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Artigos Enviados por Colaboradores
2º Semestre de 2010

Educação sem Futuro

Dezessete anos depois de realizar meu primeiro exame vestibular, tornei a vivenciar esta experiência ao prestar o concurso promovido pela Fuvest para seleção dos postulantes às vagas oferecidas pela Universidade de São Paulo.

Domingo ensolarado, dia de final de campeonato brasileiro de futebol, observo no local do exame uma legião de candidatos, jovens em sua maioria, que estampam em seus semblantes um ar de apreensão, tensão e incômodo, como se estivessem diante de uma decisão que impactará todo seu futuro.

Cinco horas de prova e cem questões de múltipla escolha para dizer-lhes se estarão aptos a transpor mais um ritual de passagem, chancelando o passaporte para a vida adulta, marcando o fim da adolescência. A aprovação significará a certeza de um horizonte na vida profissional, a conquista de um novo padrão de liberdade e de um novo status de inclusão social.

Após algumas instruções gerais e a preocupação inequívoca do fiscal de prova com o risco de algum candidato aventurar-se a colar durante a realização dos testes, o caderno de questões é entregue. Folheio-o e uma profunda sensação de decepção toma conta de meus pensamentos.

Nosso sistema educacional está falido. Inadequado, ultrapassado, anacrônico. Continuamos formando um exército de estudantes doutrinados a grafar uma letra “X” em uma alternativa dentre cinco possíveis. Estamos desperdiçando a oportunidade de ensiná-los a pensar, a raciocinar, a criar.

O exame vestibular considerado o mais bem preparado do Brasil sinaliza esta realidade com perfeição. As questões de física e química remetem todas ao uso de fórmulas e equações que precisam ser decoradas pelo estudante para serem utilizadas na solução de problemas absolutamente desconectados de nosso cotidiano. O sujeito aprende a mensurar a velocidade de arrasto de um peso ancorado em uma polia bem como fazer o cálculo estequiométrico de uma reação, mas não sabe trocar o chuveiro de sua casa, compreender como o consumo de seus equipamentos eletroeletrônicos afeta sua conta de energia elétrica e o porquê da adição de álcool à gasolina reduzir a potência de seu carro.

Mais algumas regras memorizadas e se está habilitado a estimar a altura “h” de um triângulo escaleno inserido em um poliedro ou a probabilidade de se extrair uma seqüência de bolas coloridas mediante determinada combinação pré-estabelecida, mas não se dispõe de instrumental suficiente para calcular os juros embutidos nas prestações de um produto vendido “em oferta” por uma loja de departamentos.

Aprende-se a vital diferença entre angiospermas e gimnospermas, sem nunca se ter visitado um jardim botânico ou atravessado a rua até o parque ou praça mais próximos. Aprende-se sobre como se dá a fotossíntese, mas evita-se falar em educação ambiental. Gametas e zigotos são explorados ao longo de todo um ano, mas educação sexual deixa de ser discutida.

Ignoram-se a crise política no país e os conflitos étnico-religiosos no mundo, para se falar sobre as características do feudalismo. Questiona-se sobre as características físicas ou da personalidade do protagonista de um romance, mas não se promove o prazer pela literatura através da leitura despretensiosa.

Vestibulares existem para alimentar uma rentável indústria formada por cursinhos preparatórios e mesmo para justificar as altas mensalidades cobradas por muitas instituições de ensino médio que se notabilizam pelo elevado índice de aprovação de seus rebentos nestes concursos.

A verdade lastimável, preocupante e penosa é que nossos jovens continuarão pagando elevados juros no cheque especial, cartões de crédito e compras parceladas; permanecerão engordando os indicadores de gravidez precoce e doenças sexualmente transmissíveis; seguirão destruindo o meio ambiente tomado por empréstimo dos filhos que ainda vão ter; persistirão elegendo maus governantes.

A Educação é o meio de se construir uma nação mais equânime num futuro próximo. Sinto que a argamassa não está sendo elaborada com boa qualidade e que nossos alicerces estão cada vez mais frágeis...

Tom Coelho
Formado em Publicidade pela ESPM, Economia pela USP,
especialização em Marketing pela Madia Marketing School e em
Qualidade de Vida no Trabalho pela USP,
é consultor, professor uni
versitário, escritor e palestrante.
Diretor da Infinity Consulting, Diretor Estadual do NJE/Ciesp e
VP de Negócios da AAPSA.

