Vladimir
talvez seja o mais triste e viúvo dos homens. IV V Depois
disso, nunca mais conseguiram conversar. Alexandre queria pedir mil perdões.
Roseméri queria pedir carona outra vez. VI Numa
segunda-feira chegou em casa mais cedo e percebeu que a mulher não estava
sozinha. Olhou por uma fresta e viu que o amante era Belmiro, o bicheiro.
Cogitou esfaqueá-los, mas pensou melhor e resolveu armar uma vingança mais
interessante. No
dia seguinte jogou todo seu dinheiro no vinte e cinco, vaca. Tinha certeza de
que Deus o faria vencer. Aí pegaria todo o dinheiro, fugiria para uma praia no
Ceará e abriria um bar. Belmiro
estaria falido e Roseane abandonada.
Não
foi o que aconteceu. Deu quinze, burro. Sem dinheiro, Barata foi abandonado por
Roseane, que virou amante de Belmiro, que está mais rico do que nunca.
VII Na
noite de núpcias, quando Nalva quis fazer seu número para alegrar o marido,
ele esbofeteou-a três vezes. Depois limpou o sangue das mãos e explicou que
aquilo não era coisa que uma esposa fizesse.
VIII IX X João e Maria fizeram as pazes e viveram felizes para sempre. Regras para bem se portar em vernissages, noite de autógrafos e estréias de filmes É
muito importante saber como se portar nos lugares públicos. Não é aconselhável
lamber o prato depois de tomar a sopa, é pouco polido pedir garfo e faca para
comer um sushi e arrotos só em lugares e circunstâncias específicas. As boas
maneiras são necessárias à boa convivência e não devem ser desprezadas. Mas
elas não existem apenas em relação à mesa. Por isso, a fim de ajudar aqueles
que vão às vernissagens, aos lançamentos de livros e às estréias de filmes,
coloco aqui algumas regras de boas maneiras para estes momentos. I
Do que falar É
muito importante, caro leitor, saber o que falar nestas ocasiões. A regra básica
é evitar os assuntos mais interessantes, como os chutes do Marcelinho, a careca
do Ronaldinho ou sexo bizarro. Para não haver perigo de errar, o melhor é
falar dos filmes que estão em cartaz, de preferência os que estão no Espaço
Unibanco. II
Do que vestir Neste
quesito não há o que inventar: os rapazes, blazer xadrez, as moças, roupas
pretas. III
Do que beber Nestas
ocasiões há sempre poucas opções e a desculpa dos organizadores é que
trata-se de um evento cultural e não gastronômico, como se o cérebro
funcionasse sem comida. E, além de serem poucas, as opções não são boas.
Esteve em moda há pouco tempo o vinho branco licoroso alemão, aquele da
garrafa azul. É aconselhável evitá-lo. Trata-se de um veneno para o fígado e
o estômago, e já foram registrados até casos de morte em ingestões acima de
meia garrafa. É melhor ficar nas outras duas opções, o vinho branco (sempre
bom para aqueles que têm intestinos tímidos) e o uísque (uma forma de integração
com nosso irmão de Mercosul, o Paraguai). IV
Do quanto beber Os
abstêmios não têm vez em vernissages, estréias e lançamentos. Primeiro
porque ter um copo na mão dá um certo ar de inteligência, depois, pois
segurar um copo é sempre alguma coisa para fazermos com as mãos. Porém, é
bom evitar o excesso, porque o vômito não combina com estas situações (a não
ser em uma ou outra vernissage, quando podem passar despercebidos por ser
confundido com algum quadro). V
Do que comer Corre
o boato de que os canapés de eventos culturais são feitos com rabos de
lagartixa, olhos de mosca e pernas de barata, mas tal afirmação é infundada.
Pelo menos em relação aos olhos de mosca. Por via das dúvidas, jante antes. VI
Das cantadas Esses
eventos sempre juntam pessoas com afinidades culturais, logo, sempre pode surgir
a oportunidade de um flerte ou de uma, como se dizia no meu tempo, paquera. No
caso de você sentir-se animado a atacar, o mais apropriado é começar uma
conversa mais intelectualizada mas com humor, como por exemplo "Gosto mesmo
é de cubismo", "Não diga!", "É, até comprei um cubo mágico." VII
Dos comentários sobre o autor (para terceiros) O
interessante neste momento é afetar intimidade com o astro da noite. Diga
coisas como "Sabe que eu li o livro antes de todo mundo", ou "Ele
estava tão duro há um tempo atrás que teve que pedir meus pincéis
emprestados." ou ainda "O diretor teve idéia desse filme quando eu e
ele estávamos jogando uma partida de buraco, acredita!?" VIII
Dos comentários sobre o autor (para o autor) Elogie,
é claro. Se não souber como, consulte o item "X". IX
Das horas em que se deve chegar Vai-se
a esses lugares também para ser visto. Portanto, é sempre bom chegar cedo para
que todos possam vê-lo. Outra boa tática (principalmente se você for
concorrente do dono da festa) é chagar quase no fim do evento. Nesse caso,
cumprimente a todos (para que todos saibam que você veio) mas sempre comente
"Rapaz, eu estava tão cheio de coisas para fazer que quase não vim." X
De como tecer os comentários sobre a obra para o próprio autor Essa é a parte mais difícil. O escritor (ou cineasta, ou artista plástico) está sedento de elogios e se você foi ao evento é porque de alguma forma você gosta dele e, se você gosta dele de alguma forma, é sua obrigação fazer um elogio. Porém, há vezes em que a obra não merece grandes louvores, apesar de o dono da festa ser seu amigo e ótima pessoa. Nessa situação, a saída é exaltar alguma característica lateral da obra, dizendo coisas como "as molduras estão ótimas!" ou "o cartaz do filme é uma beleza!". Uma proposta jurídica que muitas vantagens traria a este país de tantas leis e tão pouca justiça
Se Jesus Cristo visitasse nossos cárceres, certamente exclamaria: é mais fácil
um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico ir para a cadeia no
Brasil. Teria razão. Essa é uma instituição nacional tão forte como o
cafezinho, as mulatas e o futebol-arte. Passa o tempo, passam as modas e ela
permanece. Os
ricos devem pagar por seus erros. Literalmente. Assassinato
simples......................................50 mil
Talvez essa idéia pareça cínica a alguns, mas o cinismo sempre leva uma
vantagem em relação à hipocrisia: ele revela, ela oculta. Quem sabe se assim
não conseguimos espantar essa sensação desagradável que já incomodava o
advogado Gregório de Matos há mais de trezentos anos: "E
que justiça a resguarda? Bastarda. Teorias estúpidas – VIII Das
cunhadas e das sogras
Por que boa parte dos maridos, seja qual for a sua cultura ou religião, têm
aversão às suas sogras e um certo interesse pelas irmãs mais novas de sua
mulher?