No Limiar da Inovação

O mundo corporativo é um grande funil. Milhões de companhias em busca do sucesso disputando espaço no coração, na mente e no bolso dos consumidores. Em meio a produtos e serviços similares, empresas claudicantes e clientes infiéis, sobrevivem e se destacam aquelas capazes de se reinventar e construir seu próprio futuro. Estamos falando de empresas inovadoras.

Uma inovação é o resultado da associação de dois ou mais fatores que podem ou não guardar aderência entre si, mas que geram um terceiro fator identificado como novo. O renomado futurólogo Joel Barker, em seu mais recente vídeo intitulado “No Limiar da Inovação”, distribuído com exclusividade no Brasil pela Siamar, vai além.

Barker apresenta o conceito de limiar da inovação, um lugar onde algo e algo diferente se encontram. Podemos reduzir isso em outra palavra: convergência. A combinação de ideias, de produtos, de serviços, de estratégias. Um movimento interdisciplinar, reunindo conhecimentos variados; multidisciplinar, agrupando diferentes disciplinas; e transdisciplinar, congregando teoria e prática. Vejamos alguns exemplos.

1. Sacola para presente. Mais de 100 anos após a invenção das sacolas de papel e 60 anos da criação dos papéis de embrulho decorados, estes dois produtos relativamente simples se uniram para gerar as sacolas para presente. Uma solução inteligente e diferenciada de embalagem demonstrando que a inovação está ao nosso redor.

2. Hotelaria hospitalar. Como amenizar o desconforto de um paciente internado, privado de suas atividades cotidianas, da companhia de seus familiares e da liberdade de sentir a brisa ou o calor do sol? As redes de hotéis de luxo têm ensinado aos administradores hospitalares que a estadia deve ser agradável; a alimentação, saborosa; e o atendimento, impecável.

3. Velcro. A invenção do engenheiro suiço George de Mestral surgiu de sua observação dos carrapichos, nome popular das sementes de arctium, que grudavam em sua roupa e nos pelos de seu cão em suas caminhadas pelos Alpes. Analisando ao microscópio, Mestral notou que a estrutura dos filamentos formava pequenos ganchos nas extremidades que se prendiam às argolas formadas pelos fios do tecido das roupas. Assim nasceu o velcro, do francês velours (veludo) e crochet (gancho), um produto composto de dois materiais sintéticos que reproduzem o mecanismo de junção de um gancho a uma argola.

A inovação no limiar desta invenção veio da Alemanha, onde engenheiros da Universidade de Munique desenvolveram um velcro de aço com capacidade para suportar até 35 toneladas por metro quadrado em ambientes com temperaturas de até 800ºC.

4. Transporte aéreo de passageiros. Este é um serviço que poderia ser qualificado como venda de “economia de tempo”. De fato, as pessoas usam aviões porque pretendem chegar mais rapidamente ao seu destino. Contudo, a sistemática atual exige que um passageiro esteja no aeroporto com cerca de uma hora de antecedência, enfrentando filas terríveis para fazer o check-in e despachar a bagagem. E, no desembarque, perca novamente muito tempo para restituir seus pertences.

Embora todas as companhias aéreas, sem exceção, não tenham esta perspectiva –e, exatamente por isso, estejam perdendo mercado para os trens de alta velocidade– alguém inovou no limiar inspirando-se possivelmente nos bancos para permitir a realização do check-in via terminais de autoatendimento ou on line, pela internet.

5. Outdoor. A peça de mídia exterior é convencionalmente formada por colagem de folhas impressas sobre placas de madeira ou metal. Em 2003, a agência Saatchi & Saatchi inovou no limiar com um anúncio para a Audi, exposto na Dinamarca.

O outdoor aparentava ser, em princípio, uma placa única de metal, lisa e sem qualquer imagem ou inscrição. Todavia, com o passar dos dias, o clima úmido foi enferrujando a superfície, tornando visível a silhueta do veículo, a logomarca da empresa e a frase “All Aluminium Audi A2”. Ou seja, o aço, por oxidar de forma muito mais agressiva que o alumínio, demonstrava o diferencial do novo veículo.

Só para registrar, o trabalho recebeu dois prêmios: Leão de Ouro, no Festival de Cannes, e o Lápis de Ouro, no One Show.

6. Delivery. O serviço de entrega em domicílio revolucionou boa parte do varejo, integrando o DNA de operações como pizzarias e drogarias. A inovação no limiar estendeu o mesmo princípio aos supermercados, trazendo conforto e praticidade a um grupo especial de consumidores.

7. Montanha robótica. A empresa alemã Kuka Robotics fabrica robôs como o Titan 1000, capaz de levantar uma tonelada e mover-se com precisão para qualquer direção num raio de nove metros e a uma altura de até cinco metros. Este mesmo robô foi adaptado para parques de diversão em Londres e no Canadá criando uma espécie de montanha russa compacta proporcionando aos usuários uma experiência diferenciada e aos investidores um ótimo retorno sobre o investimento.

8. Car sharing. Imagine ter acesso a veículos diversos, espalhados por vários pontos da cidade, pagando uma diária ou valor fixo por hora, com combustível, seguro e manutenção incluídos. Assim funciona o sistema de compartilhamento de veículos criado na Suíça em 1988 e já disponível em mais de mil cidades no mundo. A inovação no limiar deriva de sistema similar aplicado a casas de veraneio, barcos e até mesmo bolsas de grife.

9. Eleições. A vitória de Barack Obama deve muito à internet e às redes sociais. Da arrecadação de recursos à convocação de voluntários, passando pela divulgação da campanha e formação da opinião pública. Uma inovação no limiar no jeito de fazer política, integrando o mundo online ao offline.

10. Celulares e internet. Com os celulares, temos a convergência aplicada ao limite. Eles batem foto, gravam vídeos, enviam mensagens de texto, permitem ouvir rádio, músicas, acessar a internet, registrar compromissos, jogar e... até falar!

Já a internet marca o tipo de inovação que podemos qualificar como superlimiar. Da máquina de escrever aos processadores de texto, da fotografia ao Photoshop, das pranchetas ao AutoCAD. E as evoluções dentro do próprio meio: do site para os blogs, do ICQ para o MSN, do e-mail para o Twitter.

O mundo corporativo passa por crises constantes. Nestes momentos, é comum políticas de caça às bruxas e cortes nos orçamentos suspenderem programas voltados à inovação, desperdiçando grande oportunidade de se estabelecer diferenciais competitivos duradouros.

O século passado foi dominado pelos EUA. Mais ainda, ficou marcado por dividir o mundo entre nações ricas e pobres. Pode-se inferir que este será o século da Europa, com o fortalecimento do euro. Ou talvez da China, com suas taxas galopantes de crescimento econômico. Eu acredito que este período marcará uma nova divisão, desta vez entre as nações que sabem e as que não sabem. E a vanguarda estará nas mãos das pessoas, empresas e nações capazes de inovar no limiar.

Tom Coelho
Formado em Publicidade pela ESPM, Economia pela USP,
especialização em Marketing pela Madia Marketing School e em
Qualidade de Vida no Trabalho pela USP,
é consultor, professor uni
versitário, escritor e palestrante.
Diretor da Infinity Consulting, Diretor Estadual do NJE/Ciesp e
VP de Negócios da AAPSA.

Praia do Suá: Um Espaço em Produção

SUMÁRIO:
1.   Introdução
2.   Evolução urbana de Vitória
2.1. Projeto de um novo arrabalde
2.2. Histórico da Praia do Suá
2.3. O hospital
2.3.1. Sobre hospitais...
2.4. Aterramento da Praia do Suá
3.     De Periferia a centro...
4.     Considerações Finais
5.     Referências

RESUMO
Trata de um estudo do bairro  Praia do Suá (antiga Vila de pescadores), Vitória (ES). Investiga a produção daquele espaço ao longo do tempo; identifica os agentes produtores e seus projetos; analisa as transformações do local decorrentes das ações desses agentes; avalia efeitos ocasionados por estas ações; demonstra a descaracterização do lugar e a participação do mesmo no processo de urbanização de Vitória; sugere medidas que favoreçam uma melhor ambiência no bairro.