Um homem viajou de Ur, no distante Oriente, até o reino do Catai, no Oriente
ainda mais distante. Esse homem procurava Ly-Yu-Tan, aquele que sabia as
respostas de todos os problemas. Depois de caminhar a pé por vales e planícies,
e de atravessar rios e mares, o homem chegou à morada de Ly-Yu-Tan, que ficava
no ponto mais alto de uma montanha coberta de neve. Ao entrar na caverna
habitada pelo grande filósofo, o homem expôs o seu caso: Teorias estúpidas – VII A
Pátria é a seleção de sapatos
Nelson Rodrigues disse que "a seleção é a pátria de chuteiras".
Pensando na escalação da última Copa, verifiquei que a relação entre a seleção
e a sociedade brasileira poderia ser ainda mais profunda. Talvez o escrete
nacional não seja apenas a representação esportiva do país, não seja apenas
a pátria de chuteiras. Mais que isso, a seleção é também a representação
dos principais segmentos da sociedade brasileira e das relações entre eles.
Vejamos: A
zaga Teorias estúpidas – VI Das
amizades I
Se até os políticos e as bestas feras cultivam entre si algumas formas de
amizade, o homem, que é um dos animais mais necessitados de diálogo, compreensão
moral e amparo psicológico, não poderia deixar de ser também um cultivador
desse tipo de relacionamento. II
Esta é a mais profunda forma de amizade e, segundo Ernulphus, é a que mantemos
com os objetos inanimados. Para o sábio romano, o homem somente deixa de ter
uma visão utilitária da amizade quando se relaciona com algo que seja
diferente dele em natureza, forma e substância. Por isso o objeto inanimado é,
segundo ele, o ouvinte perfeito, o confessor sereno, o conselheiro
desapaixonado. III
A garrafa! Este e nenhum outro objeto é o mais perfeito amigo. IV
Porém, sempre haverá quem dê outras destinações às garrafas. Tias
usam-nas como vasos e adolescentes frenéticas dançam sensualmente sobre elas,
mas isso foge ao propósito científico desse artigo. Aqui quero tão somente
provar que elas, e não os cães ou os outros homens, são os nossos melhores
amigos. Teorias estúpidas – V Dos
mártires, dos heróis e dos covardes I II III Teorias estúpidas – IV Dos
sábios e dos sabidos
Tenho para mim que, tirando a grande maioria dos parvos, estultos, idiotas,
simplórios, crassos, patetas, imbecis, tolos, ignorantes, palermas, insanos e
fracos de entendimento que povoam a Terra, a pequena minoria restante divide-se
em dois blocos: os sábios e os sabidos. Teorias estúpidas – III O
nome da gonorréia II III Minhas férias
Certamente o leitor já reparou que as ruas estão um pouco menos congestionadas
e as pessoas com um tanto mais de humor. Alguns atribuem este ânimo ao excesso
de raios ultravioleta, muito comum no verão; outros à conjunção astral pela
qual passa o país, com Júpiter no meio do céu. Eu, por mim, prefiro não
culpar as circunstâncias astronômicas ou astrológicas pelo estado das coisas.
Nem mesmo o Fernando Henrique.
Creio firmemente que o motivo para o bom humor nas ruas é algo bem mais
prosaico e terrestre: as crianças estão de férias. A
vida vale a pena
As férias são para mim um mar de tranquilidade. Demoro muito menos tempo para
chegar ao trabalho e depois do serviço saio com os amigos para um chopinho. No
apartamento está tudo muito calmo. Roseli deixou-me o congelador entupido com
uma deliciosa comida congelada. Tenho até pena de dar os restos para o
cachorro.
Sílvio Rodrigues Batista Paraíso-São Paulo A
praia é legal
Tio, aqui na praia é tudo o maior legal. Dá até prá fazer castelo na areia,
mas eu não consigo fazer eles muito grandes porque quando eles tão quase do
tamanho que eu queria vem uma onda e derruba tudo e aí eu choro muito. Se o
papai vier vai ser superlegal, porque aí eu vou fazer o castelo em cima da
barriga dele e a água não vai chegar. Trabalho
e suor
Sabe os doze trabalhos de Hércules? Fichinha. Queria ver ele aqui com o Lucas.
A tia Esther foi um anjo emprestando a kitchinette, mas ela podia ter avisado
que a lotação máxima era uma pessoa. De preferência, anã.
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