PALAVRAS-CHAVE: Espaço geográfico. Novo Arrabalde. Praia do Suá
1 INTRODUÇÃO
A motivação para a elaboração do estudo surgiu por intermédio de duas pesquisas realizadas durante o curso de Geografia, que nos permitiram uma aproximação com a temática em questão, acrescida do fato da autora ser moradora nativa da Praia do Suá (filha de pescador), tendo acompanhado às transformações ocorridas no lugar. O tema é Produção do Espaço e o título “Praia do Suá: um espaço em produção” é decorrente da análise e avaliação da pesquisa e o objetivo foi o de investigar como ocorreu a produção daquele bairro no tempo, identificando os agentes produtores e as conseqüências advindas dessa produção.
Durante o projeto de pesquisa, por ocasião dos levantamentos realizados, verificamos que a Praia do Suá passa por profundas modificações em sua estrutura física e social. O bairro que era pacato e acolhedor está cada vez mais violento e tumultuado, propiciando a mudança de moradores para outros bairros. Constatamos o abandono de algumas residências, tornando-se estas, abrigo de pessoas à margem da sociedade (desocupados, ladrões, drogados). Outras foram transformadas em pontos de comércio e serviços.
A locomoção dentro do bairro também é problemática, dificultada pelos bares e estabelecimentos, em sua minoria, de venda de pescados. O bairro funciona também, como ponto de passagem, já que dá acesso à Terceira Ponte e ao Shopping Vitória e diversos pontos da ilha.
A justificava para a realização do estudo foi a oportunidade de conhecimento de como a Praia do Suá participa do processo de urbanização de Vitória e de como a Geografia nos auxilia a compreendê-lo. Segundo Foucault (1988), a Geografia é um exemplo de disciplina que utiliza sistematicamente inquérito, medição e exame; tratamentos utilizados na pesquisa, similares, sob a forma de investigação, análise e avaliação.
Para alcançarmos nosso objetivo foi relevante realizar um levantamento histórico sobre a cidade de Vitória para conhecermos melhor sua produção. Esse conhecimento nos possibilitou identificar agentes produtores e planos elaborados ao longo do tempo e os reflexos dessas ações na Praia do Suá. Dois planejamentos urbanos, de grande porte, nos quais a Praia do Suá estava incluída, nos auxiliaram a entender como esse espaço vem sendo produzido ao longo do tempo, são eles: “O Novo Arrabalde (1896) e O Aterramento da Praia do Suá (1972)”.
A metodologia adotada foi de levantamento bibliográfico em literatura pertinente ao assunto, inclusive na mídia impressa; coleta de documentação e fotos aéreas (retratando a Praia do Suá antes, durante e pós-aterramento); trabalho de campo realizado no bairro; foi valorizado também o recurso da fotografia (trabalho executado pela autora); entrevistas com moradores, etc.
Para um melhor entendimento da dinâmica espacial, utilizamos o pensamento de alguns autores, que nos auxiliaram na compreensão desse fenômeno: Lenyra Rique da Silva aponta a existência de espaços desiguais produzidos pelo capitalismo; por meio do pensamento de Antônio Carlos Robert de Moraes & Wanderley Messias da Costa entendemos o movimento da sociedade e de como o capitalismo a conduz para reprodução de espaço; Milton Santos define categorias que nos ajudaram a compreender como o espaço é produzido pela sociedade e a forma como ela se organiza nele; por intermédio de Armando Corrêa da Silva entendemos que o espaço é apropriado de diferentes maneiras e Roberto Lobato Corrêa nos mostra as ações, os agentes produtores e o modo pelo qual se apropriam do espaço.
De posse da compreensão espacial, segundo os autores citados, procuramos reconhecer esse dinamismo na Praia do Suá, assim como, às conseqüências advindas dele.
Assim, foi realizado um levantamento histórico da urbanização da cidade de Vitória com vistas a entender a participação da Praia do Suá nesse contexto. Conhecemos assim, vários planejamentos urbanos que tinham como finalidade a expansão e a modernização da cidade, entre eles, “O Novo Arrabalde” e “O Aterramento da Praia do Suá”, já mencionados.
O estudo foi estruturado da seguinte maneira:
- No capítulo 2, o levantamento da evolução urbana de Vitória possibilitou conhecer os planos e os agentes produtores desse espaço, no tempo, e de como a Praia do Suá participa dessa produção.
• Por intermédio do “O Novo Arrabalde, grande planejamento urbano ocorrido no final do século XIX, identificamos a origem do nosso objeto de estudo”. Também foi tratado nesse capítulo:
• O histórico da Praia do Suá que nos deu conhecimento dos agentes produtores e da forma como esse espaço começou a ser produzido no início do século XX.
•  O hospital que fazia parte desse planejamento foi um dos instrumentos que utilizamos para construir os resultados de nossa pesquisa. Procuramos entender a finalidade da sua localização na Praia do Suá no início do século XX e a razão de um outro, menor, sem funções definidas, permanecer no local.
•  A partir do aterramento da Praia do Suá, evidenciamos que um novo espaço estava para ser produzido naquele lugar.
- No capítulo 3, pretendemos demonstrar o espaço produzido no passado e as evidências de uma nova produção desse espaço no presente, assim como os reflexos decorrentes dela.

2  EVOLUÇÃO URBANA DE VITÓRIA
De acordo com a pesquisa, o processo de urbanização da cidade de Vitória foi lento até o final do séc. XIX, e acelerado a partir do séc. XX, devido a sua localização entre o mar e o maciço central dificultando o seu crescimento físico, e também pelos poucos recursos à disposição dos governantes. A vila se desenvolvia basicamente em torno do porto e na base do maciço central correspondendo ao atual centro da cidade. A preocupação dos dirigentes do Estado, na época, era expandir à área física da capital para facilitar o seu crescimento econômico.
Assim, em 1892 foi eleito o Dr. José Melo Muniz Freire para presidente do estado [assim se chamavam os governadores na época], tendo como principal meta, atrair e centralizar investimentos de capitais privados dirigidos, principalmente para o comércio, com vista a promover o desenvolvimento da cidade; justificando que Vitória possuía os requisitos necessários para se tornar um importante centro econômico do estado, tais como: por ser a capital e possuir uma excelente localização geográfica, somado à alta repentina no preço do café em 1894 [que ocasionou um saldo muito positivo na receita do Estado]. Era o momento propício para colocar em prática os seus planos de desenvolvimento da cidade, por meio de duas providências principais:
• Saneamento de Vitória, que era precário, propiciando constantes epidemias;
• Expansão do espaço físico, que era muito limitado.
Foi contratado um engenheiro sanitarista para fazer um planejamento urbano, na região das praias objetivando, setuplicar o tamanho de Vitória, resultando daí o projeto “O Novo Arrabalde”.
Ao final do governo Muniz Freire, iniciou-se uma crise no cultivo do café prejudicando suas intenções quanto ao crescimento de Vitória. Essa crise fez com que, de 1896 a 1908, pouca coisa acontecesse ficando  o projeto do Novo Arrabalde esquecido por um bom tempo.
Em 1908, assume o governo, Jerônimo de Souza Monteiro que mesmo com a crise deu andamento a alguns projetos iniciados com Muniz Freire como saneamento, eletrificação e aterros.
Ao longo dos anos, o centro da cidade se tornou insuficiente para a população local, sendo necessário executar o planejamento urbano proposto por Muniz Freire.

2.1 PROJETO DE UM NOVO ARRABALDE
Foi o primeiro plano de urbanização da cidade de Vitória (1896), do qual se originaram os bairros: Praia do Canto, Praia do Suá, Praia de Santa Helena, Santa Lucia, Bento Ferreira e Jucutuquara. A elaboração foi de Francisco Saturnino de Brito (engenheiro sanitarista campista) com o objetivo, já mencionado, de setuplicar a área ocupada da ilha com vistas a criar em Vitória, um grande centro comercial.
O local escolhido foi a parte leste da cidade onde se situavam as praias, até então desabitadas; a execução teve reinício no governo de Florentino Avidos no ano de 1924, após a chegada dos primeiros moradores, cuja ocupação no bairro foi facilitada por algumas obras, em especial as estradas, iniciadas no governo Muniz Freire.
Além da parte sanitária, do loteamento, da arborização, da abertura e ampliação de ruas, também constava do projeto, a construção de um grande hospital no local de estudo (Praia do Suá) e um cemitério no local onde atualmente é o bairro Barro Vermelho;
Segundo Campos Júnior (1996), essas obras não foram realizadas no governo de Muniz Freire, pois, devido à extinção da comissão de melhoramentos, formada em 1893, presidida por Saturnino de Brito, paralisou-se a obra do hospital já em início de construção.

2.2  HISTÓRICO DA PRAIA DO SUÁ
A Praia do Suá localiza-se na parte sudeste da ilha de Vitória, limitando-se ao norte com o bairro Santa Lúcia, ao sul e a leste com o bairro Enseada do Suá e a oeste com o bairro Bento Ferreira.
De acordo com as fontes pesquisadas, o nome Praia do Suá surgiu da expressão “Bom Soir”, utilizada por um professor de francês, com muita freqüência, ao apreciar a beleza das noites no local. Sua paixão pela paisagem era tamanha que a praia passou a ser conhecida como “Suá” entre as pessoas mais humildes, pela semelhança do som.
O bairro nasceu como colônia de pescadores, tendo como fundadores, pescadores portugueses, originários da Póvoa do Varzim, que ocuparam os terrenos baldios localizados perto do mar, trazendo para o lugar tradições de sua terra natal. Outros imigrantes também fazem parte desta história. Devido a forte religiosidade dos imigrantes, o local era propício para moradia deles, pois o Convento da Penha era visualizado por eles e se sentiam abençoados por habitarem ali. Construíram suas casas de estuque e, coordenados pela Colônia de Pesca Z2 [hoje Z5], passaram a viver da pesca. Havia cerca de quarenta famílias portuguesas cujos chefes se dedicavam à pesca em alto-mar. Fixava-se assim, desde os primórdios, a vocação pesqueira do futuro bairro.
Seus antigos moradores, segundo Neves & Pacheco (1996), guardam a lembrança de um local desprovido de condições urbanas satisfatórias, pois na época havia somente água, mato e areia. Alguns comentaram que o bairro era bem arborizado existindo, inclusive, pomares em alguns trechos. O terreno onde mora a autora desse estudo era uma chácara, no passado.
De acordo com nossa investigação, aquela zona praiana, até o começo do século XX, era pouco freqüentada e praticamente despovoada devido a dificuldades de acesso. De acordo com Derenzi (1965), a Praia do Suá no início do século XX, era coberta de intensa vegetação, quer de mangue, nos alagadiços, quer de cajueiros, palmeiras e arbustos próprios de solo arenoso.
O início da ocupação dos lotes na Praia do Suá de acordo com o autor referenciado e confirmado por alguns moradores, deu-se em 1906, originando-se do projeto “O Novo Arrabalde”.

2.3  O HOSPITAL
Derenzi (1995) diz que o hospital projetado [a Santa Casa de Misericórdia] não foi além dos alicerces robustos e foi transformado na época, em favela perigosa e prejudicial aos arruamentos do bairro. Esse hospital ocuparia uma extensa área no lugar.
Com a não construção do grande hospital, um de menor porte, em homenagem aos pescadores, foi construído no lugar onde seria a Santa Casa de Misericórdia. No restante do lote foram construídas residências. O novo hospital foi chamado de “São Pedro”, cuja inauguração foi no ano de 1959. Esse hospital sofreu ao longo do tempo, adaptações e modificações em sua estrutura e funcionamento, ficando fechado em algumas ocasiões. No ano de 2007 passa a funcionar como um Pronto-atendimento (PA).
2.3.1 SOBRE HOSPITAIS...
Segundo Foucault (1988), a coabitação em um mesmo tecido urbano de pobres e ricos foi considerada um perigo sanitário e político para a cidade, o que ocasionou a organização de bairros pobres e ricos, de habitações ricas e pobres [grifo nosso].
Foucault diz também que a questão do hospital é fundamentalmente a do espaço ou dos diferentes espaços a que ele está ligado, que a preocupação era de onde localizar o hospital, que era necessário que o espaço em que estivesse situado se ajustasse ao esquadrinhamento sanitário da cidade e que é no interior da medicina do espaço urbano que deveria ser calculada a localização do hospital [grifo nosso].

2.4 ATERRAMENTO DA PRAIA DO SUÁ
Ocorreu na década de 1970, o projeto continha várias finalidades, tais como: criação de área para ocupação residencial; urbanização da região do Suá; possibilidade de criação de atividades comerciais e de prestação de serviços na região; melhoramento da circulação de veículos...
Segundo Carvalho & Rothschaedl (1994), no projeto inicial da Enseada do Suá, esta constava como sendo uma área de expansão residencial com apenas uma região de pequeno comércio. Seria construída para descentralizar o centro, mas com características principalmente residenciais. O comércio e serviços que ali existiriam seriam para atender as proximidades. Esse projeto, segundo aquelas autoras, foi alterado devido a mudanças na presidência da COMDUSA. A construção da Terceira Ponte (denominada Darcy Castelo de Mendonça) no ano de 1989 modificou essa perspectiva. A partir desse evento, o local não foi visto mais simplesmente como área para expansão residencial e sim, para exploração comercial e serviços locais, tendo-se também a intenção de considerá-lo no futuro como um possível novo centro de Vitória.

3 DE PERIFERIA A CENTRO (resultados)...
Procuramos conhecer o significado das palavras arrabalde e periferia para entendermos a localização da Praia do Suá no passado. Segundo Rocha (1995), arrabalde seria um bairro afastado, um subúrbio. Para Bueno (1956), periferia são bairros afastados do centro da cidade. Arrabalde e periferia seriam então sinônimos. O Novo Arrabalde, portanto, se localizaria na periferia (afastado do centro da cidade).
No projeto do Novo Arrabalde constava um grande hospital a ser construído na Praia do Suá e um cemitério no Barro Vermelho, nos recordando as palavras de Foucault: “é no interior da medicina do espaço urbano que deveria ser calculada a localização do hospital” [grifo nosso], reforçando assim, nosso entendimento de ser aquele lugar zona periférica (segregada), já que era no centro da cidade que a elite morava, no qual estavam localizadas as principais atividades.
No passado, falando de Brasil, preferia-se morar nos centros urbanos, pois era o local de concentração do comércio. Geralmente quem morava nos centros urbanos era a elite (por falta de opção), no caso de Vitória; a população mais carente e proveniente de zona rural (êxodo rural), por volta dos anos 60, quando a indústria começa a despontar como alternativa para a diversificação econômica ano estado, foi morar nos morros.
Em virtude da localização desse hospital na Praia do Suá, da pequena extensão do bairro e, por conseguinte, poucos loteamentos, ligado ao fato de a Praia do Suá naquela época se localizar próximo a uma Vila de operários e ainda estar entre dois morros (atualmente São José e Jesus de Nazaré), pensamos que dentro do Projeto do Novo Arrabalde teriam áreas preferenciais para a elite morar e que provavelmente a Praia do Suá não seria uma delas. Pela formação do bairro e características mantidas até recentemente, não se têm evidências e nem notícias de que a elite um dia morou no local de estudo.
Apesar de até então estarmos falando de localização, pensamos que a Praia do Suá também era periferia no sentido das classes sociais ali existentes, assim como da função que esse bairro exercia naquela época para Vitória, sem importância significativa, pensamos.
Um hospital, no passado, geralmente era construído fora da área residencial, devido à falta de infra-estrutura existente que ocasionava epidemias.

No trabalho realizado em campo constatamos:

- Quantidade cada vez menor de residências, demonstrando que o lugar deixou de ser essencialmente residencial, como era no passado;
- “Rugosidades” (setores de resistência), de acordo com Santos (1992); a área onde os pescadores moravam, em proximidade do mar (no período anterior ao aterramento), é onde, ainda, existe uma grande concentração de residências;
- Bairro com áreas distintas, o velho e o novo convivendo juntos, lembrando o que foi dito por Santos (1992), sobre “o novo e o velho”. O bairro Enseada do Suá, construído na área aterrada, com padronização moderna e arrojada, também contrasta com o lugar.
- Perda da identidade cultural do bairro; com o aterramento e posterior urbanização, o bairro deixou de ser tipicamente, um local habitado por pescadores e perdeu também seus festejos populares (Festa de São Pedro);
- Características de centro: intensa movimentação de veículos (ponto de passagem), atividades de comércio e serviços praticadas no local por meio do surgimento de novas formas (bancos, edifícios, lojas, bares, supermercado, clínicas...).
- Poluição visual (prédios que impedem visualização do mar e Convento da Penha) e auditiva (barulho de veículos), dificuldade de locomoção.
A Terceira Ponte localizada próxima ao local de estudo, trouxe reflexos já esperados, pois segundo Escobar (1989 p.47), “a nova ligação entre Vitória e Vila Velha com acessos muito próximos às áreas residenciais e a eixos viários importantes, causará impactos na estrutura urbana destas áreas”, juntamente com o Shopping Vitória contribuem para muitos dos problemas apresentados nesse estudo, no tocante a parte viária, movimentação e modernização de algumas áreas do bairro.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O aterramento deu continuidade a um processo de descaracterização do lugar, ocasionando um sentimento de ambivalência nos moradores, por meio da satisfação com o novo e perspectivas advindas dele (progresso); mas, ao mesmo tempo, desconforto e insatisfação (perda da identidade cultural do local de estudo), trazendo como primícia, a ausência do mar, que os pescadores tinham a sua porta.
O bairro que era uma vila de pescadores foi perdendo suas características originais em detrimento do planejamento urbano destinado para aquela área, em princípio, um grande aterramento (atualmente Enseada do Suá). A nova paisagem que se descortina para os moradores, são prédios altíssimos que impedem que o Convento da Penha seja apreciado por eles.
Devido a todo o exposto verificou-se que o lugar deixou de ser, como já foi dito pacato e acolhedor. A Praia do Suá possui cada vez menos características de uma vila de pescadores e cada vez mais características de centro urbano. Constatou-se, no espaço estudado (que foi produzido inicialmente pelos pescadores), a incorporação de outros agentes (iniciativa pública/privada), que fazem uma nova produção, promovida pela dinâmica espacial.
A fim de amenizar alguns transtornos, advindos da circulação de veículos dentro do bairro, foi encaminhada ao prefeito da capital uma cópia da monografia mencionada, constando (em anexo) um croqui, identificando os principais problemas observados. 
A contribuição da pesquisa para a Geografia é demonstrar algumas maneiras pela qual, a teoria geográfica possibilita investigar, entender e avaliar a produção do espaço geográfico.

5 REFERÊNCIAS
1  BRITO, Francisco Saturnino Rodrigues de. Projeto de um novo arrabalde / Francisco Saturnino Rodrigues de Brito – Rio de Janeiro : Xerox do Brasil; Vitória : Arquivo Público Estadual do Espírito Santo, 1996 – 73p: il.; 28 (coleção Canaã, v.2).
2  CAMPOS JÚNIOR, Carlos Teixeira de. O Novo Arrabalde. Vitória: PMV, secretaria Municipal de Cultura e Turismo, 1996.
3  CARVALHO, Nélia Maria Marinho de; ROTHSCHAEDL, Sílvia Letícia. Enseada do Suá, um bairro em evidência. Monografia apresentada ao Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Espírito Santo, 1994.
4  CORRÊA, Roberto Lobato. O Espaço Urbano. 2. ed. São Paulo: Ática, 1993. 94p.
5  ______. Região e Organização Espacial. 3 ed. São Paulo: Ática, 1990. 215 p.
6  DERENZI, Luiz Serafim. Biografia de uma Ilha. 2. ed. Vitória: PMV, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, 1995.
7  ESCOBAR, Maria do Carmo Grijó. Acessos Norte-Uso e Ocupação do Solo. Projeto de Graduação II. Departamento de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 1989.
8  FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 7. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1988. 295 p.
9  MORAES, Antônio Carlos Robert & COSTA, Wanderley Messias da.  Geografia Crítica: A  Valorização do Espaço. 4. ed. São Paulo: Hucitec, 1999. 196 p.
10  NEVES, L. G. S & PACHECO, R.C. Memória Viva. Vitória: Secretaria Municipal de Cultura e turismo, 1996.
11  SANTOS, Milton. A urbanização desigual : a especificidade do fenômeno urbano em países subdesenvolvidos. Petrópolis : Vozes, 1982.
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Síntese do projeto de aterramento da Praia do Suá, 1972. Instituto Jones dos Santos Neves.
13  ______. Metamorfoses do Espaço Habitado: Os fundamentos teóricos e metodológicos da Geografia. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 1991. 124 p.
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15  SILVA, Armando Corrêa. As categorias como Fundamentos do Conhecimento Geográfico. Seminário “Filosofia e Geografia”, AGB, Rio de Janeiro, 1983
16  SILVA, Lenyra Rique da. A Natureza Contraditória do Espaço Geográfico. São Paulo: Contexto, 1991.
17  Síntese do projeto de aterramento da Praia do Suá,1972. Instituto Jones dos Santos Neves.
18  Universidade Federal do Espírito Santo. Biblioteca Central. Guia para normalização de referências: NBR 6023/2000. Vitória: A Biblioteca, 2005.
19  Universidade Federal do Espírito Santo. Biblioteca Central. Normalização e apresentação de trabalhos científicos e acadêmicos: guia para alunos, professores e pesquisadores da UFES / Universidade Federal do Espírito Santo. 5 ed. ver. e ampl. Vitória: A Biblioteca, 2005.

Lucia Helena Pazzini de Souza
Funcionária Pública Federal
Vitória-ES